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terça-feira, 20 de novembro de 2012

A carne mais barata

Essa é a semana da Consciência Negra, que serve para nos fazer refletir sobre a inserção do negro na sociedade. Infelizmente, não estamos de parabéns. Temos aí uma constituição que nos posiciona como iguais, o racismo é crime inafiançável. E ainda sim, somos racistas. Somos MUITO racistas. Fato que é flagrante quando tocamos no assunto mídia. Tentarei focar esse texto em observações pessoais sobre a internet e a TV, sobre como nos posicionamos nesses veículos a respeito da aceitação e representação dx negrx e, portanto, também sua inserção.

Na internet, covardes se escondem sob a máscara do anonimato e se acotovelam entre redes e portais para destilar seu ódio, criam sites hospedados em outros países para nossa legislação não alcançá-los. Usam o humor para agredir, justificando-o pelo que ele não é: politicamente incorreto. Não há incorreção em ser agressor e não transgressor, isso é trivial, é comum, banal, ordinário. Ou seja, nada original. E nem sequer é humor, ou então voltou a ser engraçado chamar negrx de macacx. Espera, nunca foi! A piada nunca teve graça. O que é engraçado para essas pessoas é apenas o ataque gratuito, rir da humilhação. Aí sim, posso afirmar que a humilhação dxs negrxs sempre foi motivo de júbilo para uma parcela da população. Herança do nosso passado escravagista, demonstração evidente da igualdade que nunca alcançamos.
Demonstração de racismo
contra as cantoras Pepê e Neném

As redes sociais têm provado ser território hostil para xs negrxs. Ultimamente a coisa tem piorado, os racistas estão amparados nas redes, por milhares de pessoas que perderam o medo ou a vergonha de demonstrar ódio, ou até mesmo pela anuência da administração dessas redes. A punição ao crime de racismo parece estar caindo em desuso, ao menos na internet. Lembrando que estamos num país em que se fala em "leis que não pegaram", que são uma falha em nosso sistema jurídico, penal e porque não dizer, também social e cultural. Leis que não são devidamente amparadas não tem o efeito de mudar uma cultura de ódio tão enraizado e que se propaga na medida em que nada é feito para contê-lo. Existem alguns casos de condenação ao ódio racista nas redes, mas são poucos e as penas são leves.

Recentemente o facebook passou a responder às denúncias que fazemos contra páginas, comentários e etc. E se antes o silêncio incomodava, as palavras parecem pesadas demais para suportar. Como lidar quando você está diante de clara expressão de preconceito e o facebook responde que não há nada demais no conteúdo? Todas as denúncias que fiz foram rejeitadas. TODAS.


Imagem da página de
Facebook Preta e Gorda

Felizmente a internet também é palco de ativismo contra o racismo e existem páginas sensacionais que fazem a diferença. Estou completamente apaixonada pela página "Preta & Gorda", por exemplo. Que faz um trabalho lindo de divulgação de imagens bodypositive, haja vista que o padrão de beleza vigente é racista e gordofóbico. Incentivar a autoestima das mulheres é muito importante.



Suburbia
Se na internet o cenário está piorando, pode-se dizer que em outras mídias ele não melhorou. Li alguns textos sobre as duas produções da Rede Globo com protagonismo de personagens negrxs, "Lado a Lado" e "Suburbia", e o que li aqui, aqui e aqui não é animador. Continuamos escrevendo histórias de negros escravos e brancos salvadores. Alguém por aí deve achar que é um grande favor axs negrxs não representá-lxs como bandidos, mas como incapazes de salvar a si mesmos. Como pessoas que são "quase" da família. Os "quase" aceitos, sempre "quase". Representá-los como bandidxs e representá-lxs como incapazes são duas faces de um mesmo problema.


Lado a Lado
Lado a Lado, que possui uma representação interessante, apresenta belíssimas cenas, um elenco formado por muitxs negrxs, é uma pena que isso seja possível apenas em novelas cuja temática seja a escravidão. O problema é: xs negrxs são a maioria da nossa população, ainda sim, só se lembram de representá-lxs na TV em novelas de época. Sem contar que as novelas de época atuais pegam bem leve em representar esse período, reforçando a idéia de que o branco opressor não era tão mal assim. Compreendo que seja doloroso rever as cenas de açoite dxs negrxs em novelas mais antigas que retratavam o Brasil antes da abolição (no caso de Lado a Lado, é pouco tempo após, portanto a temática é do negro escravo é bastante presente), mas é bastante danoso cobrir os olhos para o horror do passado. Se eu tenho alguma resposta sobre como chegar ao meio termo? Não. Gostaria, mas não tenho. 

