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domingo, 10 de novembro de 2013

A pessoa errada, no lugar errado?

Inicio o texto de hoje narrando um caso que aconteceu comigo, quando eu morava nos EUA. Ainda hoje, confesso, eu me lembro do medo que senti, e isso me causa um mal-estar danado, principalmente porque eu sempre tentava me convencer de que eu estava exagerando. 


Pois bem. Eu fui fazer compras em um hipermercado, não muito distante da minha casa. Usei o GPS para chegar ao local. Acabei demorando, entretida que estava com tantos ítens de decoração lindíssimos que vi por lá. Depois de um tempo, volto ao meu carro, e tenho a brilhante idéia de não usar o GPS, pois pra mim, o caminho estava fresco na memória. 




Acontece que eu me perdi. Escureceu mais rápido do que eu imaginava e, de repente, as ruas eram todas iguais. Eu estava perdida em uma área residencial próxima ao supermercado, e não conseguia: a. retornar à loja, b. encontrar o caminho de casa. Fui ficando aflita, e ao perceber que estava girando em círculos, eu parei o carro. Enquanto eu abria o porta-luvas para pegar meu gps e ligá-lo, as luzes das casas começaram a acender. Eu estava parada em frente a uma casa, e enquanto digitava meu endereço no gps, eu percebi uma cabecinha me espiando pela cortina. Era uma mulher branca. 


A sensação de medo é indescritível até hoje, quase dois anos depois do ocorrido. O gps demorou uns trinta segundos para reaver o mapa, e eu confesso que foram trinta segundos bem demorados. Eu tremia, meu coração parecia que ia sair pela boca, e tudo que eu conseguia pensar era: vou levar um tiro. Na cabeça. 


Até hoje eu não sei explicar direito de onde me veio esse pensamento. Talvez de tanto escutar a velha frase "a pessoa errada, na hora errada, no lugar errado", eu fiquei com aquela sensação de que tava tudo errado naquele momento que eu estava vivendo. Cheguei em casa ainda trêmula, contei o ocorrido ao meu marido, que ficou bem preocupado. Depois de conversarmos sobre o assunto e eu prometer que nunca mais deixaria de ligar o gps, mesmo que eu tivesse certeza do caminho, eu meio que o convenci, e convenci a mim mesma, que eu estava sendo exagerada. Afinal de contas, eu fiquei ali parada por menos de um minuto. 


Mas, a pulga nunca saiu detrás da minha orelha. Eu sabia que o meu maior desconforto se dava ao fato de que (me disseram) o Texas tem mais armas do que gente e que a lei do 'stand your ground' (algo como 'defenda seu território') é uma realidade por lá. Mas, eu estava parada na rua, não havia motivo para me preocupar. Pelo menos é o que eu repetia pra mim mesma sempre que a história martelava na minha cabeça. Lembro ainda que no outro dia eu contei o caso pra minha professora de inglês, que me pediu, com voz de assombro: "nunca mais faça isso, eu sei que você realmente pensou que sabia o caminho, mas nunca mais faça isso, por favor". 




Essa semana, eu me deparei com o seguinte título de uma notícia (em inglês): "Mulher negra é morta por pedir ajuda em uma vizinhança branca". Renisha McBride bateu o carro em uma região habitada majoritariamente por brancos, em Detroit. A bateria de seu celular tinha acabado, e ela resolveu então pedir ajuda em uma casa próxima. Acabou sendo morta. É a tal lei do 'stand your ground' em ação. Renisha morreu por ser negra. Porque pessoas negras são sempre suspeitas. Porque a Renisha, assim como eu, provavelmente cresceu ouvindo a história da "pessoa errada no lugar errado". É um eufemismo que nós ouvimos, ao invés de "pessoa negra em vizinhança branca" ou, ainda "mulher no espaço público". Ouvimos esse tipo de coisa porque é mais fácil culpabilizar a vítima. Aposto que se algo tivesse acontecido comigo, teriam jogado toda a culpa no fato de eu não ter usado o gps aquela noite. Assim como certamente devem estar especulando que a Renisha, na verdade, errou em tocar a campainha de uma casa desconhecida. Mesmo que ela não tivesse outra escolha. 


