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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013"

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A invisibilidade lésbica e a invisibilidade da violência

A redatora do sexista e heteronormativo comercial da Marisa declarou (e depois pediu que desconsiderássemos) que ele se dirige às mulheres heterossexuais porque estas são maioria.

Além de ser uma peça terrivelmente preconceituosa em diversos aspectos, reflete um comportamento muito comum e naturalizado: agir como se mulheres não-heterossexuais não existissem. Isto ocorre em todas as esferas, inclusive em meios e mídias “gays” ou alternativos: o gay socialmente visível é o homem homossexual (e branco, jovem e de classe média).

A sexualidade das mulheres que não são heterossexuais é constantemente diminuída (mais ainda que a das mulheres heterossexuais): enquanto o homem gay “não tem salvação”, a mulher lésbica ou bissexual “ainda não encontrou um homem de verdade”, “tá tentando chamar atenção” ou “está só experimentando”. Ou, claro, “queria ser um homem”.
A nossa tão (machistamente) falada ausência de desejo sexual torna o sexo lésbico sem sentido: por que outro motivo uma mulher faria sexo, se não para agradar um homem? Como pode ser prazeroso o sexo entre duas mulheres se “falta alguma coisa”? Só podemos nos interessar por outras mulheres se tivermos tido algum “trauma com homens”, é o que nos dizem; por nenhum outro motivo abriríamos mão do privilégio da heterossexualidade.

Podemos, é claro, fingir que abrimos mão: existe, afinal, algo mais fetichizado do que o sexo lésbico? Uma fantasia mais comum do que aquela em que o homem vê duas mulheres juntas, resolve interferir e só então a experiência fica completa? A ideia de que duas mulheres juntas são um óbvio convite a um ménage à trois é, além de desrespeitosa, cansativa. E é a “menor” das violências a que estamos sujeitas: numa busca rápida no Google, encontramos inúmeros casos de lésbicas, muitas vezes casais, agredidas na rua ou dentro de casa, por desconhecidos ou pelos próprios familiares.
8ª ação lésbica de Brasília.
Tal obsessão heteronormativa chega a extremos: não são raros os casos de estupro corretivo de mulheres lésbicas e bissexuais que pretendem, como o nome diz (porque quem denomina tal prática são seus praticantes e “apoiadores”), corrigir a orientação sexual dessas mulheres, mostrar a elas o que é certo em termos de práticas sexuais e ensiná-las a não mais errar – e até tais casos de abuso e violência são invizibilizados.

Hoje, 29/08, é o Dia da Visibilidade Lésbica. Dia de lembrar, pra que não nos esqueçamos em todos os outros, que o silêncio reforça, alimenta e estimula o preconceito. Que não devemos nos deixar calar e nos fazer invisíveis. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Empresas: Menos ego e mais responsabilidade!

Foto por Raphael Araújo

Esse mês de agosto foi marcado pela crítica à publicidade machista em vários coletivos e blogs feministas e acabou por gerar a "Marcha nacional contra a mídia machista", que aconteceu no último sábado, dia 25 de agosto. O estopim dos protestos foi a imagem publicada na página da prudence, marca de preservativos, que fazia apologia ao estupro. Assim, como quem não quer nada, estava escrito lá: "tirar a roupa sem o consentimento dela". Amigos, entendam, sem consentimento é estupro. Seguido à isso, houve o caso da Nova Schin, que nos jogou na cara uma propaganda em que homens se tornam invisíveis e resolvem bolinar mulheres, o que para nossa legislação, configura estupro. 40 segundos de puro horror.

Por que estou novamente falando no assunto? Porque na segunda-feira passada, a DKT que é detentora dos preservativos Prudence, Sutra e Prudence l'amour lançou uma página no Facebook com a intenção de minimizar os danos que a propaganda equivocada causou na sua imagem. 