O protagonismo não significa muito quando não vem revestido de cuidado com o contexto. Houve uma única "Helena" negra de Manoel Carlos, interpretada por Thaís Araújo. Embora a personagem fosse diferente do estereótipo que vemos sempre, pois era negra e rica, modelo internacional, com carreira de sucesso e etc. é bom que relembremos uma cena, gravada de forma indelével em minha memória. A cena em questão mostra a personagem Tereza, interpretada por Lilian Cabral, esbofeteando Helena, que se ajoelhou em sua frente para lhe pedir perdão. Alguns dirão que ela não apanhou por ser negra, mas por ter indiretamente causado o acidente que fez com que a filha de Lilian Cabral se tornasse tetraplégica, mas queridos, o signo é relevante. A imagem que já está gravado em nossa mente é o da mulher branca coagindo a mulher negra, uma cena que não pode ser jamais dissociada de um contexto. Não desprezem essa representação, pois ela tem significado histórico e cultural. É a sinhá e a escrava mais uma vez. 

Tereza bate em Helena

E já que mencionei a protagonista de Thaís Araújo, que até onde me lembro já teve três papéis principais, vamos lembrar de outra protagonista recente: Maria da Penha, a empreguete. Não é curioso que numa novela com três protagonistas apenas a mulher negra fale "incorretamente"? Curioso é modo de falar, gente. Essa presunção de que x negrx fala "incorretamente" ou que é iletrado é racismo mesmo. Além de ser uma representação bastante elitista, dada a profissão da personagem que também é estigmatizada, por ter uma baixa remuneração e ser essencialmente uma das profissões dominadas por mulheres. Assim, combina-se numa só personagem três tipos de preconceito: o machismo, elitismo e o racismo. E é claro, devo ressaltar que Maria da Penha foi a única das três empreguetes que sofreu assédio sexual em seu ambiente de trabalho.

A mulher negra possui outro espectro não contemplado pelos estereótipos “bandido” ou “incapaz”. A mulher negra é objeto. Há pouquíssimo tempo, na novela Fina Estampa, tivemos um exemplo marcante dessa questão. Não sei se todos se lembram, mas Fina Estampa era uma novela urbana. E dentro dessa ambientação de uma grande cidade, uma mulher negra era a única personagem de todo o elenco a banhar-se sensualmente ao ar livre com uma mangueira, cena que se repetiu diversas vezes até o fim da novela. Dagmar, sua flor nos cabelos, seus banhos noturnos sob a lua. Uma romantização do ódio contra as mulheres negras. A hipersexualização da mulher negra nas novelas é recorrente. Dagmar não foi a primeira, nem a última. Vale lembrar que na mesma novela havia a personagem branca e loira chamada Teodora, também uma mulher desejada, contudo em momento nenhum de toda a novela ela chegou perto de interpretar algo próximo dos pitorescos momentos sensuais de Dagmar, momentos em que o racismo e o machismo se misturam ao ponto de se tornarem indissociáveis. A objetificação da mulher branca e da mulher negra tem contextualizações distintas, embora ambas sejam violentas.

O Cirilo de 20 anos atrás
A forma como apresentamos xs negrxs (ou pior ainda, não representamos) nas mídias interfere diretamente na forma como os negros são acolhidos na nossa sociedade e vice-versa. É um sistema opressivo que se retroalimenta. A questão da representação é tão patente que estamos fazendo um remake de uma novela que inclusive, já era um remake! A primeira versão de Carrossel foi ao ar nos anos 60 na Argentina e teve sua regravação no México em 1989. Exibida no Brasil em 1991, permaneceu na "memória afetiva" do brasileiro ao ponto em que, 20 anos depois (ou 50 anos, se contarmos a primeira versão já realizada), estamos fazendo mais um remake. O antigo e requentado racismo está lá em todas as versões. O Cirilo Rivera, negro e pobre, desprezado, inocente, sonhador e passivo. Sofre com o racismo de Maria Joaquina, a branca e rica que ele nunca deixa de amar. Eu me recordo de quando assisti Carrossel. Na época eu não sabia o que era o racismo, pois era muito pequena, mas já nas primeiras salas de aula que frequentei, havia um "Cirilo". Havia um negro que era chamado por esse apelido que nada tem de abonador. E me surpreendi (na verdade nem sei porque ainda me surpreendo) com o vídeo que vi, do @Lasombraribeiro, falando que sua filha tem sofrido o mesmo preconceito. Está sendo chamada de Cirila na escola. Estamos falando de um espaço de tempo de 20 fucking anos. VINTE. Duas décadas. Estamos falando da geração Y, que já aprende a viver com um aparelho com internet nas mãos. E o velho preconceito continua em tantas salas de aula por aí, atacando a autoestima de meninos e meninas. Especialmente a das meninas, que sabemos também são alvo do machismo cotidiano.