O dia da Consciência Negra (20 de Novembro) está se aproximando. Uma data para lembrar toda a trajetória de sofrimento e exploração sofrida por escravas e escravos no Brasil. Mas não só isso. Pra mim, trata-se de um momento para reflexão, introspecção, ação. Em um mundo globalizado, os problemas também encontram-se interconectados. E eles são muitos, e bem complexos. O medo que eu senti nos EUA é o medo que praticamente todas as pessoas negras sentem no Brasil. Em um mundo realmente justo, a negritude não é confundida com criminalidade. Em um mundo realmente justo, pessoas negras, mulheres e demais minorias não são "pessoas erradas" porque esse conceito, simplesmente, não faz sentido.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A carne mais barata do Mercado Livre


Nem uma semana depois do dia da Consciência Negra, apenas alguns dias depois de eu ter escrito um texto cujo título é "a carne mais barata", falando da representação dos negros nas mídias, a querida Charô, do Blog Contravento, me informou que alguém achou engraçadão botar um anúncio no mercado livre. "Vendo escravos". R$15,00. Quinze reais, amigos. É o preço da carne negra no mercado livre. E ainda sou obrigada a ouvir por aí que tudo é humor e que racismo não existe. Veja só o print:








Deixe-me explicar uma coisa, o fato de ser humor não exclui o discurso racista. Essa brincadeirinha aí é crime. Sabe aquele livrinho chamado "Constituição Federal/88"? pois é, ele versa o seguinte:


"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:



XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;"


Adelaide, o racismo
no horário nobre da TV

O humor racista é parte de uma cultura de ódio enraizado. Nos chocamos quando vemos esse tipo de coisa acontecer assim, tão abertamente quanto no anúncio do mercado livre, em que o ódio pode ser visto a olho nu. Mas ele se esgueira de muitas outras maneiras. Seja através do humor blackface, a exemplo de Adelaide, personagem do Zorra Total, ou de um jocoso comentário sobre o "cabelo ruim" de alguém. Todas essas manifestações que passam batido no nosso dia-a-dia merecem atenção. Não dá para se calar diante da perpetuação do discurso racista em comentários, programas de TV, na internet e etc. O discurso só muda de forma, mas continua possuindo o valor racista opressor.



Dia desses eu discuti com um contato meu no facebook por causa dessa publicação:
humor machista e racista


Vejamos, além de machista, por determinar que a mulher é objetificável, que seu corpo deve atender ao desejo de um homem, é principalmente racista, pois os quadrinhos retratam uma mulher negra sendo humilhada por um homem ao ser comparada com uma mulher branca. Quando confrontei o meu contato no facebook a resposta é que eu estava vendo pêlo em ovo. Claro, que foi. Afinal, racismo não existe, não é?

Quem não se lembra do rapazinho do meme "Para nossa alegria!"? Só digo uma coisa: pode ter sido engraçada a forma entusiasmada como ele canta a música, eu ri também, muita gente riu... mas é só isso mesmo? Fico me perguntando se fosse uma pessoa branca ali cantando da mesma forma, teria virado meme? Rir de gente negra e pobre é o modus operandi da nossa sociedade, vamos filtrar melhor o que nos faz rir, galera. Vamos ficar atentos à esse humor que se fazia em 1900. Não queremos um mundo sem graça, queremos humor sim, mas queremos que ele não humilhe as minorias historicamente oprimidas. O problema é que há tanto tempo o humor é feito dessa maneira que as pessoas parecem não querer mais rir de outra forma, somente a humilhação é engraçada.


Para denunciar o racismo na internet (o absurdo anúncio do mercado livre, por exemplo) é só entrar no site safernet

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A carne mais barata

Essa é a semana da Consciência Negra, que serve para nos fazer refletir sobre a inserção do negro na sociedade. Infelizmente, não estamos de parabéns. Temos aí uma constituição que nos posiciona como iguais, o racismo é crime inafiançável. E ainda sim, somos racistas. Somos MUITO racistas. Fato que é flagrante quando tocamos no assunto mídia. Tentarei focar esse texto em observações pessoais sobre a internet e a TV, sobre como nos posicionamos nesses veículos a respeito da aceitação e representação dx negrx e, portanto, também sua inserção.