Vamos ser pragmáticos, não podemos esperar das empresas que elas sejam caridosas e altruístas, o que podemos esperar e exigir é responsabilidade, como forma de agregar valor à marca. Capitalismo é isso aí, onde há lucro o altruísmo praticamente inexiste. Mas isso não tira o valor das iniciativas das empresas para a construção de um mundo melhor. Então, essa é mais uma conquista que conseguimos através do ativismo nas redes sociais, pressionamos uma empresa a mudar sua postura e se responsabilizar pelo seu erro. O resultado está aqui

Achei que a proposta da DKT foi tímida, no sentido de sua efetividade, pois levar propostas à secretaria de políticas públicas para as mulheres não é algo difícil de realizar e já vem sendo feito. Mas o espaço que a DKT criou está aberto à sugestões e quem tiver uma idéia de como ampliar a ação em prol do fim da violência contra a mulher pode se manifestar. Entretanto, ao mesmo tempo que é tímida quanto à efetividade é ousada em atrelar a marca à um tema difícil, doloroso, invisibilizado. Acho que a DKT e a prudence ganham pontos com o público feminino, que também é consumidor, que usa camisinha, que faz sexo.


Foto por ADphotos
Gostaria que tudo isso servisse de exemplo para empresas como a Nova Schin, que tripudiam em cima das consumidoras, ao não admitir seus erros conosco, ao nos bloquear quando deveria nos ouvir. Vale lembrar que a propaganda "Homens invisíveis" saiu do ar, para evitar maiores danos, claro. Mas o estrago está feito e parece irremediável. Não dá para confiar numa empresa que reage às críticas da maneira como a Nova Schin reagiu. Exigimos menos ego e mais responsabilidade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Publicidade Machista - Os dias de silêncio acabaram



Alguns dias se passaram desde que aconteceram os protestos contra a marca de preservativos Prudence e a cerveja Nova Schin. As duas marcas veicularam campanhas machistas que legitimavam a cultura do estupro. O resultado é que, em ambos os casos, as campanhas foram retiradas dos veículos de divulgação. A Prudence fez uma retratação e a Nova Schin fingiu que não era com ela. Jamais admitirá o erro, embora tenha retirado a peça publicitária da TV. Tudo bem, foram duas batalhas vencidas, mas a luta por uma mídia livre de machismo, racismo, homofobia, transfobia está longe de acabar.

A Nova Schin substituiu a propaganda "Homens invisíveis", pela propaganda "Caveirinhas". Notem que, ainda sim, é uma propaganda machista. 



Isso sem contar a propaganda transfóbica (não consegui encontrar em outro link, apenas aqui) que rolou há alguns meses. A Nova Schin está de parabéns... só que ao contrário!

Um pouco antes da propaganda da Nova Schin virar polêmica nas redes sociais, eu tomei conhecimento de um anúncio do automóvel Fiat Bravo, veiculado na revista Playboy. Tratava-se de um anúncio cuja idéia era a de que mulheres preferem homens com carrões (novidade: há mulheres que gostam de carros e os compram com o próprio dinheiro, sabia, fiat?). O texto diz: "Se você ainda não tem um Fiat Bravo, o jeito é tentar impressionar os seus amigos deixando fios de cabelo de mulher espalhados pelo seu carro atual." Mensagem claramente misógina. Veja:



O mesmo produto, Fiat Bravo, já teve uma propaganda de muito mau gosto comentada por mim em um post sobre consumo. A propaganda demonstrava a idéia de que se eu não consumo, eu não existo (e guess what? No finalzinho da propaganda o dono do Fiat Bravo aparece acompanhado de uma mulher, reforçando a mesma idéia do anúncio da playboy).



