Na internet, covardes se escondem sob a máscara do anonimato e se acotovelam entre redes e portais para destilar seu ódio, criam sites hospedados em outros países para nossa legislação não alcançá-los. Usam o humor para agredir, justificando-o pelo que ele não é: politicamente incorreto. Não há incorreção em ser agressor e não transgressor, isso é trivial, é comum, banal, ordinário. Ou seja, nada original. E nem sequer é humor, ou então voltou a ser engraçado chamar negrx de macacx. Espera, nunca foi! A piada nunca teve graça. O que é engraçado para essas pessoas é apenas o ataque gratuito, rir da humilhação. Aí sim, posso afirmar que a humilhação dxs negrxs sempre foi motivo de júbilo para uma parcela da população. Herança do nosso passado escravagista, demonstração evidente da igualdade que nunca alcançamos.
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| Demonstração de racismo contra as cantoras Pepê e Neném |
As redes sociais têm provado ser território hostil para xs negrxs. Ultimamente a coisa tem piorado, os racistas estão amparados nas redes, por milhares de pessoas que perderam o medo ou a vergonha de demonstrar ódio, ou até mesmo pela anuência da administração dessas redes. A punição ao crime de racismo parece estar caindo em desuso, ao menos na internet. Lembrando que estamos num país em que se fala em "leis que não pegaram", que são uma falha em nosso sistema jurídico, penal e porque não dizer, também social e cultural. Leis que não são devidamente amparadas não tem o efeito de mudar uma cultura de ódio tão enraizado e que se propaga na medida em que nada é feito para contê-lo. Existem alguns casos de condenação ao ódio racista nas redes, mas são poucos e as penas são leves.
Recentemente o facebook passou a responder às denúncias que fazemos contra páginas, comentários e etc. E se antes o silêncio incomodava, as palavras parecem pesadas demais para suportar. Como lidar quando você está diante de clara expressão de preconceito e o facebook responde que não há nada demais no conteúdo? Todas as denúncias que fiz foram rejeitadas. TODAS.
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| Imagem da página de Facebook Preta e Gorda |
Felizmente a internet também é palco de ativismo contra o racismo e existem páginas sensacionais que fazem a diferença. Estou completamente apaixonada pela página "Preta & Gorda", por exemplo. Que faz um trabalho lindo de divulgação de imagens bodypositive, haja vista que o padrão de beleza vigente é racista e gordofóbico. Incentivar a autoestima das mulheres é muito importante.
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| Suburbia |
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| Lado a Lado |
O protagonismo não significa muito quando não vem revestido de cuidado com o contexto. Houve uma única "Helena" negra de Manoel Carlos, interpretada por Thaís Araújo. Embora a personagem fosse diferente do estereótipo que vemos sempre, pois era negra e rica, modelo internacional, com carreira de sucesso e etc. é bom que relembremos uma cena, gravada de forma indelével em minha memória. A cena em questão mostra a personagem Tereza, interpretada por Lilian Cabral, esbofeteando Helena, que se ajoelhou em sua frente para lhe pedir perdão. Alguns dirão que ela não apanhou por ser negra, mas por ter indiretamente causado o acidente que fez com que a filha de Lilian Cabral se tornasse tetraplégica, mas queridos, o signo é relevante. A imagem que já está gravado em nossa mente é o da mulher branca coagindo a mulher negra, uma cena que não pode ser jamais dissociada de um contexto. Não desprezem essa representação, pois ela tem significado histórico e cultural. É a sinhá e a escrava mais uma vez.
E já que mencionei a protagonista de Thaís Araújo, que até onde me lembro já teve três papéis principais, vamos lembrar de outra protagonista recente: Maria da Penha, a empreguete. Não é curioso que numa novela com três protagonistas apenas a mulher negra fale "incorretamente"? Curioso é modo de falar, gente. Essa presunção de que x negrx fala "incorretamente" ou que é iletrado é racismo mesmo. Além de ser uma representação bastante elitista, dada a profissão da personagem que também é estigmatizada, por ter uma baixa remuneração e ser essencialmente uma das profissões dominadas por mulheres. Assim, combina-se numa só personagem três tipos de preconceito: o machismo, elitismo e o racismo. E é claro, devo ressaltar que Maria da Penha foi a única das três empreguetes que sofreu assédio sexual em seu ambiente de trabalho.
