Já faz um tempo que a bancada fundamentalista, suas ações e investidas políticas para aumentar seu número me preocupa. Minha preocupação intensificou quando o Pastor Marco Feliciano assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Afinal, a comissão que deveria garantir os direitos de grupos vulneráveis como homossexuais e pessoas transexuais passou a ser liderada por uma figura que luta contra os direitos humanos dessas pessoas e fiquei ainda mais tensa quando houve uns boatos de que ele pretendia se candidatar à presidência. Mas nesse momento, o medo das eleições de 2014 acabou de atingir níveis alarmantes: Uma propaganda do PSC, de quase dez minutos, acabou de passar num dos horários mais assistidos na emissora Globo. Em toda a propaganda se vê aquele papinho de valorização da família, aquele papo que dá pra ver claramente que fazem uso dos ideais de uma certa religião para basear toda a ideologia do partido e que isso serve de desculpa para atentar contra os direitos humanos.
Dá para perceber claramente que a intenção do partido é aumentar seu número na Câmara Federal, nas assembleias estaduais e no poder executivo. E a gente sabe muito bem que a motivação para que esse número aumente é porque com mais gente há mais chance de barrar qualquer projeto de lei, política pública ou qualquer coisa do tipo que vise a garantia de direitos para grupos vulneráveis. A propaganda do partido ser tão longa, tão bem produzida e o fato de que já começou a ser divulgada como quem não quer nada deixa claro que o poder/dinheiro que eles tem disponíveis é enorme e eles usarão todos os recursos possíveis.
Só o fato de existir um partido que afirma que seus ideias se sustentam nos dogmas de uma religião num Estado Democrático de Direito e ele ter tanto poder/dinheiro para conseguir quase 10 minutos de propaganda política antes do Jornal Nacional já dá para a gente questionar bastante questões como a laicidade do Estado e a própria democracia. Principalmente quando esse partido luta justamente contra qualquer mudança que inclua garantir direitos e proteção de discriminações à comunidade lgbt*, luta contra os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres cis e demais pessoas que tem útero e que faz uso de um discurso religioso para ganhar poder e justificar discriminações.
O discurso do Feliciano não é único. Ele está no PSC, está em outros políticos, está na sociedade num todo. E a gente tem que combatê-lo, porque eu realmente não quero viver num país que é completamente dominado por pessoas machistas, misóginas, racistas, que discriminam quem tem a orientação sexual diferente da hétero, que discrimina e impede que pessoas trans tenham o mínimo de dignidade e há muita gente usando muitos recursos financeiros e de poder para garantir que o fundamentalismo seja uma voz quase única em todas as esferas de poder. Eu não quero viver numa teocracia.
Esse status foi postado originalmente no meu perfil do facebook, mas como houve pedidos para que o texto fosse postado aqui também, postei.
"Afinal, quem o Marco Feliciano representa?" - texto do Ativismo de Sofá
Em uma sociedade que a sexualidade feminina é colocada sempre como acessória da masculina, em mais uma afirmação da heteronormatividade vigente e também do machismo, é de se esperar que mulheres que amam/desejam/se sentem atraídas por mulheres sejam vistas como aberrações.
O fato dessas mulheres não se sentirem atraídas por homens ou apenas por homens, as coloca como indesejáveis dentro do patriarcado. A sexualidade feminina ser colocada como algo que só existe para agradar homens se desdobra em dois fenômenos muito conhecidos pelas bissexuais e lésbicas que é a transformação da sexualidade delas num fetiche para homens héteros e a negação da sexualidade delas como existentes. Como, dentro do patriarcado, a mulher não é vista como sujeita de si e nem de sua sexualidade, ao fetichizar as relações entre mulheres, coloca-se o desejo que existe entre elas como algo inexistente, como se elas estivessem relacionando entre si apenas para agradar a sexualidade masculina. Numa mesma tacada invisibiliza-se lésbicas e as bissexuais e coloca como inexistente o desejo entre mulheres ao reduzir a sexualidade delas ao fetiche masculino.