Eu até poderia pular essa parte do texto, pois falar do Zorra Total, é chutar cachorro morto, uma vez que ESTÁ TUDO ERRADO. TUDO. Se duvidar cada quadro dá um texto para esse blog. Sabe quando no início do texto eu disse que chamar negro de macaco não tem graça? Pintar branco de negra também não. Qual seria o motivo que leva um ator branco a se pintar de negra para representar? Não seria mais prático chamar uma atriz negra? O motivo é o mesmo de sempre... Humilhação. Um branco ridicularizando a pele negra. Só que no caso da Adelaide, o ator que representa a personagem é negro. Um negro, pintado de negro. Bom, não sei se ele se identifica como negro, mas certamente possui traços característicos da raça negra. O que é bastante flagrante nesse caso é o alvo da chacota: a mulher negra. É isso que é exibido todos os sábados com a personagem Adelaide, do Zorra Total. Uma personagem, negra, pobre, desdentada, maltrapilha, que faz comentários desdenhosos de características dxs negrxs como por exemplo, a compleição de seus cabelos. Alguém realmente pode tentar justificar isso sem resvalar no racismo mais uma vez? Sem desqualificar as mulheres negras? Será que em algum lugar nesse país não tem uma mulher negra sendo chamada de "Adelaide" jocosamente apenas por ser negra?

A questão aqui não é esconder que o racismo existe, ou fingir que não existiu escravidão, mas é mesmo necessário que nos tempos de hoje, ainda estejamos sempre diante dos mesmos personagens, com novos atores, novas técnicas de filmagem, nova roupagem, mas o mesmo conceito? Porque não podemos representar negros em produções televisivas sem tender ao ódio ou ao paternalismo? Me recordo de alguns poucos exemplos interessantes e não estereotipados nas novelas recentes. Poucos. E mesmo entre esses, há certeza de que em certo momento os signos não são lançados novamente de forma velada ou pouco criteriosa? 

Caitlin Moran, feminista, autora do
premiado livro "Como Ser uma mulher"
Fora do panorama nacional, há pouco tempo a feminista Caitlin Moran deu uma declaração bastante controversa sobre as críticas que foram feitas ao elenco da série Girls, que não conta com atrizes ou atores negros. Caitlin disse que não dá a mínima para esse fato. Não estamos falando de uma pessoa que está de fora dos movimentos sociais, mas de alguém que se afirma feminista (e é, já que não existe um teste de admissão). Acho complexo pensar uma série que se passa em N.Y., num país com tamanha segregação racial, com alta concentração de imigrantes latinos, indianos, chineses e etc, sem que não exista sequer uma pessoa que não seja branca (considere que essa questão da imigração é muito importante no feminismo americano). Calar-se diante da falta de representatividade de grupos minoritários em uma série que tem uma temática feminista é muito errado. É White privilege, ou privilégio branco. Nós, feministas brancas, também devemos atentar para os nossos próprios privilégios, pois eles existem. Na série Girls, em específico, eu só posso lamentar profundamente que não exista uma protagonista negra. A série é muito boa, retrata de forma muito humana, multifacetada, os problemas daquelas jovens de 20 e poucos anos que ainda estão começando a vida adulta, lidando com relacionamentos falidos e opressores, com pouca grana... enfim, uma série sobre a vida imperfeita dessas moças, eu acredito que o panorama de uma jovem negra nas mesmas condições seria muito enriquecedor para a série. O tempo de se pensar num casting completamente branco já passou, nos dias de hoje isso deveria ser inimaginável.

