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quarta-feira, 27 de março de 2013

Afinal, quem o Marco Feliciano representa?

Foto do Fora do Eixo no ato do oito de março de Belo Horizonte. 
Marco Feliciano: deputado federal, atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Sua presença e presidência tem sido contestada por diversos movimentos sociais e pessoas comprometidas com os Direitos Humanos mesmo antes da sua eleição. 

Marco Feliciano é indesejado na CDHM por causa de suas diversas declarações preconceituosas contra negros, mulheres e homossexuais. Seus projetos de leis envolvem interromper a aplicação das decisões do STF que tratam de permitir a união estável entre pessoas do mesmo sexo e considerar essa união uma entidade familiar e a permissão de antecipação terapêutica do parto nos casos de feto anencéfalo. E ainda, instituir o programa "Papai do céu na escola" e estabelecer que as cédulas do real devem continuar a ter a inscrição "Deus seja louvado", entre outros.

Há alguns memes e tirinhas espalhados na internet que colocam o pensamento do Feliciano como algo primitivo. Mas infelizmente, tal pensamento é atual. Basta observar o poder da bancada evangélica no Congresso Nacional. Basta ver como Jean Willys, deputado gay que se posiciona contra Feliciano e cia, está sendo caluniado.

O pastor é deputado pelo Partido Social Cristão (PSC) e ambos dizem pautar nos ideais do Cristianismo para governar. E ontem o PSC optou por não indicar outro nome no lugar do Pastor para assumir a presidência da CDHM, ignorando completamente as diversas manifestações que houve por várias cidades do Brasil, a petição online que detém mais de 500 mil assinaturas e também o conteúdo das declarações do deputado. E nesse momento, trago uma reflexão, essa negligência que tratam as declarações homofóbicas, racistas e machistas feitas pelo Feliciano são sintomáticas de como o Estado não se importa em deter tais discriminações, mesmo com diversas previsões constitucionais e legais que as vedam. 

Feliciano representa quem usa a religião como desculpa para proferir discursos de ódio de impedir que outras pessoas tenham os mesmos direitos e respeitos que outras. Representa, também, o PSC e toda a bancada evangélica que acham que a presidência dele na CDHM é estratégica para não deixar direitos LGBT e direitos das mulheres passarem. Representa quem usa os Direitos Humanos das minorias como moeda de troca. Ele representa também quem diz que homossexuais querem privilégios, quem fala em ditadura gayzista e quem ao ver mulheres trabalhando, optando por serem mães quando quiserem e se quiserem e vivendo sua sexualidade as vêem como vilãs e vadias. E representa também quem defende liberdade religiosa só para quem é de sua religião.

Sinto muito dizer isso, mas Feliciano não é alguém que veio da Idade Média cheio de pensamentos conservadores. Ele e sua corja são atuais. E a nossa luta não deve se pautar apenas em retirá-lo da CDHM, até porque outra pessoa do PSC irá assumir o cargo. 

A nossa luta deve ser pelo Estado laico e por isso ir contra o uso de fundamentação religiosa na hora de fundar partidos e governar. E lutar por isso não é violar o princípio da liberdade religiosa, é simplesmente utilizá-lo dentro dos ditames da laicidade. A luta deve ser também contra esse ideal de família tradicional que tanto exclui e marginaliza. 
Acervo pessoal - foto tirada no ato do oito de março de 2013 em BH. 


Se eles se uniram para restringir os direitos que adquirimos e impedir que tenhamos os direitos que queremos, nós nos unimos contra eles. Eles não passarão. Mesmo que tenham um nome diferente de Feliciano. Nós somos contra tudo que eles representam: o preconceito, a negligência, o conservadorismo e o desrespeito aos cidadãos.

Leia também:
Por que as titias feministas implicam tanto com Feliciano e por que você também deveria implicar. - Subvertidas
Ainda em tempo de Franciscos e Felicianos - Subvertidas
Estado laico para garantir os direitos humanos - Blogueiras Feministas 
Retrospectiva da jornada de lutas pelos Direitos Humanos no Congresso Nacional - Blogueiras Feministas 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os "Bons costumes" e o slut-shaming.