Logo depois dos protestos, mais uma vez a publicidade machista me chamou a atenção: a propaganda do Fiat Punto, que faz troça das mulheres que protestam de topless (Eles dizem "Na Europa", mas faz diferença uma vez que a propaganda é exibida no Brasil? Acho que não). Eu participei de alguns protestos no Brasil, da Marcha das Vadias, por exemplo. Nessa marcha, muitas moças fizeram topless. Com isso elas pretendiam requisitar não os olhares masculinos, mas o direito sobre seu próprio corpo, a soberania de suas vontades, o fim da violência contra a mulher. É dessas pessoas que a Fiat está falando, das pessoas que lutam por um ideal muito necessário. É esse o grau de desrespeito com que nós somos bombardeadas na publicidade:



Sabe o que todas essas propagandas, com exceção da propaganda da Prudence, tem em comum? Foram todas feitas pela mesma agência. Não estou dizendo que essa agência é a única que reproduz preconceitos diversos nas propagandas. Estou afirmando apenas que o fato demonstra que o machismo vende e muito, e ele foi por muitos anos a fórmula do sucesso das propagandas de cerveja, detergente e carros (entre tantos outros produtos), só que os dias de anuência silenciosa acabaram. Ainda que o CONAR tente continuar fazendo ouvidos moucos aos nossos apelos, nosso barulho está aumentando.

Uma imagem que fala muito sobre o CONAR, que devia mudar logo de nome para Clube do Bolinha:

Imagem editada por LIHS e Bule Voador


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cultura do estupro II: Nova Schin violenta mulheres "sem intenção"

Apenas dois dias se passaram desde que as pessoas se mobilizaram nas redes sociais em repúdio à propaganda da prudence, chamada "Dieta do Sexo", que banalizava o estupro e já se iniciou uma nova polêmica, dessa vez em torno de uma propaganda que vem sendo veiculada na tv há alguns meses. O nome da propaganda é "Homens invisíveis". Pelo nome já dá para tirar algumas conclusões.

Alguém já assistiu o filme "O homem sem sombra" (Hollow man), estrelado por Kevin Bacon? A Lola menciona o filme neste post aqui, e nós do Ativismo também não poderíamos deixar a referência de lado. A premissa é bastante simples: Um cientista resolve testar em si mesmo a sua descoberta, a fórmula da invisibilidade. Dentre as situações decorrentes da nova condição, houve uma especialmente sombria. O personagem costumava observar a sua vizinha em situações íntimas, e dada a nova condição, resolveu estuprá-la, pois jamais seria reconhecido. A cena nos causa horror.
Ter o poder da invisibilidade significa uma liberdade irrestrita, soltar-se de todas as amarras sociais. Não é à toa que a propaganda da Nova Schin escolheu, dentre tantos super poderes, exatamente aquele que dá ao homem o poder de fazer qualquer coisa, sem que isso seja punido, reprovado. O anonimato é a garantia da impunidade. Com isso em mente, os homens da propaganda animam-se a abusar das mulheres. Exatamente como no filme "O homem sem sombra". Enquanto lá o estupro é mais explícito, aqui ele é relativizado.
As pessoas ainda não se acostumaram com o fato de que a chave para entender o que é um estupro está em duas palavras: "não consensual". O Estupro não se resume àquele crime em que um psicopata desconhecido aborda uma mulher em um beco escuro e a penetra. Há estupro sem penetração, há estupro dentro de casa, com parentes, pais, conhecidos, amantes. Há estupro de vulnerável, que ocorre quando a parte violada não tem condições de reagir, ou por estar bêbada, doente, drogada e até mesmo por ser menor de idade. Há várias modalidades diferentes de estupro. Tirar o biquíni de uma mulher sem a permissão dela é estupro. Vamos recapitular então, recorrendo ao código penal:
Art.213 - "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso"

Art. 217-A - "Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos"


§ 1º "Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência."

Agora veja a
propaganda.


É preciso lembrarmos que a propaganda veiculada pela Nova Schin e legitimada pelo CONAR (que indeferiu as denúncias), dá margem à interpretação de que realmente há o estupro. Não o estupro em que há penetração, mas o ato de bolinar contra a vontade da vítima está explícito. A gente fica imaginando a reunião para decidir como seria a propaganda: "Ah, seria maneiríssimo os caras invadindo o vestiário feminino e elas saindo de lá apavoradas". GENTE.