Marcha das Vadias de Curitiba
"Sou uma mulher bissexual e só passei a reconhecer minha sexualidade dessa forma com o feminismo, porque deixei de encarar o "gostar de mulher" como algo anormal e perceber o meu desejo como parte de quem eu sou. Há algum tempo atrás, estava entre algumas amigas e comentei sobre minha sexualidade e elas a desqualificaram. Foi dito, entre várias coisas absurdas, que eu não era bissexual porque eu namoro um homem e que minhas experiências com mulheres eram apenas uma fase. E não foi só isso: começaram a me interrogar sobre quantas mulheres eu já tinha ficado e quem eram elas, como se houvesse uma quantidade certa de mulheres pra eu poder me reconhecer como bissexual, porque elas só sabiam de uma das minhas vivências. Não tenho palavras pra definir o quanto me senti mal, porque além de duvidarem da minha voz e autonomia pra afirmar "sou bissexual", o interrogatório que fizeram foi num tom tão inquisidor, num tom de que duvidavam das minhas experiências e por isso queriam saber nomes. Isso me revoltou não só como mulher bissexual, mas também como "amiga". Percebi que a bifobia é presente até mesmo em grupos de pessoas que se consideram progressistas, porque o tempo todo a minha bissexualidade foi ligada ao fato de eu estar solteira, como se fosse uma fase de carência e rebeldia. Foi colocado até que provavelmente eu ficava com mulheres pra "chamar atenção". O que me surpreende é quando beijei uma mulher pela primeira vez, contei para minha mãe que eu era bissexual e ela aceitou tranquilamente e a mesma afirmação num grupo de amigas distantes nos levou para uma polêmica desrespeitosa. Vejo que a minha afirmação de que eu também gostava de mulheres incomodou tanto justamente pelo fato de atualmente eu namorar um homem. Parecia impossível para essas pessoas que mesmo num relacionamento hétero e monogâmico eu continuasse a afirmar que eu também gostava de mulher. Percebi que por mais que todas ali soubessem das minhas experiências com mulheres, isso não importava, porque elas consideravam o relacionamento com um homem como uma espécie de cura, uma prova de que "a fase passou"." - Patrícia*, nome fictício.
O relato acima mostra um dos aspectos da bifobia que é a tentativa frequente de afirmar que a bissexualidade é só uma fase. No caso das mulheres bissexuais, isso se desdobra em falas como "você se relacionava com mulheres para chamar atenção", no caso, a ideia presente nessa frase é de que aquelas relações só aconteciam com finalidade de atrair a atenção masculina, justamente por causa da fetichização da relações entre mulheres.
"Eu sempre fui reservada. Associei por anos a vida afetiva e sexual ao privado, não gosto de me expor, não gosto de chamar atenção. Simplesmente é meu modo de conduzir minha vida. Então, essa ausência de companhia me alocou sempre em categorias. Ou eu era a amiga feia encalhada, ou a garota cubo de gelo, ou a estudiosa sem tempo, ou a promíscua velada, ou a sapatão, ou a má influência para as amigas comprometidas. Tantos rótulos. O que eu demorei a notar é que o pior dos rótulos era meu. Eu tinha medo de demonstrar publicamente qualquer modo de afeto por preconceito contra quem eu sou. E eu sou bisexual. Minha introversão tinha a função de blindar meus sentimentos. Não queria ser apontada como a indecisa, ou aquela que tem medo de enfrentar a sua sexualidade e, por segurança permanece em cima do muro. Sim, eu gosto de meninas. Sim, eu gosto de meninos. E não vejo o motivo pelo qual essa minha flexibilidade de gostar de pessoas incomodar outras pessoas. Num domingo desses, enquanto eu cozinhava com minha mãe, ela fez um comentário sobre o posicionamento de um primo meu. Ele deixou de usar a expressão "amigo" para convidar familiares para o casamento com seu "companheiro". No comentário ela falava em coragem. Não como algo valente, como orgulho, foi com o toque de que finalmente ele havia saído do armário. Foi com esse tom que eu senti que não poderia me manter silente. E falei que eu gosto de meninas. Também. Bem assim, que eu somo afetos, que eu não excluo gêneros. A reação dela foi de choque seguido de imediato questionamento "você pratica isso?". A cara de nojo que ela fez me reduziu a uma afrontadora. Que eu poderia ser quem eu sou, escondido, sem que ela saiba de qualquer detalhe que lhe cause ojeriza. Desde então não falamos sobre, mas a cada saída minha, quando eu durmo fora, ela procura reforçar que não confia em mim, nas pessoas com as quais eu me relaciono e meus amigos. Ela reverteu isso tudo para um ataque pessoal. A filha rebelde que não nasceu para dar a ela os netos desejados. A filha dela que não nasceu para casar no altar vestida de branco. A filha dela que a envergonharia caso aparecesse com uma outra moça.Parece que é impossível para ela aceitar que a filha que a ama, e que espera pelo amor de volta, possa também amar outras mulheres. Que essas duas formas de amor não podem coexistir em mim." - Bárbara*, nome fictício.