Texto colaborativo escrito por Flávia e Thaís.
Por Débora Vaz - Postada na página "Homem Feminista de Verdade".
Sérgio Cabral, governador do estado do Rio de Janeiro, aprovou a lei "da moral e dos bons costumes" proposta pela deputada Myrian Rios. Segundo a deputada, essa lei é um “Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais”, mas segundo os críticos, ela é um programa que limitará a liberdade individual com o fim de promover valores cristãos, o que feriria o estado laico.

Myrian Rios é um nome que os militantes de direitos humanos não simpatizam, porque ela já fez declarações vinculando homossexualidade com pedofilia, disse também que não contrataria uma babá lésbica e se manifestou contra a PL122. Enfim, ela é uma das paladinas a favor da "família cristã" e contra os direitos de parcela da sociedade. 


O histórico da deputada nos mostra que seus ideais, por mais que em sua superfície possam ser interpretados como "universais", não passam de uma tentativa descarada de normatizar a sociedade brasileira através de valores "cristãos" que seguem uma pauta discriminatória machista e homofóbica.

Sabemos que o estado é laico, ou seja, não é ateu e nem religioso. A aprovação de uma lei que se propõe a resgatar valores "espirituais" é, pra dizer o mínimo, um deboche direcionado às minorias - religiosas e atéias. Não é preciso muito esforço para perceber que a deputada não está se referindo a espiritualidades candomblé, umbandista, muçulmana, hare-krishna ou qualquer outra vertente não-cristã. 

Com tudo isso, vieram à tona os debates acalorados. Não vamos nos ater aos defensores de tal projeto de lei porque só sendo reacionário-master para não perceber o quão prejudicial e inconstitucional ela é. Falemos da reação de quem é, aparentemente, contra o projeto da deputada Myrian Rios. Pipocaram cartazes ridicularizando a deputada. Ficou claro que, pra muita gente, o que desabona o projeto de lei não é o seu caráter discriminatório e claramente inconstitucional. O que gerou a reação acalorada foi o fato de a deputada ter...posado nua no passado. 

Imagem do Zine Estridente - frase de Paula Mariá
Pronto. Desvendado o mistério. Pra uma parcela da população brasileira, o problema nem é a lei em si, mas sim o fato de que a deputada Myrian Rios, por ter um passado que ~a condena~ (sério, gente, sério), não teria "cacife" pra falar em moral e bons costumes. Nós aqui do ativismo ficamos ainda com mais vontade de correr pras montanhas.

Condenar a deputada por um dia ter posado nua e usar esse fato pra desvalorizar o que ela fala/pensa não é só "apontar a hipocrisia dela". É julgar seu comportamento com base no moralismo sexual que permeia nossa sociedade. Não há como afastar o fato de que posar nua é considerada uma forma de desqualificação do "valor" feminino e por mais que se afirme que a intenção é boa porque o que se quer é apenas "apontar uma hipocrisia", a divulgação da imagem dela nua, perante o contexto social que nos encontramos, acaba por dar forças aos "bons costumes". A mensagem não é recebida conforme o esperado, por causa do significado social que posar nua tem. Dizer "dePUTAda" e "uma vez vadia, sempre vadia" não é apenas "apontar uma hipocrisia", é fazer "slut-shaming".

Buscar no passado da deputada "um histórico imoral" como forma de desqualificá-la, no lugar de criticar as atitudes machistas, homofóbicas e anti estado laico dela é colaborar com a perpetuação da perseguição de todas as mulheres que fogem, alguma vez na vida, da suposta moralidade feminina. 



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cultura do Estupro - Avenida Brasil e a naturalização da violência


Aqui estou, mais uma vez, falando sobre novela. Enquanto da última vez a minha maior preocupação era a "cura gay" e a "redenção da piriguete", dessa vez o assunto é outro: Estupro. Em pouco tempo tivemos os protestos da prudence e da Nova Schin, e agora, "Avenida Brasil" naturaliza a violência.

Casamento de Ronielen
Sabíamos, como disse no outro post, que Roni e Suelen se casariam, o que de fato aconteceu: O gay e a piriguete se casaram. Em tese, o casamento seria de fachada, mas Suelen está determinada a seduzir o marido. A questão é que Roni é gay, o que a Suelen faz? Embebeda o rapaz para seduzí-lo e faz sexo com ele.

