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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Porta dos Fundos: transfobia no humor não causa riso, perpetua preconceitos.


Por Flávia Simas e Thaís Campolina  




A invisibilidade das pessoas trans* e suas questões, como a busca pela despatologização da transexualidade, como a luta pelo reconhecimento do nome social, contra a violência com motivações transfóbicas e pelo respeito no mercado de trabalho é um fato. A mídia e a sociedade praticamente não dão espaço para tratar sobre o tema da transexualidade e raramente é possível ver matérias que tratem do assunto de forma séria e sem transfobia. 

Um erro muito comum em várias matérias jornalísticas é colocar a pessoa transexual que foi vítima de um crime como vítima de homofobia e não de transfobia, o que demonstra uma clara confusão a respeito de orientação sexual e identidade de gênero. O uso de pronome masculino ao se referir às travestis e identificar a pessoa trans pelo nome que ela não identifica como seu também são recorrentes. Os erros citados são demonstrações de transfobia e reiteram esse preconceito.

Além dessa invisibilidade que se constrói em cima da marginalização das pessoas trans*, é muito comum que as pessoas transexuais só sejam lembradas num momento: para fazer piadas a respeito de sua identidade, o que é uma forma de manter a marginalização. O programa virtual Porta dos Fundos é um exemplo recente disso. 



Não é de hoje que o Porta dos Fundos decepciona a gente. É de se surpreender que um programa que tem tanta visibilidade e que é visto por muitas pessoas como uma nova forma de humor esteja fazendo mais do mesmo. É frustrante perceber que, embora possamos ver alguma novidade em alguns vídeos, eles estejam errando tanto a mão, e de forma tão grosseira. 

E o que seria fazer mais do mesmo? Seria utilizar do velho humor que expõe e humilha grupos oprimidos. Mais uma vez temos um programa que não se propõe exatamente a ser libertador, mas apenas a vender um produto, que, apesar de soar moderninho, não faz nada muito diferente do que os "humoristas" do Zorra Total têm feito há anos, ou seja, rir das minorias. 

Há vários aspectos que podem ser levados em consideração ao analisarmos, por exemplo, o vídeo "Casal Normal", do canal Porta dos Fundos (por respeito às pessoas trans, não linkaremos o vídeo aqui). Primeiro, sobre a questão da arte em si: qual o limite da arte? Deveríamos pautá-la? Até que ponto a arte pode se dar ao direito de ser politicamente incorreta? 

Acreditamos que a arte, em si, não deveria ser pautada. Entretanto, entendemos que a arte não acontece num vácuo. Há sempre um contexto que precisa ser levado em consideração, e se a arte se decide por seguir o caminho mais fácil, ou seja, o que perpetua o status quo, ela reafirma as desigualdades. Mas, deveria a arte se preocupar com isso? Gostaríamos que não. Porque gostaríamos, na verdade, que reforçar preconceitos não fosse um produto tão rentável. 

É no mínimo curioso que uma arte que apenas repete o que vem sendo feito desde sempre tenha a seguinte descrição: "PORTA DOS FUNDOS é um coletivo criativo que produz conteúdo audiovisual voltado para a web com qualidade de TV e liberdade editorial de internet." Porque basta assistir ao vídeo "Casal Normal", que por falar nisso não é o primeiro vídeo transfóbico do coletivo, para percebermos que a criatividade em questão tem seus limites. Ou seja, o limite é o da rentabilidade de um riso fácil e sem comprometimento com a realidade brutal que afeta milhões de pessoas trans mundo afora. Tal "liberdade editorial de internet" limita-se, assim como a televisão, àquilo que o "povo quer". E o povo quer rir. 

Tratemos então, do segundo ponto, ou seja, o riso. Acreditamos que nenhuma argumentação nossa aqui surtirá mais efeitos que o documentário O riso dos outros. Dessa forma, aconselhamos quem ainda não assistiu ao filme que o faça o quanto antes. Por ora, é necessário refletirmos acerca de um fator que primordialmente caracteriza o riso: a insensibilidade. Para que o riso aconteça, é necessário não apenas um distanciamento da outra pessoa, objeto do humor, mas também uma boa dose de crueldade. Ou, como diria Bergson, é preciso "uma anestesia momentânea do coração". Ainda segundo Bergson, de forma geral o riso acontece a partir do defeito alheio. Rir daquilo que não nos parece "normal" é exatamente o que faz com que uma piada "dê certo". 