Mais um relato e mais uma faceta de como age a discriminação. O caso acima relatado expõe como qualquer orientação sexual diversa da hétero é vista em nossa sociedade, como uma mancha na honra da família, uma vergonha. É comum ouvir pessoas falando que até aceitam pessoas não héteros, desde que elas vivam sua sexualidade só entre quatro paredes e afins. A frase tem a intenção de passar uma ideia de aceitação do outro, mas na verdade só passa a mensagem de que a sexualidade não hétero deve ser escondida, pode até existir, desde que não seja exposta, desde que os envolvidos não andem de mãos dadas na rua, beijem em público, se definam como companheirxs.
"São Paulo, Praça Roosevelt, 21 de junho de 2013. Estava com um grupo de pessoas próximas que protestavam contra o projeto de lei que propunha a autorização da Cura Gay por psicólogos. Vi a alegria das pessoas se esvaziar em minutos. Nossos celulares alertavam de um perigo: supostamente um grupo de neo nazistas estava se dirigindo ao ato para causar confusão. A comoção, ao menos no grupo que eu compunha, foi geral. Eu vi amiga chorando. Eu vi pessoas criando estratégias para não sofrer qualquer tipo de violência física. Conversas e gargalhadas, que estavam prometidas para o pós ato, foram trocadas por um esquema de abandonar o local em grandes blocos. Tentando não transparecer nessa atitude nossos medos e nossa orientação sexual.Um ato que era para celebrar nossa diversidade, demonstrar o absurdo que é a tentativa de cura para pessoas que só sofrem pelo preconceito alheio. Um ato derrotado pelo medo. Até quando teremos que ocultar nossa existência em prol do preconceito alheio? Não quero mais sentir medo." - outro relato de Bárbara*, nome fictício.
O medo também ronda a realidade das mulheres que se relacionam com mulheres. Ele existe em casa, na hora de dizer para a família sua sexualidade, no medo dos pais descobrirem e ser expulsa de casa. Existe na rua, na hora de voltar para casa, na hora de sair com a companheira. Existe dentro de estabelecimentos, quando todo mundo ao seu redor pode se beijar, dar as mãos e se você o faz recebe olhares tortos de muitos e às vezes até "convites" para se retirar do lugar. Existe quando dizem "você precisa de um homem pra te consertar", como se a orientação sexual que difere da hétero fosse algo a ser consertado e curado, e ainda usando uma frase que é um dos pensamentos base do estupro corretivo.
O medo existe, mas a luta continua e é necessário dar a ela visibilidade para fortalecê-la. Cada relato é uma forma de expor as nossas vivências, denunciar as discriminações sofridas e argumentar contra a lesbofobia, bifobia, homofobia e transfobia. Relatos são uma forma de quebrar a invisibilidade que cerca as relações entre mulheres, é dizer que não concorda com Felicianos e Malafaias da vida.
Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.
Eu não sou monogâmica. Gosto de me definir como RLi, ou seja, uma pessoa que tem por objetivo as Relações Livres, fora do esquema tradicional patriarcal e monogâmico. Acreditamos que não há um número limite de pessoas com quem podemos nos relacionar sexual e afetivamente, que não temos o direito de controlar o corpo do próximo, bem como ele não tem direito de controlar o nosso.
Mas esse não é para ser um texto didático. Não tenho a intenção de explicar o conceito de Relações Livres, seus princípios, como me envolvi com o assunto e tudo o mais (se vocês pedirem faço um texto só sobre isso depois), esse texto é mais um desabafo sobre coisas que a forma como a mononormatividade se manifesta nas pessoas. Assim como a heterossexualidade, a monogamia também é compulsória, portanto está enraizada nas pessoas a idéia de que as relações fechadas são mais “normais” que as outras e isso fica claro em determinadas atitudes. Atitudes chatas pra caralho.