Certamente esse foi um ano decisivo para xs negrxs em nosso país, com a vitória histórica no STF pelo direito às cotas em universidades. Por outro lado, o conservadorismo está crescendo e ainda hoje, as palavras da música de Elza Soares fazem sentido: A carne negra é a mais barata do mercado. E se olharmos a fundo para a situação, podemos estreitar melhor esse jargão, veremos que a carne da mulher negra é ainda mais barata. Infelizmente, ainda precisamos caminhar muito enquanto sociedade para que isso deixe de ser verdadeiro.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra. Durante os dias 20 e 25 de novembro, uma aproximação entre o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Acompanhe aqui.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pela vida das mulheres

Imagem via Feministas do Cariri

Hoje é o dia de luta pela descriminalização do aborto na América Latina e Caribe. É um dia no qual as mulheres saem às ruas em busca de seu direito de decidir o melhor pra si, o direito de autonomia sobre seu corpo e também o direito a própria vida. 

A criminalização do aborto não evita que os abortos aconteçam, a criminalização faz com que mulheres grávidas e que desejam abortar busquem clínicas clandestinas perigosas e utilizem instrumentos médicos sem auxílio, limpeza e proteção e acabem morrendo por complicações. 

Hoje é o dia de se perguntar sobre o valor da vida das mulheres em nossa sociedade machista que vê a proibição do aborto e a obrigatoriedade de levar a gravidez adiante como uma punição para aquela mulher que fez sexo. Hoje é o dia de se perguntar se todos nós temos hoje acesso à informação, aos contraceptivos e a educação sexual. Hoje é dia de se perguntar porque punir a desconhecida e tratar a pessoa da família com discrição, como a música "Ventre Livre de Fato" expõe. 

Ao falar de aborto no mundo, percebe-se que há mulheres que buscam a descriminalização do aborto, outras que buscam que seus países mantenham a legislação conforme está porque não querem ver a revogação de seu direito e outras que buscam a real efetividade da descriminalização em seus países, porque na prática, acontecem diversas pressões por parte dos médicos e do povo para que o aborto não aconteça. Mesmo em países em que esse direito é assegurado, a luta continua para que haja cumprimento da lei e para evitar qualquer retrocesso. 

Nomear a luta contra a descriminalização do aborto de pró-vida é ignorar as mortes de muitas mulheres. A luta pela legalização e descriminalização do aborto é uma questão de direitos humanos, de autonomia feminina, de educação sexual, de saúde pública, de estado laico, de dignidade humana e de vida.

Imagem via O Machismo nosso de cada dia

Leiam também:

Um Brasil sem hipocrisia - Escreva Lola Escreva
28S: pelo direito ao aborto, em todo o mundo - Marcha Mundial das Mulheres
Sobre aborto - O biscoito fino e a massa 
Nota pública: o aborto não deve ser crime - Sempreviva Organização Feminista
Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista

Obs: Não só mulheres podem engravidar, homens trans e pessoas não binárias que tem útero também podem. Logo, todos os direitos defendidos pelo texto, como o aborto seguro e educação sexual, se estendem a essas pessoas. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cultura do estupro II: Nova Schin violenta mulheres "sem intenção"

Apenas dois dias se passaram desde que as pessoas se mobilizaram nas redes sociais em repúdio à propaganda da prudence, chamada "Dieta do Sexo", que banalizava o estupro e já se iniciou uma nova polêmica, dessa vez em torno de uma propaganda que vem sendo veiculada na tv há alguns meses. O nome da propaganda é "Homens invisíveis". Pelo nome já dá para tirar algumas conclusões.

Alguém já assistiu o filme "O homem sem sombra" (Hollow man), estrelado por Kevin Bacon? A Lola menciona o filme neste post aqui, e nós do Ativismo também não poderíamos deixar a referência de lado. A premissa é bastante simples: Um cientista resolve testar em si mesmo a sua descoberta, a fórmula da invisibilidade. Dentre as situações decorrentes da nova condição, houve uma especialmente sombria. O personagem costumava observar a sua vizinha em situações íntimas, e dada a nova condição, resolveu estuprá-la, pois jamais seria reconhecido. A cena nos causa horror.
Ter o poder da invisibilidade significa uma liberdade irrestrita, soltar-se de todas as amarras sociais. Não é à toa que a propaganda da Nova Schin escolheu, dentre tantos super poderes, exatamente aquele que dá ao homem o poder de fazer qualquer coisa, sem que isso seja punido, reprovado. O anonimato é a garantia da impunidade. Com isso em mente, os homens da propaganda animam-se a abusar das mulheres. Exatamente como no filme "O homem sem sombra". Enquanto lá o estupro é mais explícito, aqui ele é relativizado.
As pessoas ainda não se acostumaram com o fato de que a chave para entender o que é um estupro está em duas palavras: "não consensual". O Estupro não se resume àquele crime em que um psicopata desconhecido aborda uma mulher em um beco escuro e a penetra. Há estupro sem penetração, há estupro dentro de casa, com parentes, pais, conhecidos, amantes. Há estupro de vulnerável, que ocorre quando a parte violada não tem condições de reagir, ou por estar bêbada, doente, drogada e até mesmo por ser menor de idade. Há várias modalidades diferentes de estupro. Tirar o biquíni de uma mulher sem a permissão dela é estupro. Vamos recapitular então, recorrendo ao código penal:
Art.213 - "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso"

