O primeiro
título que havia pensado para esse texto era “eu, que fiz cesárea”, mas
refletindo melhor percebi que eu não fiz uma cesárea, fui cesareada.
O pouco do
contato que eu tive com informações a respeito de parto normal se deve ao
movimento feminista. Confesso que não fui atrás de muita informação, hoje penso
que devia ter entrado em grupos de apoio ao parto natural, ido atrás de gente
que tinha feito, procurado uma doula, saber sobre a burocracia do plano de saúde
e tudo o mais. Mas não fiz isso e essas informações não chegaram sozinhas até
mim. Por que? Por que não bastou ficar parada para que um parto natural me
fosse oferecido?
A cesárea
em compensação enfiou o pé na minha porta. Desde o começo ouvia que ela era o
melhor, mais garantida, menos preocupante, trabalhosa, dolorida, “uma benção”
alguns disseram. Toda vez que eu dizia que ia tentar parto normal ouvia um “o
que?” em resposta, geralmente acompanhado de “nossa, que coragem” ou mesmo
“para, você é louca” e chegaram ao absurdo de me responder com todas as letras:
“Não faça isso!”.
E foi assim
com toda essa falta de informação e de apoio que eu com quase 41 semanas de
gestação fui parar em uma mesa de cirurgia para a retirada da minha filha do
meu útero. E foi horrível. É até difícil de explicar como me senti, mas vamos
tentar:
Depois de
anestesiada eu comecei a passar mal, minha pressão caiu, tive ânsia de
vômito... e aí passou. Os médicos chegaram, se sentaram e começaram o serviço,
enquanto eu deitada, inerte, me mantive pacífica e de mãos atadas (quase que
literalmente, com aquele monte de fios, agulhas, máquinas me prendendo) no meu
próprio “parto”. Depois que me cortaram foi médico puxando de baixo,
anestesista empurrando de cima, todo mundo com suas máscaras de cirurgia se
esforçando no propósito de tirar meu bebê do lugar de onde ela não queria sair.
Quando a
pediatra a pegou e me mostrou, eu não via a minha filha ali. Eu via um pedaço
de mim. E quando digo um pedaço é como um pulmão, uma perna, algo que me foi
arrancado e que eu queria de volta. Eu me senti completamente mutilada,
invadida, violada. E eu chorei. E não, não foi choro de alegria ou de emoção.
Eu chorei de tristeza. Chorei a dor de quem acabou de ser violentada e sabe que
agora nada mais pode ser feito, nada vai trazer de volta o momento em que
aquilo não tinha acontecido.
Depois a
pediatra segurou meu neném no meu peito por algum tempo. E eu sinto que esse
deveria ser o momento mais espetacular e indescritível da minha vida. Essa
deveria ser a hora da sensação mais arrebatadora que já tive, da transformação,
da grandiosidade do meu ser, eu simplesmente não deveria ter palavras para
descrever esse momento. Mas eu tenho: A anestesia voltou a me dar uma náusea
muito, muito forte e aí eu olhei para a minha filha e disse exatamente “tira
ela daqui que eu tô passando mal”.
Depois
disso a Rita foi levada e eu sedada e fiquei lá por horas sendo costurada.
Quando fui para o quarto ainda não sentia minhas pernas, não podia falar, não
podia beber água, não podia levantar a cabeça, qualquer coisa que eu fizesse
poderia me causar efeitos colaterais fortíssimos e então eu prossegui inerte
durante boa parte do dia.
A lembrança
desse dia me dói muito. Sinto uma inveja tremenda quando vejo as imagens de mães
com seus filhos sangrando em suas mãos, louquíssimas de hormônios, com uma
mistura de choro (esse sim de emoção) e riso, sentindo algo absolutamente
indescritível, chega a apertar meu coração.
Ontem a
Marcha do Parto em Casa ocorreu em diversas cidades do país. Mas não se enganem
pelo nome, não lutamos apenas pelo direito de termos nossos filhos em casa se
quisermos, lutamos pelo direito de escolha e, partindo da perspectiva de
Gramsci, só há uma forma de alcançarmos esse direito: Com informação. Não há liberdade
sem conhecimento.
Não podemos
falar em cesárea por opção enquanto vivermos nessa nação cesarista que omite
tanto fatos, dados e estatísticas a respeito do parto, quanto suporte e apoio.
Não temos condições emocionais ou materiais de escolher um parto normal.
Queremos
ser empoderadas novamente, que parem de nos dizer que a dor do parto é como a
morte, que não temos força para ela, que não vamos aguentar. Queremos ser
lembradas de que o nosso corpo está pronto para o parto, que nós estamos
preparadas para isso, nós temos exatamente a força da qual precisamos. Queremos
parar de ouvir mitos como “só pode esperar até 40 semanas”, “não dá para fazer
parto se o cordão estiver no pescoço”, “ o bebê nasce roxinho porque falta oxigênio” ou mesmo “com
parto normal a mulher fica larga” (!!!).
Queremos
ser devidamente informadas sobre os maiores riscos de mortalidade materna com a
cesárea, sobre a sensação de prazer do
parto, sobre nossas reais necessidades. Queremos a possibilidade de ter nosso
bebê mamando na primeira hora de vida, do corte tardio do cordão umbilical e do
vínculo direto. Queremos ter autonomia para decidir sobre o nosso próprio corpo
e o direito de sermos protagonistas na nossa própria vida, inclusive (e
especialmente) no momento em que geramos outra vida.
Queremos a
informação e o apoio ao parto natural e ativo vindo bater a nossa porta ao
invés desse cesarismo que invade a nossa casa.
Ps. E para quem ainda não viu, aqui está o famoso vídeo que fez o Brasil morrer de amor.