Em meio a uma discussão sobre a atitude do casal Zilu e Zezé (sim gente, tem gente querendo ver se é mesmo legítima a decisão de abrir o casamento dos dois ou não, porque né, todos tem muito a ver com isso) li um “eu não acredito em relacionamentos abertos”. Espera. Para. Sinto informar, mas as relações abertas não são como deuses ou aliens, que você pode escolher acreditar ou não. Elas existem, você querendo ou não. Vai lá falar para gente que está junta há mais de 15 anos que não acredita na relação deles. Dizer isso é algo extremamente reacionário que acha que a sua maneira de sentir e viver é a correta e todos os outros “não encontraram a pessoa certa ainda”.
A mononormatividade fica muito clara com a insistência das pessoas em se reafirmarem monogâmicas. Qualquer situação que não condiz com a escolha delas precisa entrar em desacordo, precisa ser negada de alguma forma, mesmo que de maneira inconsciente, mesmo que sem a intenção de ofender.
Por exemplo, eu tenho um ask.fm, sabem? Aquela rede social na qual as pessoas te mandam perguntinhas? E aí um dia esclarecendo algumas questões sobre RLi para um pessoal interessado, apareceu isso na minha página. Alguém, por algum motivo, não suportava me ver falando nas Relações Livres sem deixar claro que achava aquilo errado. Por que?
Outra vez comentando sobre as fotos de uma orgia que acabaram vazando na internet, eu e umas amigas dizíamos sobre como eram bonitas. A expressão das fotos passava uma sensação muito boa, de amizade, sabe? Todos ali pareciam muito a vontade com a situação, tinham uma cara de alegria, prazer e liberdade. Era muito encantador olhar. Mas algumas pessoas tiveram que dizer “ah, mas eu nunca faria” ou “ah para mim não rola, sou careta”. Para que?
Agora imagine só: Se em cada foto de casal que eu visse, eu resolvesse comentar “olha, muito legal, mas para mim não rola RISOS”, se toda vez que alguém falasse de amor, fidelidade, ou atualizasse o status do facebook para casado eu fosse lá e escrevesse “hum felicidade aí, mas eu nunca faria, não acredito nesse tipo de relação, flwssss”.
Parece tão difícil admirar a felicidade alheia se ela não se encaixa no seu ideal, não é? É como se ela de alguma forma te ameaçasse. Eu sei pessoal, que sendo criados nessa sociedade que já nos apresenta um ideal de casamento desde a infância é difícil aceitar outro tipo de relação de forma natural. Mas bem, elas estão aí, são normais e não tem a intenção de “corromper” o seu estilo de vida.
Tanto é que apontar a normatividade já soa como uma forma de ofensa a algumas pessoas. Elas se sentem caladas, embora na realidade sua voz é que esteja sendo castradora aos que não se enquadram na norma tomada como correta. É sempre bom pensar se essa visão não está encrustada em você antes de responder a pergunta "mas o relacionamento de vocês é fechado?" com "sim, tudo certinho".
Pessoas, relações e sexualidade não seguem um livrinho de regras. Get over it.
Aviso: Esse texto não tem de forma alguma a intenção de fazer qualquer tipo de julgamento, determinar a necessidade de uma preocupação específica ou desmerecer quem não a prioriza. O objetivo é exclusivamente destrinchar e compreender a participação da misoginia na formação do conceito de futilidade que temos hoje.
Quem tem essa mania de se enfiar em qualquer discussão do facebook às mesas de bar percebe facilmente uma crítica constante nas rodas de intelectuais, cults ou seja lá como a gente (se) chama: A aversão do culto ao corpo.
Usei essa expressão por ser deliberadamente a mais usada, mas na real, muito me incomoda o uso da palavra “culto”, pois não é exatamente disso que se trata. Essa crítica não se foca apenas na idolatria e nos possíveis males causados por uma visão unilateral (pelo contrário, ela por si só é uma visão unilateral), mas abrange todo o conceito de futilidade. Bem explicadinho é assim: Acredita-se que questões como a moda, estética e preocupação visual em geral, são vazias e vão na contramão do que seriam as verdadeiras preocupações sociais. Gostar e dedicar-se a tais assuntos seriam praticamente um atestado de falta de inteligência.
Esse conceito de futilidade está disseminado a tanto tempo que nos parece plenamente natural, é uma verdade bem pouco questionada. Entretanto quando voltamos historicamente podemos perceber associações entre a argumentação moderna que sustenta essa afirmação e os dogmas medievais, o que elucida sua origem.