A mulher negra possui outro espectro não contemplado pelos estereótipos “bandido” ou “incapaz”. A mulher negra é objeto. Há pouquíssimo tempo, na novela Fina Estampa, tivemos um exemplo marcante dessa questão. Não sei se todos se lembram, mas Fina Estampa era uma novela urbana. E dentro dessa ambientação de uma grande cidade, uma mulher negra era a única personagem de todo o elenco a banhar-se sensualmente ao ar livre com uma mangueira, cena que se repetiu diversas vezes até o fim da novela. Dagmar, sua flor nos cabelos, seus banhos noturnos sob a lua. Uma romantização do ódio contra as mulheres negras. A hipersexualização da mulher negra nas novelas é recorrente. Dagmar não foi a primeira, nem a última. Vale lembrar que na mesma novela havia a personagem branca e loira chamada Teodora, também uma mulher desejada, contudo em momento nenhum de toda a novela ela chegou perto de interpretar algo próximo dos pitorescos momentos sensuais de Dagmar, momentos em que o racismo e o machismo se misturam ao ponto de se tornarem indissociáveis. A objetificação da mulher branca e da mulher negra tem contextualizações distintas, embora ambas sejam violentas.
A mulher negra possui outro espectro não contemplado pelos estereótipos “bandido” ou “incapaz”. A mulher negra é objeto. Há pouquíssimo tempo, na novela Fina Estampa, tivemos um exemplo marcante dessa questão. Não sei se todos se lembram, mas Fina Estampa era uma novela urbana. E dentro dessa ambientação de uma grande cidade, uma mulher negra era a única personagem de todo o elenco a banhar-se sensualmente ao ar livre com uma mangueira, cena que se repetiu diversas vezes até o fim da novela. Dagmar, sua flor nos cabelos, seus banhos noturnos sob a lua. Uma romantização do ódio contra as mulheres negras. A hipersexualização da mulher negra nas novelas é recorrente. Dagmar não foi a primeira, nem a última. Vale lembrar que na mesma novela havia a personagem branca e loira chamada Teodora, também uma mulher desejada, contudo em momento nenhum de toda a novela ela chegou perto de interpretar algo próximo dos pitorescos momentos sensuais de Dagmar, momentos em que o racismo e o machismo se misturam ao ponto de se tornarem indissociáveis. A objetificação da mulher branca e da mulher negra tem contextualizações distintas, embora ambas sejam violentas.![]() |
| O Cirilo de 20 anos atrás |
Eu até poderia pular essa parte do texto, pois falar do Zorra Total, é chutar cachorro morto, uma vez que ESTÁ TUDO ERRADO. TUDO. Se duvidar cada quadro dá um texto para esse blog. Sabe quando no início do texto eu disse que chamar negro de macaco não tem graça? Pintar branco de negra também não. Qual seria o motivo que leva um ator branco a se pintar de negra para representar? Não seria mais prático chamar uma atriz negra? O motivo é o mesmo de sempre... Humilhação. Um branco ridicularizando a pele negra. Só que no caso da Adelaide, o ator que representa a personagem é negro. Um negro, pintado de negro. Bom, não sei se ele se identifica como negro, mas certamente possui traços característicos da raça negra. O que é bastante flagrante nesse caso é o alvo da chacota: a mulher negra. É isso que é exibido todos os sábados com a personagem Adelaide, do Zorra Total. Uma personagem, negra, pobre, desdentada, maltrapilha, que faz comentários desdenhosos de características dxs negrxs como por exemplo, a compleição de seus cabelos. Alguém realmente pode tentar justificar isso sem resvalar no racismo mais uma vez? Sem desqualificar as mulheres negras? Será que em algum lugar nesse país não tem uma mulher negra sendo chamada de "Adelaide" jocosamente apenas por ser negra?
A questão aqui não é esconder que o racismo existe, ou fingir que não existiu escravidão, mas é mesmo necessário que nos tempos de hoje, ainda estejamos sempre diante dos mesmos personagens, com novos atores, novas técnicas de filmagem, nova roupagem, mas o mesmo conceito? Porque não podemos representar negros em produções televisivas sem tender ao ódio ou ao paternalismo? Me recordo de alguns poucos exemplos interessantes e não estereotipados nas novelas recentes. Poucos. E mesmo entre esses, há certeza de que em certo momento os signos não são lançados novamente de forma velada ou pouco criteriosa?
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| Caitlin Moran, feminista, autora do premiado livro "Como Ser uma mulher" |
Certamente esse foi um ano decisivo para xs negrxs em nosso país, com a vitória histórica no STF pelo direito às cotas em universidades. Por outro lado, o conservadorismo está crescendo e ainda hoje, as palavras da música de Elza Soares fazem sentido: A carne negra é a mais barata do mercado. E se olharmos a fundo para a situação, podemos estreitar melhor esse jargão, veremos que a carne da mulher negra é ainda mais barata. Infelizmente, ainda precisamos caminhar muito enquanto sociedade para que isso deixe de ser verdadeiro.
Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra. Durante os dias 20 e 25 de novembro, uma aproximação entre o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Acompanhe aqui.
Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra. Durante os dias 20 e 25 de novembro, uma aproximação entre o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Acompanhe aqui.





