Na internet, covardes se escondem sob a máscara do anonimato e se acotovelam entre redes e portais para destilar seu ódio, criam sites hospedados em outros países para nossa legislação não alcançá-los. Usam o humor para agredir, justificando-o pelo que ele não é: politicamente incorreto. Não há incorreção em ser agressor e não transgressor, isso é trivial, é comum, banal, ordinário. Ou seja, nada original. E nem sequer é humor, ou então voltou a ser engraçado chamar negrx de macacx. Espera, nunca foi! A piada nunca teve graça. O que é engraçado para essas pessoas é apenas o ataque gratuito, rir da humilhação. Aí sim, posso afirmar que a humilhação dxs negrxs sempre foi motivo de júbilo para uma parcela da população. Herança do nosso passado escravagista, demonstração evidente da igualdade que nunca alcançamos.
Demonstração de racismo
contra as cantoras Pepê e Neném

As redes sociais têm provado ser território hostil para xs negrxs. Ultimamente a coisa tem piorado, os racistas estão amparados nas redes, por milhares de pessoas que perderam o medo ou a vergonha de demonstrar ódio, ou até mesmo pela anuência da administração dessas redes. A punição ao crime de racismo parece estar caindo em desuso, ao menos na internet. Lembrando que estamos num país em que se fala em "leis que não pegaram", que são uma falha em nosso sistema jurídico, penal e porque não dizer, também social e cultural. Leis que não são devidamente amparadas não tem o efeito de mudar uma cultura de ódio tão enraizado e que se propaga na medida em que nada é feito para contê-lo. Existem alguns casos de condenação ao ódio racista nas redes, mas são poucos e as penas são leves.

Recentemente o facebook passou a responder às denúncias que fazemos contra páginas, comentários e etc. E se antes o silêncio incomodava, as palavras parecem pesadas demais para suportar. Como lidar quando você está diante de clara expressão de preconceito e o facebook responde que não há nada demais no conteúdo? Todas as denúncias que fiz foram rejeitadas. TODAS.


Imagem da página de
Facebook Preta e Gorda

Felizmente a internet também é palco de ativismo contra o racismo e existem páginas sensacionais que fazem a diferença. Estou completamente apaixonada pela página "Preta & Gorda", por exemplo. Que faz um trabalho lindo de divulgação de imagens bodypositive, haja vista que o padrão de beleza vigente é racista e gordofóbico. Incentivar a autoestima das mulheres é muito importante.



Suburbia
Se na internet o cenário está piorando, pode-se dizer que em outras mídias ele não melhorou. Li alguns textos sobre as duas produções da Rede Globo com protagonismo de personagens negrxs, "Lado a Lado" e "Suburbia", e o que li aqui, aqui e aqui não é animador. Continuamos escrevendo histórias de negros escravos e brancos salvadores. Alguém por aí deve achar que é um grande favor axs negrxs não representá-lxs como bandidos, mas como incapazes de salvar a si mesmos. Como pessoas que são "quase" da família. Os "quase" aceitos, sempre "quase". Representá-los como bandidxs e representá-lxs como incapazes são duas faces de um mesmo problema.


Lado a Lado
Lado a Lado, que possui uma representação interessante, apresenta belíssimas cenas, um elenco formado por muitxs negrxs, é uma pena que isso seja possível apenas em novelas cuja temática seja a escravidão. O problema é: xs negrxs são a maioria da nossa população, ainda sim, só se lembram de representá-lxs na TV em novelas de época. Sem contar que as novelas de época atuais pegam bem leve em representar esse período, reforçando a idéia de que o branco opressor não era tão mal assim. Compreendo que seja doloroso rever as cenas de açoite dxs negrxs em novelas mais antigas que retratavam o Brasil antes da abolição (no caso de Lado a Lado, é pouco tempo após, portanto a temática é do negro escravo é bastante presente), mas é bastante danoso cobrir os olhos para o horror do passado. Se eu tenho alguma resposta sobre como chegar ao meio termo? Não. Gostaria, mas não tenho. 