Embora tal conceito possa ser considerado de origem filosófica, precisamos considerar a ligação entre filosofia e igreja, um não está completamente emancipado do outro, especialmente se tratando da Idade Média. E foi nela mesma, a Era das Trevas, que se fixou a depreciação da preocupação estética.
A imagem do homem sábio está ligada a uma aparência desprovida de vaidade. A filosofia passa a dizer que o homem que deseja conquistar o mundo da sabedoria necessariamente se desprende da futilidade terrena que é visual. Essa mesma vaidade criticada aqui é condenada pela bíblia, apenas a nível de exemplo, em Levítico está escrito “Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba.” (19:27). Percebem como a aparência do homem sábio e a do homem de deus são próximas?
Sendo assim, a estética e a sabedoria são colocadas de uma maneira maniqueísta, são opostas. Enquanto a racionalidade é primordial, a estética é secundária. Junte a isso o fato de que a vaidade - e a estética em geral - vem sendo associada as mulheres desde uma historinha que não sei se vocês conhecem, na qual uma mulher é retirada, formada a partir da costela de um homem. Simbolicamente nessa versão da criação a mulher já vem como um pedaço, ou seja, sua essência é secundária, ela já é o próprio adorno.
Nesse contexto o conhecimento, a razão e a filosofia são colocados como contrários e superiores a toda característica que está ligada ao conceito de mulher. A partir daí foi instituído o medo e a demonização do corpo, das formas e da vaidade.
Resumidamente, a futilidade, que foi conceituada com base em toda a construção bíblica do feminino passou a ser condenada socialmente. E é esse o vestígio que vemos até hoje em uma sociedade intelectualmente moralista que carrega consigo essa visão contraditória da sabedoria e da vaidade.
Para as mulheres restaram as piadas de loira burra. A loira, no caso, é apenas um exemplo do que seria bonito (o que explicita o padrão de beleza europeu vigente) e, consequentemente, fútil. Para os homens restou o diagnóstico de metrossexual caso manifestem preocupação estética afinal, como homens, suas mentes deveriam estar exclusivamente voltadas para o campo da razão.
E ainda acredita-se que neste campo da razão conhecimentos como moda e arte não são válidos, ou são menores do que os outros. Por terem essência estética são secundários e consequentemente ligados ao conceito bíblico de feminino e ao conceito medieval de futilidade.
Esses (pré)conceitos pautados na moral cristã se manifestam socialmente até hoje e são fortes motivos para julgamento. Além disso, se um campo do conhecimento é válido e o outro não, fica claro para qual “devemos” seguir para ter qualquer tipo de reconhecimento. Essa hierarquização é machista e extremamente castradora que não nos permite dar a devida atenção a nossa própria sabedoria e a direção na qual ela nos leva.
Como se precisássemos necessariamente escolher entre dois campos opostos: Corpos e artes ou razão e filosofia. Não precisamos. Não somos essa visão misógina, sólida e chapada dos seres humanos. Nosso conhecimento merece ser valorizado por si, pela atenção que nós damos a ele, pelo nosso desejo. Não pelo julgamento (ainda tão Velho Testamento) alheio.
"Eu estava grávida. E aí meu mundo caiu. Me escorei em um prédio e me agachei no chão de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Chorando em soluços desesperadamente. Ali senti minha vida acabar, pensei em todo o horror que uma gravidez inesperada representa, pensei em todos os meus sonhos sendo destruídos, na minha vida sendo esmagada. Tudo o que eu era foi quebrado de repente com o resultado de um exame." (Paula Mariá, no texto "O terrorismo da gravidez") É dessa forma que a Paula Mariá descreve o momento em que abriu o exame de Bhcg e descobriu-se diante de uma gravidez inesperada. Antes de mais nada, das quatro características do título, posso dizer apenas que sou mulher. Estou a poucos passos de adentrar os 30 anos, uma idade fatídica para uma mulher em nossa sociedade, a idade que dizem fazer tocar o tal do relógio biológico (essa babaquice). Passei incólume pela adolescência e pelos 20 anos sem engravidar e tenho um relacionamento bem estável na minha vida, embora não seja casada. Por isso, desde já eu peço desculpas por escrever sobre algo que não é minha alçada, mas me sensibiliza demais: O terrorismo, os julgamentos, a infantilização da mulher jovem, grávida e solteira. É muito possível que boa parte de vocês, leitores, tenha passado/esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteve nessas condições, pode ser alguém na família, uma amiga, uma conhecida. Porque por mais que as pessoas gostem de pensar que família é aquela coisa engessada: pai, mãe, irmãs, irmãos, a coisa nunca foi exatamente assim. Sempre existiram famílias que não se enquadram na tradicionalidade desse modelo. As famílias estão cada vez mais diversificadas e o modelo monoparental é muito comum, especialmente nas classes menos abastadas. Então porque estamos sempre tecendo julgamentos sobre uma família que é formada por uma jovem sem marido? Eu mesma já me peguei em pensamentos como: "coitada, tão nova, tanta coisa para viver antes de ter um filho..." e como eu me arrependo de já ter pensado dessa forma um dia.