Art. 217-A - "Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos"


§ 1º "Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência."

Agora veja a
propaganda.


É preciso lembrarmos que a propaganda veiculada pela Nova Schin e legitimada pelo CONAR (que indeferiu as denúncias), dá margem à interpretação de que realmente há o estupro. Não o estupro em que há penetração, mas o ato de bolinar contra a vontade da vítima está explícito. A gente fica imaginando a reunião para decidir como seria a propaganda: "Ah, seria maneiríssimo os caras invadindo o vestiário feminino e elas saindo de lá apavoradas". GENTE.


Tópico criado pela Jarid (clique para visualizar) 
Uma vez que a campanha foi feita (Como assim, ninguém se tocou o quão ofensiva ela é?), aprovada pelo cliente (Como assim, você vai vincular sua marca ao crime de estupro?), veiculada no horário nobre (milhões de famílias assistindo), algumas pessoas, como nós, se ofenderam. Entramos em contato pelo Facebook da Nova Schin para pedir uma retratação e retirar a peça publicitária do ar. O que recebemos? A seguinte nota no tópico criado pela blogueira e ativista Jarid Arraes:
"Prezada Sra. Jarid Arraes,
Agradecemos o contato e esclarecemos que o Grupo Schincariol preza pelo respeito à dignidade de cada indivíduo.
Assim sendo, ressaltamos que não houve intenção de ofender qualquer pessoa no filme publicitário mencionado. Cordialmente, Grupo Schincariol".

Infelizmente, a nota em nada se retrata pelo absurdo conteúdo do vídeo, apenas afirma que a intenção não foi a de ofender. Oras, mas ofendeu. Depois dessa resposta, a atitude da empresa foi ainda mais violenta com as mulheres: desce um selinho Sandra Annenberg pra eles PFVR? Porque né, só fazendo brincadeiras pra tentar entender o grau do desrespeito a que fomos sujeitadas ontem o dia inteiro. Os administradores da página apagaram nossas mensagens sistematicamente, inclusive a mensagem da Jarid Arraes, que contava com mais de quinhentos compartilhamentos. Tolinhos. Ao tentar nos calar, inclusive bloqueando várias usuárias (do face, porque vamos combinar, ninguém em sã consciência vai se declarar ‘usuária’ duma cerveja chinfrin dessas), a Schin conseguiu aumentar mais ainda o nosso ódio. Sim, meus caros, escrevemos essas linhas com sangue nos zóio. E temos certeza que a Jarid, e todas as pessoas que compartilharam sua postagem ontem, estão, também, mais do que chateadas com essa reação opressora da cerveja. É basicamente por isso que estamos aqui, em blogagem coletiva, para dizer em alto e bom tom: vocês não vão nos calar!


O que é realmente invisível para a empresa e para tantas pessoas que defendem a propaganda, a galera do team "deixa disso", "era só brincadeirinha" e "não tem nada demais", é a situação calamitosa das mulheres. Vivemos em uma sociedade que adora chamar estuprador de monstro, de psicopata, de demônio, mas que incentiva o estupro de diversas maneiras. Se você é uma dessas pessoas, parabéns, você já sucumbiu à
cultura do estupro e já naturalizou a violência. Veja bem, não estamos dizendo que você é um estuprador, estamos dizendo que você relativiza, suaviza o abuso.