O protagonismo não significa muito quando não vem revestido de cuidado com o contexto. Houve uma única "Helena" negra de Manoel Carlos, interpretada por Thaís Araújo. Embora a personagem fosse diferente do estereótipo que vemos sempre, pois era negra e rica, modelo internacional, com carreira de sucesso e etc. é bom que relembremos uma cena, gravada de forma indelével em minha memória. A cena em questão mostra a personagem Tereza, interpretada por Lilian Cabral, esbofeteando Helena, que se ajoelhou em sua frente para lhe pedir perdão. Alguns dirão que ela não apanhou por ser negra, mas por ter indiretamente causado o acidente que fez com que a filha de Lilian Cabral se tornasse tetraplégica, mas queridos, o signo é relevante. A imagem que já está gravado em nossa mente é o da mulher branca coagindo a mulher negra, uma cena que não pode ser jamais dissociada de um contexto. Não desprezem essa representação, pois ela tem significado histórico e cultural. É a sinhá e a escrava mais uma vez. 

Tereza bate em Helena

E já que mencionei a protagonista de Thaís Araújo, que até onde me lembro já teve três papéis principais, vamos lembrar de outra protagonista recente: Maria da Penha, a empreguete. Não é curioso que numa novela com três protagonistas apenas a mulher negra fale "incorretamente"? Curioso é modo de falar, gente. Essa presunção de que x negrx fala "incorretamente" ou que é iletrado é racismo mesmo. Além de ser uma representação bastante elitista, dada a profissão da personagem que também é estigmatizada, por ter uma baixa remuneração e ser essencialmente uma das profissões dominadas por mulheres. Assim, combina-se numa só personagem três tipos de preconceito: o machismo, elitismo e o racismo. E é claro, devo ressaltar que Maria da Penha foi a única das três empreguetes que sofreu assédio sexual em seu ambiente de trabalho.

A mulher negra possui outro espectro não contemplado pelos estereótipos “bandido” ou “incapaz”. A mulher negra é objeto. Há pouquíssimo tempo, na novela Fina Estampa, tivemos um exemplo marcante dessa questão. Não sei se todos se lembram, mas Fina Estampa era uma novela urbana. E dentro dessa ambientação de uma grande cidade, uma mulher negra era a única personagem de todo o elenco a banhar-se sensualmente ao ar livre com uma mangueira, cena que se repetiu diversas vezes até o fim da novela. Dagmar, sua flor nos cabelos, seus banhos noturnos sob a lua. Uma romantização do ódio contra as mulheres negras. A hipersexualização da mulher negra nas novelas é recorrente. Dagmar não foi a primeira, nem a última. Vale lembrar que na mesma novela havia a personagem branca e loira chamada Teodora, também uma mulher desejada, contudo em momento nenhum de toda a novela ela chegou perto de interpretar algo próximo dos pitorescos momentos sensuais de Dagmar, momentos em que o racismo e o machismo se misturam ao ponto de se tornarem indissociáveis. A objetificação da mulher branca e da mulher negra tem contextualizações distintas, embora ambas sejam violentas.

O Cirilo de 20 anos atrás
A forma como apresentamos xs negrxs (ou pior ainda, não representamos) nas mídias interfere diretamente na forma como os negros são acolhidos na nossa sociedade e vice-versa. É um sistema opressivo que se retroalimenta. A questão da representação é tão patente que estamos fazendo um remake de uma novela que inclusive, já era um remake! A primeira versão de Carrossel foi ao ar nos anos 60 na Argentina e teve sua regravação no México em 1989. Exibida no Brasil em 1991, permaneceu na "memória afetiva" do brasileiro ao ponto em que, 20 anos depois (ou 50 anos, se contarmos a primeira versão já realizada), estamos fazendo mais um remake. O antigo e requentado racismo está lá em todas as versões. O Cirilo Rivera, negro e pobre, desprezado, inocente, sonhador e passivo. Sofre com o racismo de Maria Joaquina, a branca e rica que ele nunca deixa de amar. Eu me recordo de quando assisti Carrossel. Na época eu não sabia o que era o racismo, pois era muito pequena, mas já nas primeiras salas de aula que frequentei, havia um "Cirilo". Havia um negro que era chamado por esse apelido que nada tem de abonador. E me surpreendi (na verdade nem sei porque ainda me surpreendo) com o vídeo que vi, do @Lasombraribeiro, falando que sua filha tem sofrido o mesmo preconceito. Está sendo chamada de Cirila na escola. Estamos falando de um espaço de tempo de 20 fucking anos. VINTE. Duas décadas. Estamos falando da geração Y, que já aprende a viver com um aparelho com internet nas mãos. E o velho preconceito continua em tantas salas de aula por aí, atacando a autoestima de meninos e meninas. Especialmente a das meninas, que sabemos também são alvo do machismo cotidiano.