Tópico criado pela Jarid (clique para visualizar) 
Uma vez que a campanha foi feita (Como assim, ninguém se tocou o quão ofensiva ela é?), aprovada pelo cliente (Como assim, você vai vincular sua marca ao crime de estupro?), veiculada no horário nobre (milhões de famílias assistindo), algumas pessoas, como nós, se ofenderam. Entramos em contato pelo Facebook da Nova Schin para pedir uma retratação e retirar a peça publicitária do ar. O que recebemos? A seguinte nota no tópico criado pela blogueira e ativista Jarid Arraes:
"Prezada Sra. Jarid Arraes,
Agradecemos o contato e esclarecemos que o Grupo Schincariol preza pelo respeito à dignidade de cada indivíduo.
Assim sendo, ressaltamos que não houve intenção de ofender qualquer pessoa no filme publicitário mencionado. Cordialmente, Grupo Schincariol".

Infelizmente, a nota em nada se retrata pelo absurdo conteúdo do vídeo, apenas afirma que a intenção não foi a de ofender. Oras, mas ofendeu. Depois dessa resposta, a atitude da empresa foi ainda mais violenta com as mulheres: desce um selinho Sandra Annenberg pra eles PFVR? Porque né, só fazendo brincadeiras pra tentar entender o grau do desrespeito a que fomos sujeitadas ontem o dia inteiro. Os administradores da página apagaram nossas mensagens sistematicamente, inclusive a mensagem da Jarid Arraes, que contava com mais de quinhentos compartilhamentos. Tolinhos. Ao tentar nos calar, inclusive bloqueando várias usuárias (do face, porque vamos combinar, ninguém em sã consciência vai se declarar ‘usuária’ duma cerveja chinfrin dessas), a Schin conseguiu aumentar mais ainda o nosso ódio. Sim, meus caros, escrevemos essas linhas com sangue nos zóio. E temos certeza que a Jarid, e todas as pessoas que compartilharam sua postagem ontem, estão, também, mais do que chateadas com essa reação opressora da cerveja. É basicamente por isso que estamos aqui, em blogagem coletiva, para dizer em alto e bom tom: vocês não vão nos calar!


O que é realmente invisível para a empresa e para tantas pessoas que defendem a propaganda, a galera do team "deixa disso", "era só brincadeirinha" e "não tem nada demais", é a situação calamitosa das mulheres. Vivemos em uma sociedade que adora chamar estuprador de monstro, de psicopata, de demônio, mas que incentiva o estupro de diversas maneiras. Se você é uma dessas pessoas, parabéns, você já sucumbiu à
cultura do estupro e já naturalizou a violência. Veja bem, não estamos dizendo que você é um estuprador, estamos dizendo que você relativiza, suaviza o abuso.

Alguns ainda dirão: "mas a propaganda é velha!" Ao que perguntamos: E o Kiko? E DAÍ? Acaso agora existe prazo de validade pra reclamar das coisas? Amigx, se o machismo fosse tão fácil assim de identificar, nós simplesmente não precisávamos estar aqui. Não ia precisar de ninguém fazendo blog pra tentar desconstruir preconceitos que cimentam sim uma cultura altamente opressora e prejudicial às mulheres. Ou você realmente acha que nos falta o que fazer? Que nossas contas são pagas milagrosamente? Que o tempo que gastamos aqui tentando fazer desse mundo uma merda um pouco melhor pra se viver não poderia muito bem estar sendo gasto em algo mais produtivo mas, OLHA SÓ, pessoas preconceituosas como você estão a todo tempo passando piadinhas de mal gosto e disseminando uma cultura asquerosa que, além de colocar a culpa do estupro na mulher, ainda incita a violência por meio das tais piadinhas?