Alguns ainda dirão: "mas a propaganda é velha!" Ao que perguntamos: E o Kiko? E DAÍ? Acaso agora existe prazo de validade pra reclamar das coisas? Amigx, se o machismo fosse tão fácil assim de identificar, nós simplesmente não precisávamos estar aqui. Não ia precisar de ninguém fazendo blog pra tentar desconstruir preconceitos que cimentam sim uma cultura altamente opressora e prejudicial às mulheres. Ou você realmente acha que nos falta o que fazer? Que nossas contas são pagas milagrosamente? Que o tempo que gastamos aqui tentando fazer desse mundo uma merda um pouco melhor pra se viver não poderia muito bem estar sendo gasto em algo mais produtivo mas, OLHA SÓ, pessoas preconceituosas como você estão a todo tempo passando piadinhas de mal gosto e disseminando uma cultura asquerosa que, além de colocar a culpa do estupro na mulher, ainda incita a violência por meio das tais piadinhas?

Por fim, cerveja ruim, propaganda ruim. Sim, a cerveja é péssima. Como dissemos acima, ninguém se declara “fã” duma cerveja marromeno dessas. Mas, peraí. Não sabemos quem fabrica, mas dinheiro ali tá rolando, viu. Galera tá comprando, nem que seja pra guardar no freezer pra servir por último nas festas. Sem contar que estão com grana pra veicular a propaganda até em horário nobre na tevê. E a propaganda é ruim? Sim, é péssima. Mas isso não exime a Nova Schin. Se fôssemos protestar contra coisas de pretensa qualidade apenas, sobraria muito pouco a ser falado, não? Então, amigx, na boa, bora dar um tempo no elitismo e encarar o problema de frente? Propaganda mequetrefe nenhuma nos define, mas se nos desrespeita nós iremos sim levantar a voz e reclamar!

* Texto colaborativo de Flávia Simas e Gizelli Sousa.

Mais textos sobre o assunto:

Biacentrismo - Cerveja é bebida masculina, certo? - Por Maria Beatriz

Escreva, Lola, Escreva - A repercussão do protesto contra Nova Schin - Por Lola Aronovich
Popnoid - Nova Schin incentiva o estupro e você pode fazer a diferença - Por Mariana
Mulher Dialética - Desconstruindo a cultura do estupro - Por Jarid Arraes
SubJudice- E se você fosse invisível, o que você faria? - Por Fátima
Escreva, Lola, Escreva - Situações Absurdas - Por Lola Aronovich
Blogueiras Feministas - A Nova Schin quer nos calar, mas vamos fazer barulho! - Jarid Arraes

1+1-1 - Qual o seu preço - Por Geísa Mueller
Contravento - Machismo: Preservativo, cerveja e Alexandre Frota - Por Charô
Partido das Causas Perdidas - Cultura do estupro e publicidade - Por Lou Sevla
Tumblr Uma Feminista Cansada - Resumindo propagandas 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin e seus desrespeitosos "Homens Invisíveis" 
Tumblr Machismo Chato de Cada Dia - Nova Schin, Leo Burnett e Conar
Kaleydoscopeeyes - A Nova Schin, as propagandas, o machismo e os publicitários moderninhos - Por Bete


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Imaginação e não Apelação, chega de propagandas machistas - Grupo criado para debater (e combater) a publicidade machista.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guestpost: Coletor menstrual: prós e contras

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva 2@ Vermelha, um evento que surgiu com o objetivo de nos colocar para falar sobre menstruação, esse tema que pode ser símbolo, tabu, orgulho, vergonha, dor, alegria e muitas outras coisas dependendo da forma como é vivido por cada uma de nós. A leitora Natália Schmidt preparou um guestpost super bacana para nós contando a sua experiência com o coletor menstrual. Afinal, falar de menstruação é também questionar tudo o que está ligado a ela, desde a TPM até os nossos absorventes.

Coletor menstrual, para quem não conhece, é um recipiente (um “copinho”) reutilizável de material maleável (geralmente silicone) que serve para colher a menstruação. Funciona assim: você coloca no canal vaginal e ele se prende por meio de pressão nas paredes vaginais. Depois, é só retirar, esvaziar no vaso sanitário ou na pia (ou ainda, se quiser, diluir o sangue na água e regar as plantas !) e colocar de novo! Depois do ciclo menstrual, deve ser esterilizado e ele estará pronto para ser usado novamente. Hoje, existem várias marcas que comercializam (destaque para MissCup, que é a única marca brasileira), mas até um tempo atrás não era assim, e além de tudo, era difícil de se achar.