No nosso entendimento, é aí que está o problema. As minorias são alvo fácil do humor justamente por se encaixarem naquilo que o senso comum considera como "anormal". É aceitável rir de alguém que não se parece com você. Em uma sociedade em que as minorias são tão marginalizadas e em que há uma negação 1. do problema e 2. da própria realidade de dor dessas minorias, é um tanto fácil ganhar rios de dinheiro reforçando negativamente a diferença. E sair pela tangente, afirmando que vai fazer piada com aquilo que o povo quer ouvir. Efeitos de uma sociedade em que o lucro precede a humanidade das pessoas. E o direito fundamental e humano que tais pessoas possuem de serem respeitadas. 

A arte e o humor podem e devem ser criticados caso reafirmem o status quo e se baseiem em humilhar um grupo de pessoas. Mas é comum que as pessoas coloquem o humor num patamar inalcançável a críticas e ignorem que a suposta piada se baseia em desrespeitar pessoas, ignorar fatos sociais, reafirmar padrões e preconceitos. 

Imagem retirada da page Transexualismo da Depressão
Infelizmente há vários exemplos de piadas transfóbicas, a maioria delas faz questão de desrespeitar a identidade de gênero da pessoa trans. Ariadna, ex-bbb, foi vítima de várias agressões no dia do homem, por exemplo, com essa desculpa de que era humor. A última imagem extremamente transfóbica que vimos ser discutida na internet tinha o seguinte título "Prós e contras de se namorar um travesti", desde a leitura da chamada a gente percebe que a mulher trans é mais uma vez tratada no masculino, tendo assim sua identidade de gênero desrespeitada. Além disso, a "piada" reafirma padrões de gênero e ainda tem o absurdo "se você bater nela, ela não vai poder ir na delegacia das mulheres", que além da clara transfobia, é uma frase extremamente misógina. Não tem nada de engraçado em ridicularizar mulheres trans*, muito menos em colocar a violência contra elas como algo ok e que pode ficar impune. 

Fazer humor não é proferir discursos de ódio como se isso fosse engraçado. Isso é agressão. E ignorar esse aspecto de violência desse tipo de "piada" que citamos é banalizar as mortes motivadas pela transfobia, é contribuir para que o desrespeito contra as pessoas trans no ambiente de trabalho, na rua, em casa, na faculdade, na escola, continue acontecendo e tal grupo permaneça sendo tratado com negligência.

Quanto ao vídeo "Casal Normal", reiteramos nosso repúdio ao mesmo, pois ele colabora para a manutenção da transfobia. A partir do momento em que se brinca de forma tão irresponsável com questões sérias e que urgem por uma reflexão de toda sociedade, o humor não é mais humor, e sim maldade. O vídeo é praticamente inteiro transfóbico, mas cabe destacar duas situações especialmente tensas: 1. o reforço da idéia de que a transexualidade é algo que não pode ser explicado às crianças (a velha pergunta 'e as crianças' entrando em ação, para cimentar a noção de que pessoas trans são bizarras e, portanto, cômicas); 2. a insistência do diretor da escola em saber qual era o nome "real" dessas pessoas, em uma clara demonstração de desrespeito à verdadeira identidade das mesmas. 

Por fim,  quem diz que a crueldade é uma condição sine qua non para a existência do humor, parece se esquecer que tal crueldade pode ser dirigida a grupos que não se encontram em situação de vulnerabilidade. Um humor que não destrua ainda mais a vida dessas pessoas é possível. E há humoristas que conseguem captar isso, como o documentário O Riso dos Outros bem atesta.  

Indiretas feministas


Um texto brilhante que esmiúça todas as nuances transfóbicas do vídeo em questão pode ser lido aqui. E um relato pessoal de Flávia acerca de cissexismo e transfobia pode ser lido aqui


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cissexismo: meu relato.



Visite a página das feministas do cariri. O trabalho delas é excepcional.

Era uma cidade qualquer no interior de Goiás. Eu resolvera me aventurar e dar aulas numa faculdade por lá. Seria a minha primeira experiência como professora universitária e eu me encontrava pra lá de ansiosa.

Se me perguntarem hoje, eu não saberia responder com exatidão quais foram as turmas em que eu entrei naquele meu primeiro dia de aula. Mas eu me lembro como se fosse ontem da minha estréia em uma daquelas turmas.

Cheguei e antes de iniciar a lição, resolvi fazer a chamada. Nunca fui boa com nomes, então sempre fiz questão de fazer chamada para ir me familiarizando com xs alunxs. Obviamente, eu tinha preparado uma longa dinâmica para conhecê-lxs melhor mas, naquele início, eu achei prudente fazer uma chamadinha básica.