Por fim, cerveja ruim, propaganda ruim. Sim, a cerveja é péssima. Como dissemos acima, ninguém se declara “fã” duma cerveja marromeno dessas. Mas, peraí. Não sabemos quem fabrica, mas dinheiro ali tá rolando, viu. Galera tá comprando, nem que seja pra guardar no freezer pra servir por último nas festas. Sem contar que estão com grana pra veicular a propaganda até em horário nobre na tevê. E a propaganda é ruim? Sim, é péssima. Mas isso não exime a Nova Schin. Se fôssemos protestar contra coisas de pretensa qualidade apenas, sobraria muito pouco a ser falado, não? Então, amigx, na boa, bora dar um tempo no elitismo e encarar o problema de frente? Propaganda mequetrefe nenhuma nos define, mas se nos desrespeita nós iremos sim levantar a voz e reclamar!

* Texto colaborativo de Flávia Simas e Gizelli Sousa.

Mais textos sobre o assunto:

Biacentrismo - Cerveja é bebida masculina, certo? - Por Maria Beatriz

Escreva, Lola, Escreva - A repercussão do protesto contra Nova Schin - Por Lola Aronovich
Popnoid - Nova Schin incentiva o estupro e você pode fazer a diferença - Por Mariana
Mulher Dialética - Desconstruindo a cultura do estupro - Por Jarid Arraes
SubJudice- E se você fosse invisível, o que você faria? - Por Fátima
Escreva, Lola, Escreva - Situações Absurdas - Por Lola Aronovich
Blogueiras Feministas - A Nova Schin quer nos calar, mas vamos fazer barulho! - Jarid Arraes

1+1-1 - Qual o seu preço - Por Geísa Mueller
Contravento - Machismo: Preservativo, cerveja e Alexandre Frota - Por Charô
Partido das Causas Perdidas - Cultura do estupro e publicidade - Por Lou Sevla
Tumblr Uma Feminista Cansada - Resumindo propagandas 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin e seus desrespeitosos "Homens Invisíveis" 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin, Leo Burnett e Conar
Kaleydoscopeeyes - A Nova Schin, as propagandas, o machismo e os publicitários moderninhos - Por Bete


No facebook:

Grupo -
Imaginação e não Apelação, chega de propagandas machistas - Grupo criado para debater (e combater) a publicidade machista.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cultura do estupro, da propaganda da Prudence às piadinhas de estupro.


Um exemplo de como a cultura desvaloriza a mulher que faz sexo.
Via Slut Shaming Detected.
Numa cultura onde homens são valorizados por fazer muito sexo e com várias mulheres  e mulheres são desvalorizadas se fazem sexo, não é surpreendente que surjam muitas imagens no Facebook "ensinando" homens a "conseguir sexo". Nessas imagens, a vontade da mulher é completamente ignorada; afinal, na nossa sociedade, mulher não tem desejo sexual - ela faz sexo ou deixa de fazer por "interesses". A maneira mais mostrada de "levar uma mulher para a cama" é o pagamento de jantares e presentes, e tudo isso do mais caro e do melhor. O consentimento feminino é tratado como comprável, pois só em troca de algo valeria a pena para a mulher fazer sexo - já que fazer sexo é "se desvalorizar". Nesse ponto, muitos homens se revoltam, porque ao receber um "não" depois de todo "esse trabalho e dinheiro gasto", eles se sentem enganados. Se o jantar foi pago, pronto: na cabeça de tais homens, a mulher é obrigada a consentir.

Outro ponto, até mais assustador, é o incentivo ao uso de substâncias como o álcool (e, às vezes, outras drogas) para "dopar" a mulher e assim "conseguir sexo". Nesse caso, o consentimento da mulher é completamente ignorado e nem se faz questão de "conquistá-lo" - afinal, se ela bebe em companhia de um homem, "ela tá pedindo", ela quer.

