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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Machismo no futebol: Pode isso, Arnaldo?

"Nossa, você é ruim em matemática". "Nossa, garotas são ruins em matemática."

A manchete "Bandeira musa erra feio e irrita jogadores e dirigentes do Cruzeiro" é apenas a ponta do iceberg do machismo que envolve o caso. O jornalismo esportivo é conhecido por ser um antro de machismo, em toda oportunidade que se preze, são eleitas musas no meio. Ele é feito como se apenas homens héteros acompanhassem esportes e mulheres são vistas apenas como atrativos de cliques, sejam atletas, sejam apresentadoras, sejam comentaristas ou árbitras. 

O comentário do diretor de futebol Alexandre Mattos sugerindo que a bandeira Fernanda Colombo abandonasse sua profissão e já que é "bonitinha" posasse para Playboy é uma amostra dessa objetificação. É mais uma vez o machismo dizendo que o lugar de mulher é enfeitando. E se a bandeira estivesse fora do padrão de beleza e fosse considerada feia? Ela continuaria sendo desqualificada pelo erro e também por ser feia e não ser capaz de exercer o papel primordial da mulher, que é enfeitar, ser musa.




Fernanda Colombo cometeu um erro e seu erro foi considerado um argumento para desqualificar todas as mulheres. O erro da bandeira virou "argumento" contra bandeiras serem mulheres. Foi ela errar, que choveram comentários que afirmam que lugar de mulher não é no futebol. E eu pergunto, quando homens erram ao arbitrar um jogo falam que nenhum homem sabe arbitrar? Falam que futebol e homem não combinam? Falam que homem não entende nada de futebol? Porque é essa a repercussão machista e sem noção do caso: ela errou e o erro dela passou a servir de argumento pra afirmar que todas as mulheres não servem para serem bandeiras. 

A desqualificação de todas as mulheres por causa do erro de uma mulher não é exclusividade do futebol. Isso acontece em todos os meios considerados espaços masculinos: uma mulher desrespeita a sinalização de trânsito e causa um acidente e o que é falado é "só podia ser mulher mesmo", "mulher é barbeira demais" e até absurdos como "mulher tinha que ser proibida de dirigir". E se esse mesmo acidente for causado por um homem? Nesse caso, apenas o homem causador do acidente será considerado ruim motorista e às vezes o machismo é tão grande, que se esse acidente ocasionado por imprudência do motorista homem envolver uma motorista mulher que estava fazendo tudo certinho na hora, a frase "só podia ser mulher" será ouvida. Além do trânsito, a matemática e as ciências, no geral, são consideradas áreas masculinas e por isso, durante o ensino fundamental e médio, muitas meninas ouvem que mulheres não servem para essas áreas. Uma garota da sala tem dificuldade em matemática e a dificuldade dela, para o machismo, se torna "mulheres tem dificuldade em matemática" e fica por isso mesmo. Enquanto isso, um garoto que não se destaca em matemática jamais ouvirá "é assim mesmo, fulano, homens são péssimos em matemática", pelo contrário, vai ouvir estímulos para continuar os estudos e obter melhores resultados.

O futebol é visto como um assunto masculino e a desqualificação de Fernanda parte do pressuposto de que há lugares para mulheres e lugares para homens e que ela invadiu um lugar masculino e por isso ela merece ser rechaçada por falhar uma vez durante uma partida. Seu erro, para o machismo, é uma prova de que ela não deveria ter saído do seu lugar de mulher. 

Jornalismo Punheteiro - tumblr que critica a objetificação de mulheres no meio esportivo.

"Não quero ser musa" - texto do Ativismo de Sofá.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Por que espaços políticos exclusivamente femininos são tão necessários?


De Anna Grrrl.
Quando se fala em "espaços políticos exclusivamente femininos", a polêmica se instala. Mas os motivos dessa polêmica existir e sempre dar grandes debates em grupos e coletivos feministas é só mais um sinal de como essa espécie de grupo é necessária para a nossa militância.