Chamei alguns bons nomes até chegar naquela fatídica letra F. Acho que falei um Fabiane, um Fábio, um Fabíola até chegar em... Fernando. A sala explodiu em uma uníssona gargalhada. Eu, que já estava bem nervosa (primeira vez em um curso universitário é de dar nos nervos de qualquer professorx, presumo), fiquei sem saber direito o que fazer. Não entendi nada. Não ri. Apenas observei a boa risada que xs alunxs davam e perguntei qual a piada. Não se preocupe, professora, amanhã você vai entender a piada. O Fernando deve aparecer por aqui.

Resolvi não botar pilha. Terminei de chamar os nomes e me levantei. Continuei a aula e tudo correu dentro dos conformes do meu plano de aula. Uns ajustes aqui, outros ali e eu consegui dar uma aula razoavelmente dentro da abordagem comunicativa, à revelia de se tratar de um grupo visivelmente heterogêneo e numeroso.

Fui embora e a tal da piada incompreendida não saiu da minha cabeça. Fui andando para casa atordoada, imaginando quem seria o tal do Fernando. O pior se abateu sobre mim: deve ser algum aluno muito, muito indisciplinado. Daqueles capetas que simplesmente não deixam a aula acontecer. Céus, teria eu que encarar problemas de disciplina até numa universidade?  

O fato é que o “mistério” fora desvendado no momento em que pisei na sala de aula, no dia seguinte. Olhei e de imediato identifiquei que a “piada” era alta, tinha os cabelos longos, lisos e castanhos, olhos amendoados, um lindo sorriso e roupa/maquiagem impecáveis. Caminhei em direção a ela e me apresentei. Sou a teacher Flávia, e você é a...? Eu sou a Fernanda, mas pode me chamar de Nanda. 
  
Eu sentia o olhar de ironia dxs alunxs ao redor, mas elxs não se atreveram a gargalhar. Iniciei a chamada e ao chegar no nome dela, falei simplesmente Fernanda, e dei seguimento com naturalidade. Dei a aula e já pude identificar, naquele dia, que a Nanda era uma aluna excepcional. E parece que era justamente o fato de se tratar de uma excelente aluna que fazia com que xs colegxs se calassem perto dela. Mas, seria esse silenciamento fruto de um respeito que a Fernanda, enquanto ser-humano, merecia? Pelo gargalhar do dia anterior, parecia que não.

Enfim. Não demorou muito e já éramos amigas. Eu nunca suportei a clausura da sala de professores por lá, então eu ficava era no pátio mesmo. E passava os intervalos com a Fernanda. Tivemos momentos de muita amizade e cumplicidade. Ela me contava de seus casos amorosos, alguns bem tristes, e eu lhe contava dos meus perrengues em relacionamentos falidos.  Falávamos também de música, livros e filmes. Ela despertou em mim o gosto pela Thalia e sua evidente paixão pelo espanhol me fez ter interesse pela língua e eu acabei aprendendo um pouco do idioma com ela. Discutíamos, também, acerca de amenidades diversas, tais como cuidados com cabelo e unhas.

Era tudo lindo e eu me encontrava numa bolha cor-de-rosa. Até o dia em que a bolha fora violentamente rompida por uma colega, professora de literatura portuguesa naquela instituição. Estávamos organizando uma Semana de Letras e eu pensei que talvez a Nanda pudesse cantar  uma música em espanhol. Alguma coisa da Celine Dion, pensei. Ia ficar diva demais. Foi então que eu, alegrinha, propus a idéia pra essa professora, antes mesmo de falar com a Nanda a respeito (my bad, eu empolgo às vezes). Para minha surpresa, e horror, a professora começou  praticamente a gritar comigo. Parecia que ela estava botando pra fora um rancor que já durava uns três meses (o tempo que eu estava por ali, diga-se de passagem). Ela tinha muita coisa entalada na garganta. Muita coisa preconceituosa.

De tudo que ela disse, eu só consigo me lembrar com exatidão do sentido de uma parte da bronca: “Aquele rapaz se chama Fernando, F-E-R-N-A-N-D-O, e eu acho um absurdo quem não o chama assim. Na identidade dele tá assim e eu não vou compactuar com essa pouca vergonha. Eu faço chamada todos os dias e o chamo pelo nome que ele tem, por aquilo que ele é: um homem. Sem-vergonha, com problemas mentais, o que seja: aquilo ali NÃO é mulher”.