Na cultura do estupro, o que a mulher pensa e deseja não importa: o que importa é o desejo masculino. As manifestações que reiteram essa cultura são várias e vão de "piadinhas", cenas de novelas e filmes até a publicidade. Recentemente a empresa de preservativos Prudence veiculou em sua página no Facebook uma imagem que banaliza a violência sexual. O texto da imagem rola na internet há anos, mas nunca antes tinha sido veiculado como propaganda de uma empresa. Na imagem relaciona-se o termo "sem o consentimento dela" a tirar a roupa, e também há o seguinte texto: "tirando o sutiã com uma mão e apanhando dela". Os dois itens são os que mais gastam calorias, ou seja, coloca-se a falta de consentimento feminino como algo positivo pra tal da "dieta do sexo".
Campanha do Bule Voador contra a propaganda.

O pensamento que mulheres gostam de fazer "charminho" para aceitar investidas masculinas é nocivo porque generaliza um comportamento, muitas vezes relativiza o consentimento feminino, supõe que todo "não" ou "talvez" dito por uma mulher é um sinal de que é só insistir mais que ela vai ceder e coloca toda a manifestação feminina negativa como parte de uma brincadeira. É necessário destacar que o consentimento é necessário mesmo para jogos eróticos - se não houver consentimento não há sexo: há violação do corpo. Há estupro.

O pensamento reiterado na propaganda da Prudence banaliza a violência contra a mulher, porque tira dela a condição de sujeito, de ser dona de suas próprias vontades e retira sua voz, porque a coloca  numa situação em que seu não ou sim é ignorado completamente. Ao falar "sem o consentimento dela", a violência sexual fica mais naturalizada ainda. Como se haver ou não consentimento não fosse algo que importasse. E essa naturalização da violência contribui para que o estupro seja visto como uma modalidade de sexo e não como o crime cruel e violento que é. Quando a propaganda fala sobre "tirar o sutiã apanhando dela", além de mostrar que realmente pouco importa se a mulher quer ou não fazer sexo, coloca os jogos eróticos BDSM como se eles não fossem algo de pleno acordo, baseado em confiança e em consentimento.

A Prudence, depois de muita pressão, postou uma nota se desculpando pela veiculação da propaganda e deixando claro para seus clientes que tirar a roupa da parceira sem seu consentimento é crime. Triste é ver que várias pessoas vêem essa propaganda como uma piada inocente e acham que as denúncias feitas são baseadas num "moralismo exagerado".

E um adendo: é necessário que as campanhas publicitárias de artigos sexuais, incluindo preservativos, façam propagandas levando em conta que mulheres também são ativas sexualmente. E que são donas de seus corpos e que são possíveis consumidoras de seus produtos. Colocá-las apenas como um prêmio para os homens héteros é nocivo porque contribui para a idéia de que mulheres não gostam de sexo e são apenas troféus. Homens não são predadores e mulheres não são suas presas. E é claro: seria interessante que fossem campanhas que não supõem que apenas casais heterossexuais fazem sexo.

O conceito de propaganda afirma que ela deve persuadir opiniões, sentimentos e atitudes do público-alvo. Se as campanhas publicitárias atuais levam em conta que apenas um grupo compra camisinhas e ignora outro: ela reitera a doença social do machismo. E também da homofobia e lesbofobia.

Demais textos em repúdio ao caso:
"Prudence e a fetichização do estupro", Blogueiras Feministas, Luka.
"Guestpost: Propaganda acima do bem e do mal", Escreva Lola Escreva, Vivian.
"Cultura de estupro? Não, imagine", Escreva Lola Escreva, Lola. 
"A propaganda da Prudence e a heteronormatividade", Minoria é a mãe, Kamila.
"O Estupro da Prudence e o que nós aprendemos com ele", Não precisa gritar, Lucy
"Desconstruindo a cultura do estupro", Mulher Dialética, Jarid. 
"A violência é fácil de se entender", Feminerds, Julia.
"dear Prudence", Meu palanque, Fran Carneiro.
"Nota de repúdio da Marcha Mundial das Mulheres à publicidade sexista da Preservativos Prudence", Marcha Mundial das Mulheres.
"Lira Alli: Camisinha Prudence faz apologia ao estupro", Viomundo.
"A absurda propaganda da Prudence", Machismo chato de cada dia. 
Notícia sobre o caso:
"Conar deve abrir, até amanhã, processo contra marca de preservativos Prudence"
"Marca de preservativos retira publicidade da internet após críticas"
"Fabricante de camisinha tira anúncio polêmico do ar"
"Propaganda de camisinha que incentiva violência contra mulher causa polêmica no Facebook
Outros textos:
"A graça de um estupro", Feminerds, Julia. 
"E onde está o meu consentimento?", Ativismo de Sofá, Thaís.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A mais nova propaganda machista da última semana.