Eu até poderia pular essa parte do texto, pois falar do Zorra Total, é chutar cachorro morto, uma vez que ESTÁ TUDO ERRADO. TUDO. Se duvidar cada quadro dá um texto para esse blog. Sabe quando no início do texto eu disse que chamar negro de macaco não tem graça? Pintar branco de negra também não. Qual seria o motivo que leva um ator branco a se pintar de negra para representar? Não seria mais prático chamar uma atriz negra? O motivo é o mesmo de sempre... Humilhação. Um branco ridicularizando a pele negra. Só que no caso da Adelaide, o ator que representa a personagem é negro. Um negro, pintado de negro. Bom, não sei se ele se identifica como negro, mas certamente possui traços característicos da raça negra. O que é bastante flagrante nesse caso é o alvo da chacota: a mulher negra. É isso que é exibido todos os sábados com a personagem Adelaide, do Zorra Total. Uma personagem, negra, pobre, desdentada, maltrapilha, que faz comentários desdenhosos de características dxs negrxs como por exemplo, a compleição de seus cabelos. Alguém realmente pode tentar justificar isso sem resvalar no racismo mais uma vez? Sem desqualificar as mulheres negras? Será que em algum lugar nesse país não tem uma mulher negra sendo chamada de "Adelaide" jocosamente apenas por ser negra?

A questão aqui não é esconder que o racismo existe, ou fingir que não existiu escravidão, mas é mesmo necessário que nos tempos de hoje, ainda estejamos sempre diante dos mesmos personagens, com novos atores, novas técnicas de filmagem, nova roupagem, mas o mesmo conceito? Porque não podemos representar negros em produções televisivas sem tender ao ódio ou ao paternalismo? Me recordo de alguns poucos exemplos interessantes e não estereotipados nas novelas recentes. Poucos. E mesmo entre esses, há certeza de que em certo momento os signos não são lançados novamente de forma velada ou pouco criteriosa? 

Caitlin Moran, feminista, autora do
premiado livro "Como Ser uma mulher"
Fora do panorama nacional, há pouco tempo a feminista Caitlin Moran deu uma declaração bastante controversa sobre as críticas que foram feitas ao elenco da série Girls, que não conta com atrizes ou atores negros. Caitlin disse que não dá a mínima para esse fato. Não estamos falando de uma pessoa que está de fora dos movimentos sociais, mas de alguém que se afirma feminista (e é, já que não existe um teste de admissão). Acho complexo pensar uma série que se passa em N.Y., num país com tamanha segregação racial, com alta concentração de imigrantes latinos, indianos, chineses e etc, sem que não exista sequer uma pessoa que não seja branca (considere que essa questão da imigração é muito importante no feminismo americano). Calar-se diante da falta de representatividade de grupos minoritários em uma série que tem uma temática feminista é muito errado. É White privilege, ou privilégio branco. Nós, feministas brancas, também devemos atentar para os nossos próprios privilégios, pois eles existem. Na série Girls, em específico, eu só posso lamentar profundamente que não exista uma protagonista negra. A série é muito boa, retrata de forma muito humana, multifacetada, os problemas daquelas jovens de 20 e poucos anos que ainda estão começando a vida adulta, lidando com relacionamentos falidos e opressores, com pouca grana... enfim, uma série sobre a vida imperfeita dessas moças, eu acredito que o panorama de uma jovem negra nas mesmas condições seria muito enriquecedor para a série. O tempo de se pensar num casting completamente branco já passou, nos dias de hoje isso deveria ser inimaginável.

Certamente esse foi um ano decisivo para xs negrxs em nosso país, com a vitória histórica no STF pelo direito às cotas em universidades. Por outro lado, o conservadorismo está crescendo e ainda hoje, as palavras da música de Elza Soares fazem sentido: A carne negra é a mais barata do mercado. E se olharmos a fundo para a situação, podemos estreitar melhor esse jargão, veremos que a carne da mulher negra é ainda mais barata. Infelizmente, ainda precisamos caminhar muito enquanto sociedade para que isso deixe de ser verdadeiro.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra. Durante os dias 20 e 25 de novembro, uma aproximação entre o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Acompanhe aqui.