Assista aqui.


No dia seguinte Roni acorda e fica atordoado ao perceber o que aconteceu. Ele a acusa de assédio sexual (Não, Roniquito, o nome disso é estupro de vulnerável mesmo!), diz que vai chamar a polícia que vai processá-la. A reação de Suelen? Ela ri, zomba dele, diz que ele vai ser piada no Divino. Não é à toa que tantas pessoas, homens e mulheres, quando vítimas do estupro se sentem envergonhados e até mesmo culpados. A estigmatização também é responsável pela impunidade dos agressores.

Assista aqui.


A questão é que em tempos em que figuras nefastas como a psicóloga Marisa Lobo e o deputado Jair Bolsonaro promovem debates tentando deslegitimar a proibição do Conselho de Psicologia à chamada "cura gay", a novela exibe um gay fazendo sexo com uma mulher. A prática do sexo não-consensual para fins de cura da homossexualidade é chamada de estupro corretivo.

Estupro corretivo sendo exibido na novela de maior audiência do país, em tom de piada, além da troça que suelen faz da ameaça de processo de Roni, é mais uma manifestação da cultura do estupro naturalizando a violência. 


O pior é que essa não é a primeira cena de estupro que vi em Avenida Brasil, há alguns meses vi uma cena horripilante no núcleo do Cadinho. Um personagem detestável que era casado com duas mulheres e mantinha um relacionamento com mais uma, Alexia. E há uma cena em particular em que o estupro de fato aconteceu.


O núcleo mais chato da novela
A cena é a seguinte: Alexia já tinha terminado o relacionamento com Cadinho e estava noiva de outro homem, o Ruy. Cadinho entra na casa dela, veste o pijama do Ruy, passa o perfume do Ruy e tenta estuprá-la enquanto ela usa um tapa-olhos desses de dormir. Ao perceber que se tratava de Cadinho, Alexa tenta expulsá-lo, mas não consegue. Diante da negativa dela, ele a força a fazer sexo com ele, mas no fim, ela parece feliz. 

Assista aqui.


Então, se ela está feliz, qual o problema disso?

O problema é que essa cena diz o seguinte: "Mulheres dizem não quando querem dizer sim". E essa é uma máxima que ajuda na manutenção da cultura do estupro. Ainda que ela quisesse fazer sexo com o Cadinho, ela disse que não. A vontade dela foi expressa e deveria ter sido respeitada. Não é não.

Imagem babaca que corre aí pelas redes sociais
Não é difícil entender o que é o estupro. Basta compreender o que significa "não consensual". Sabe aquela passada de mão na bunda da mulher? Estupro. Sabe aquele beijo forçado na boate? Estupro. Sabe quando alguém embebeda outra pessoa para conseguir ficar com ela? Estupro. Pois é, nossa legislação é bem abrangente. Estupro não é apenas aquele momento em que alguém é abordado por um estranho na rua e é forçado a fazer sexo com o agressor, estupro é muito mais que isso. E inclusive, acontece frequentemente dentro de casa, com pessoas conhecidas, muitas vezes com o próprio marido ou namorado, como no caso de Roni/Suelen e de Alexia/Cadinho.

Exibir um gay bêbado fazendo sexo hétero e um casal hétero fazendo sexo após uma negativa expressa da mulher, sem nenhuma consequência para as partes agressoras é passar uma mensagem clara de que esses comportamentos são aceitáveis. É acatar a cultura do estupro, é mantê-la, é disseminá-la.

UPDATE: Algumas pessoas estão achando que eu detesto o Cadinho porque ele está numa relação não-convencional. Muitíssimo pelo contrário, o que eu não gosto é de mentira. O Cadinho enganava as mulheres e não estava em uma relação livre, ele estava em 3 relações monogâmicas em que ele era infiel em todas. Reside aí uma grande diferença. Eu encaro as relações livres como um relacionamento onde a sinceridade é muito importante. Não é conservadorismo da minha parte. Quem quiser se informar mais sobre relações livres pode entrar no blog da Rede Relações Livres.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O gay e a piriguete nas novelas da Globo


Helena sofredora moradora da Zona Sul
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela. 

Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.


Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:

"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."

Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis. 

Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma". A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.

Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.

Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras.  Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.

Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador. 

Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).

Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual. 

Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais. 

A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Orgulho lgbt*: a dor de quem ousa ser diferente.


Arte de Maika Pires Milezzi.
 Ontem, 28 de junho, fez 43 anos desde a "rebelião de Stonewall". Esse dia foi um marco por ter sido a primeira vez que um grande grupo lgbt* resistiu à ação violenta da polícia. O fato desencadeou dois dias de protestos, e em 1º de julho de 1970, houve uma Marcha que hoje é considerada a precursora da "Parada do Orgulho LGBT".

Ontem seria o dia perfeito pra se discutir a criminalização da homofobia (e da transfobia), seria um dia pra se falar sobre a necessidade de educar a sociedade para a tolerância, poderia até ser um dia de se discutir o casamento civil homoafetivo. Mas a pauta da Câmera dos Deputados foi a "cura gay". Um retrocesso. 

Na madrugada do dia 24 de junho, dois irmãos foram confundidos com um casal homossexual e foram espancados por oito homens. Um deles morreu, o outro foi para o hospital com ferimentos sérios no rosto. Um crime chocante motivado pela homofobia. Porém, a homofobia não se expressa apenas nos assassinatos, mas no dia-a-dia, existem muitas outras violências que criam um ambiente favorável para haver a violência final, que são essas agressões e homicídios. Uma delas é colocar a homossexualidade (e também a transexualidade** e a bissexualidade) como doença, um pecado, uma subversão de valores. 

A Rússia proibiu as "Paradas de Orgulho lgbt*" pelos próximos 100 anos. Motivo que levou os ativistas lgbt* a buscarem o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para reverter essa proibição. O grupo lgbt* na Rússia não tem o direito de se manifestar nas ruas de sua capital. Direito, teoricamente, consagrado para a população heterossexual. Quem é gay, lésbica, bissexual e transexual é considerado cidadão de segunda categoria, seus direitos reconhecidos são ignorados e são desrespeitados, como se essas pessoas não fossem "dignas" o suficiente de serem parte da universalidade dos Direitos Humanos.

Talvez um dos mais importantes pontos a ser tocado é o uso do "orgulho gay" no lugar do "orgulho LGBT*". Ao falar em "gay", há uma exclusão de uma grande parcela de pessoas que também sofre preconceito pela sua orientação sexual e/ou pela sua identidade de gênero. Lésbicas, bissexuais e transexuais, ao não serem incluídos, têm seus direitos ainda mais marginalizados. Se gays são considerados um grupo de cidadãos de segunda categoria, imagine só as lésbicas, bissexuais e transexuais que nem sequer são citados em muitas notícias e na própria luta pelo reconhecimento de seus direitos.

A marginalização do grupo LGBT* invisibiliza as discriminações sofridas pelo grupo como um todo. É necessário falar que gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não são doentes, não são loucos, nem depravados e imorais. São seres humanos que buscam uma vida plena, com acesso aos seus direitos, sem medo de morrerem por serem quem são e por amarem e/ou desejarem que quiserem.
Foto de  Gabriela Gasparotto. 

Campanha das Mulheres de Viçosa em movimento na Marcha das Vadias

Restringir os direitos desses cidadãos é impedir a plena participação deles na sociedade, é um atentado contra o próprio Estado Democrático de Direito. Afinal, a pluralidade é um componente da Democracia. O Estado, ao negligenciar a violência sofrida por esse grupo de pessoas, atenta contra seus próprios princípios e também contra os Direitos Humanos.
Não é normal impedir que um grupo de pessoas tenha acesso aos seus direitos civis, não é normal fechar os olhos a uma violência sistêmica contra esse grupo específico.

**A transexualidade ainda é considerada uma patologia. Já a homossexualidade, desde 1990, deixou de ser considerada assim pela Organização Mundial de Saúde. A discussão da Câmara foi sobre permitir tratamento para curar a homossexualidade, ou seja, "patologizar" novamente a homossexualidade.