O vídeo começa com a namorada levando cerveja para o namorado toda carinhosa, o que é narrado como "o começo de namoro é lindo". Na segunda tomada, a namorada ocupada pegando pizzas, se recusa a levar cervejas para o namorado e para a galera dele. Nesse momento, os amigos dele riem da "tirada". O que é narrado como "mas com o tempo, a relação esfria", a narração continua falando "um dia inexplicavelmente elas se rebelam". E o vídeo continua fazendo propaganda do produto, um cooler movido por controle remoto. O que é colocado na propaganda como a maneira de permitir que o namoro volte para os tempos de paz.

Além de ignorar que, pasmem, mulher também pode gostar de beber cerveja, a propaganda coloca a namorada com uma função: buscar a cerveja gelada para o namorado; servir o cara. Nisso de "mulher não bebe cerveja", inclui todo aquele blablabla de que mulher é fresca, se bebe algo alcoólico é só coisa docinha ou bebe cerveja só pra agradar o namorado e que homens sabem se divertir e gostam disso, enquanto mulheres não. E nem venham me falar que quase no fim da propaganda, ela vai e toma cerveja. Como se isso anulasse toda a idéia que a propaganda passa, de que o cara bebe e ela serve.

Li nos comentários do youtube, (sim, às vezes sou masoquista), que reclamar dessa propaganda é idiotice, afinal, ela não é uma das piores e que na verdade ela é até uma crítica ao machismo. É fato que a propaganda fugiu do eterno "loira gostosa" se referindo a cerveja e as mulheres, né? Mas não acho que haja alguma crítica ao machismo em colocar as mulheres servindo como se essa fosse a utilidade de uma mulher. E no caso, a mulher se rebela com essa "exploração" e isso é tratado como algo inexplicável, afinal, conforme os padrões de gênero, mulheres são passivas, não tem atitude, não se rebelam e além disso, ela está se rebelando a fazer algo que mulheres "devem" fazer. No caso, a cerveja em questão, usa essa "rebeldia repentina" como uma forma de vender um cooler de controle remoto, porque se a namorada não mais vai buscar a cerveja pra ele, não é ele é que vai buscar, né? E ainda, a propaganda é totalmente voltada ao público masculino (e machista), porque quem mais supõe que mulheres devem buscar cerveja para o namorado? Quem mais fala que ela se recusar a fazer isso é uma rebeldia inexplicável? E quem mais tá interessado em resolver esse "problema dos tempos modernos"? 

Só faltou um "malditas feministas que 'ensinaram' nossas mulheres que elas não precisam nos servir" pra deixar ainda mais claro que uma mulher que se recusa a servir, tem voz suficiente pra tomar decisões que os contrariem, não é bem vista  pelos machistas de plantão. O item "inovador" nessa peça publicitária é existência de uma mulher que não só enfeita, mas tem voz. Mas que voz é essa que é considerada na narração da propaganda como "uma rebeldia inexplicável?". Nesse vídeo a mulher foi mais do que um objeto, mas continuou sendo menos que o homem.  

Sobre sexismo na mídia, indico um excelente post do Blogueiras Feministas, escrito pela Tássia Hallais: "Sobre cervejas, detergentes e desodorantes".