Eu sentei no banco (estávamos no pátio porque como eu disse, eu não frequentava a sala de professores), em choque. Ela, sem ter mais o que dizer, retirou-se do local pisando alto. Era muito ódio, era muito preconceito, era muita transfobia. Olhei para os lados e, em meio a muitos alunos que iam e vinham, eu avistei a Nanda. Ela veio correndo ao meu encontro. Eu não queria falar exatamente o que ocorrera, então tentei buscar indiretamente uma resposta. Pelo que a Nanda me disse, eu era praticamente a única a chamá-la pelo nome devido. Aquilo foi devastador pra mim. Percebendo o meu estarrecimento, Nanda mudou de assunto.

Com o ocorrido na cabeça, eu tentei uma aproximação com xs demais professores da instituição. Cheguei em alguns e falei que talvez fosse o caso de termos uma reunião pra explicar que a Nanda precisava ser chamada pelo nome correto. O que eu ouvi foi desalentador: entendemos o seu ponto de vista. Porém, se o Fernando realmente estiver preocupado, ele que tente fazer outra identidade. Aliás, ele nunca reclamou disso. Seria mais um desconforto seu, não?

Baita mundo injusto. Será que tais professores não entendiam que, numa dinâmica de poder e hierarquia tal como é a sala de aula, umx alunx levantar a voz para reivindicar direitos poderia significar o fim de sua vida acadêmica? Qual alunx em sã consciência, num lugar tradicional daquele, poria em risco o seu futuro dessa forma? Qual alunx peitaria toda uma construção ideológica a fim de ser respeitadx pra, no fim, acabar perseguidx? Se existem alunxs assim, certamente não era o caso da Nanda. E eu jamais a culparei por isso.

Porque acabou também não sendo o meu caso. Eu, que na época não me declarava feminista e não tinha idéia do que seria o cissexismo , deixei pra lá. Perguntei se aquilo a incomodava, se a atingia e ela me disse incomoda, né teacher, mas isso não vai tirar de mim a condição de mulher. Falem o que quiserem, eu vou é começar o meu tratamento hormonal o mais rápido possível para ter seios lindos. Quem sabe um dia, operar. A cabeça fechada dessas pessoas não vai me impedir. 

O ano passou, eu acabei indo dar aulas numa outra cidade, perdendo assim o contato que tinha com a Nanda. Ficamos conversando online por um tempo e realmente o preconceito das pessoas não a impediu de seguir sendo uma mulher. Entretanto, aquele episódio nunca me fará esquecer 1. quão ignorante eu era; 2. que eu não devia ter deixado isso pra lá.

Sabe quando alguém te fala alguma coisa e você não tem resposta e depois de um tempo você encontra todas as respostas e se sente um lixo por não ter rebatido à altura em tempo? É exatamente assim que eu me sinto quando me lembro de cada episódio machista, sexista, misoginista, cissexista, elitista, especista e racista que eu já passei em minha vida. Entretanto, assim como a Nanda, isso tudo não vai me impedir de viver o presente e tentar fazer alguma coisa para desconstruir os preconceitos que as pessoas carregam em si. Assim como não vai me impedir de continuar, sempre, a confrontar meus próprios preconceitos.

Eu estou contando essa história principalmente por um motivo: tenho visto feministas às turras com representantes do transfeminismo por conta de uma suposta confusão que o termo cissexismo geraria nas pessoas. Amgs, acreditem: quando um grupo oprimido chega a criar um termo para problematizar o opressor, é porque a coisa chegou a níveis críticos. Digo crítico tanto com relação a difícil como com respeito à criticidade, mesmo. Essas pessoas não só têm o direito de questionar as nossas posturas, como também são as mais indicadas para tal.

Afinal, quantas Nandas há por aí nesse mundo, sem ter o direito de serem chamadas pelo nome que melhor se adequa às suas condições? Sem ter o direito de usar o banheiro público que melhor lhes convém, sem ter direito a inclusive dividirem celas com pessoas do mesmo gênero que elxs?  O que dizer do caso da Cece Macdonald? Não tá claro que tudo isso é cissexismo? Será difícil entender que o termo não veio para confundir, e sim agregar? E que, infelizmente, esse termo não precisaria existir se nós não cruzássemos os braços e encarássemos as pessoas trans como uma exceção pitoresca a regras injustas? Até quando vai isso tudo?

E não, eu não escrevi sobre isso antes porque me dói muito lembrar dessa história. E o nome Fernanda é, obviamente, uma modificação para preservar-lhe a identidade.   

Leia mais sobre o transfeminismo aqui e sobre a necessidade de um feminismo sem cissexismo aqui.