Por que apoiar a existência de espaços exclusivamente femininos? Bom, quando a gente pensa nos espaços que compõem a nossa sociedade, a gente percebe que nós mulheres não sentimos a sensação de "pertencimento" e liberdade em nenhum dos espaços conhecidos. A rua "é" dos homens e eles sempre fazem questão de nos lembrar disso quando alguns deles nos assediam e nos fazem temer pela nossa integridade física/sexual. A escola/faculdade/trabalho são espaços públicos, assim como a rua, logo, de pertencimento dos homens. A casa costuma seguir os moldes da sociedade patriarcal e ter como líder dela um homem, mesmo que sejam as mulheres que limpem e a mantenham. Nossa voz tem menos valor em todos esses lugares. Espera-se nesses locais que a gente se comporte como nos foi ensinado: submissas, frágeis e quietas.
  
Se todos os espaços que conhecemos, mesmo que pareçam mistos, nos sentimos como intrusas, há algo bem errado, não? E é a partir dessa reflexão é que a gente deve começar a pensar na necessidade dos espaços políticos exclusivamente femininos.

Se homens e mulheres não têm espaços iguais na sociedade, pegar um espaço e fazê-lo unicamente feminino não fere a igualdade que o feminismo busca, porque se todos os outros espaços são masculinos e esse espaço feminino servirá pra fortalecer os laços entre as mulheres e construir um movimento de emancipação e libertação, não há ofensa. A existência de um espaço que """""exclui""""" a parcela dominante da sociedade é simplesmente um mecanismo das mulheres de saírem da situação de marginalização que a dominação masculina as colocou. 

Retirado daqui: Anna Grrrl - 
Tradução: Eu luto como uma garota.
O espaço político exclusivamente feminino não fere os homens e nem tem a intenção de fazê-lo. É simplesmente uma forma de auto-organização que é extremamente necessária para o movimento feminista. Vivemos em um mundo onde a voz da mulher não tem valor, onde não acreditam em amizade feminina verdadeira, onde tentam nos calar fazendo piadinhas sobre nossos papéis de gênero a cada momento que temos coragem de levantar a voz contra as opressões sofridas, onde o termo "mulherzinha" é considerado uma ofensa. E onde a presença masculina é opressora para as mulheres, por mais que o cara seja igualitário e nos respeite, nós fomos condicionadas a temer os homens e a nos calar frente a eles. 

Nós precisamos de espaços políticos exclusivamente femininos para que possamos juntas nos organizar para combater as opressões, para fortificar nossos laços com outras mulheres, aprendermos a ouvir as outras mulheres e digo até que a existência deles é importante para que a gente combata nossos machismos internalizados. Por que a gente precisa tanto pedir para que os homens participem de mais um espaço? Será que é porque a gente foi condicionada a sempre pedir "aprovação" para o que pensamos?  Esses espaços nos ajudam a nos emancipar, a construir uma autoestima independente de aprovação masculina, a aprender a amar outras mulheres e a bater de frente com todo nosso machismo e misoginia internalizados. 

Apoiar espaços políticos exclusivamente femininos não é ser excludente. Não é oprimir homens. Não é buscar privilégios. É simplesmente fortalecer nossa luta. E multiplicá-la. Afinal, apoiar esses espaços não é ser contra espaços mistos. É simplesmente querer somar aos espaços mistos outros espaços.

E termino esse texto dizendo que muitos dos argumentos utilizados a favor da defesa dos espaços femininos se aplicam também na defesa de espaços políticos exclusivamente para mulheres negras e/ou lésbicas. E a mesma lógica se aplica também quando trabalhadores e operários buscam um espaço para discutir suas idéias sem a participação dos patrões.

Recomendamos MUITO: "Separatistas são os homens", de Cely Couto. 

E também: "Guestpost: Feministas chatas e lugares de fala" de Lídia Freitas
 "Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado." da Gizelli Sousa. 
"Por que precisamos de espaços exclusivos?" - Blogueiras Negras, sobre espaços exclusivos para pessoas negras. 
E "Não pediremos: "por favor parem de nos oprimir"" de Thaís e Flávia. 

Imagens do tumblr Anna Grrrl.
Página do facebook: Anna Grrrl.