 Há 2 anos, fiquei sabendo do coletor menstrual pela minha irmã, li sobre e achei super interessante o fato de ser reutilizável e portanto ecológico (sempre me incomodei pela quantidade de absorventes que vai para o lixo). Além disso, é livre de pesticidas e outros produtos químicos dos absorventes tradicionais. Decidi experimentar. Na primeira menstruação, achei um pouco desconfortável na hora de inserir. Para colocar: a gente dobra o “copinho” e coloca, chegando na posição correta, é só soltar que ele desdobra e fica preso por pressão na parede vaginal. Por causa da pressão, senti um pouco de dor. Para tirar, mesma coisa. E vazava, bastante. Além disso, me incomodava com o “cabinho” do coletor em alguns movimentos. Fui reclamar com a minha irmã e me surpreendi quando ela me disse que para ela, tinha sido ótimo, e ela amou.
            Pesquisando, descobri que só vaza quando colocado da maneira errada. E que é preciso praticar até não vazar. Além disso, lendo no manual de instruções, foi muito alívio quando descobri que pode (e deve, se te incomoda) cortar o “cabinho” do coletor. O “cabinho” está lá para facilitar o manuseio, para dar mais segurança para quem ainda está insegura, mas se incomoda, deve ser cortado. Decidi então dar uma segunda chance.
            Na segunda vez, acertei o pé. Consegui colocar direito, nos primeiro dias, vazou um pouquinho, e depois não vazou mais. E o corte do “cabinho” foi realmente um alívio.
            Depois disso, foi “amor a segunda vista”! Sou assumidamente apaixonada pelo meu coletor menstrual, porque conforme o passar do tempo, eu fui me adaptando melhor, e percebi que ele foi uma das melhores invenções dos últimos tempos... rs
            Entre os pontos positivos, o fato dele ser muito mais ecológico que os absorventes tradicionais ganha destaque. Mas se fosse só por esse ponto, nós poderíamos adotar os absorventes de pano, não é mesmo ? Acontece que o coletor menstrual é também muitíssimo confortável. Depois do período de adaptação – e salvo raras exceções -, você não vai nem sentir mais, garanto  (as vezes, eu esqueço que estou menstruada). Pode ser praticado qualquer atividade física durante o uso, inclusive nadar. Você pode ficar, teoricamente, de 4 a 8 horas sem esvaziar, mas eu já cheguei a ficar 12 (!) horas tranquilamente (depende do fluxo). Além disso, é mais econômico. O custo de um coletor menstrual da marca Misscup, segundo o site, é de R$ 75,00, e pode durar de 2 a 10 anos (depende de alguns fatores, como a frequência de uso). Podemos gastar em torno de R$ 200,00 em absorventes descartáveis por ano!
            Os outros pontos positivos menos óbvios, mas não menos importantes: nessa cultura de desvalorização de tudo que diz respeito ao corpo das mulheres, e inclusive – e especialmente - a menstruação, utilizar o coletor menstrual é uma ótima maneira de quebrar mitos e conhecer melhor o seu ciclo. Eu, pessoalmente, amo menstruar, acho lindo, e o coletor menstrual me permitiu um contato muito mais profundo com meu ciclo. É muito legal ver a quantidade do fluxo – e perceber que não é uma hemorragia descontrolada, afinal -, perceber que aquele odor desagradável e forte da menstruação nada mais é que o absorvente comum abafando o local, entre outras coisas. Aliás, o coletor menstrual é também mais higiênico, menos propenso a desenvolvimento de alergias e de algumas pragas, como a candidíase. Além do contato com o próprio ciclo, o manuseio do coletor estimula o conhecimento do próprio corpo – o que infelizmente, é tão negligenciado na nossa sociedade.
            O único ponto negativo de acordo com a minha experiência é que esvaziar em banheiros públicos pode ser uma experiência não muito bacana. Eu sou desastrada por natureza, e dependendo da situação do banheiro público, eu não consigo retirar, esvaziar e colocar novamente sem me sujar. Para tirar e colocar, ainda sinto cólica por causa da pressão, mas não é nada que me incomode tanto.
            Enfim, sou uma mulher assumidamente apaixonada pelo meu coletor!
            Eu uso da marca Mooncup. No site das marcas Mooncup e Misscup tem mais informações e depoimentos. E no site do MissCup também tem uma pesquisa legal sobre a opinião das consumidoras. Vale a pena pesquisar e experimentar! :-)

Observaçãonem toda mulher menstrua e nem toda pessoa que menstrua é mulher.