Então vamos por partes, um adjetivo de cada vez: mulher, jovem, grávida e solteira.
A mulher que está aí nesse mundão patriarcal de meldels ainda está escrevendo uma história de luta por igualdade e isso não é novidade para ninguém. Esse blog está recheado de textos sobre a questão do preconceito de gênero, da violência, enfim, dos inúmeros desafios que a condição de se identificar como mulher significa. E desconfio que todos os outros adjetivos do título signifiquem em nossa sociedade uma condição desqualificadora, principalmente, porque designam a situação de uma mulher.
Juno, um filme sobre
gravidez na adolescência
Ser jovem acrescenta à condição de ser mulher uma característica: A inexperiência. Para muitas pessoas inexperiência é sinônimo de incompetência ou imprudência, e não é bem assim... Atribui-se à juventude a capacidade de quebrar regras, destruir tabus, contudo também vemos por aí uma juventude que "decidiu esperar", que reforça algumas regras. Então, essa característica não é plena, não é universal. Acho que o que deveríamos realmente esperar da juventude é que ela seja livre para fazer escolhas. É muito importante compreender que a adolescência e, porque não dizer, o começo da vida adulta é um período um tanto confuso em que ainda estamos tentando nos entender. E talvez ninguém falará melhor sobre esse assunto do que uma pessoa jovem. Por isso recomendo muito o vídeo da Tavi Gevinson para o TEDTeen, que não fala de gravidez, mas de juventude (é preciso habilitar as legendas que infelizmente estão disponíveis apenas em inglês).
Eu não entendo como temos simultaneamente visões tão opostas da juventude, por um lado, acreditamos piamente que eles são o futuro, que eles são os detentores da mudança. E por outro, estamos sempre falando que eles são estúpidos, incapazes, imprudentes. Porque só reconhecemos os dois signos, os extremos, jamais observando o que está no meio.
As duas últimas características, grávida e solteira, são melhor entendidas juntas, já que são vistas de forma antagônica. Isso porque a gravidez é celebrada, desde que dentro de um casamento. É assim que a nossa sociedade gosta de definir a felicidade para uma mulher: Através do casamento e da maternidade subsequente. Se a mulher engravida mas recusa o casamento, ela não pode ser feliz. Ou até pior, se ela engravida e está solteira ela não apenas é uma pessoa infeliz, como é uma vadia (mulher que faz sexo: esse tabu!).
Está todo mundo aí botando na cabeça das mulheres que elas nasceram para o propósito da maternidade, mas se ela for muito jovem, ou não estiver casada, não será capaz de criar o próprio filho, de prover todas as necessidades afetivas e financeiras que uma criança demanda e tampouco será capaz de viver a sua própria vida. Como se a partir do momento em que se descobre grávida, a mulher fosse obrigada a deixar toda a sua identidade de lado, para ser apenas mãe. Essa visão chapada da mulher esconde que, dentro dela, existe lugar para uma pessoa multifacetada, complexa e até contraditória. Não por ser mulher, mas por ser uma pessoa. Pessoas são assim, são mais do que uma única característica a ser reforçada. O que não se fala em alto e bom som, é que a mulher solteira tem um significado que deve arrepiar até os pentelhos de uma sociedade machista como a nossa: Ela não depende de um homem. Antes que alguém grite "pensão", aviso logo que não estou falando meramente da questão financeira. Me refiro à sua independência de forma mais ampla, da sua capacidade de gerenciar uma família, de criar os filhos e principalmente de continuar vivendo.
Slut-shaming e culpar a mãe:
Duas formas de expressar machismo
Apesar disso, a mulher que passa pela gravidez nessas condições sofre todo tipo de julgamento, a maioria das mães solteiras são questionadas e cobradas de muitas maneiras, especialmente no tocante à paternidade da criança, o tal do "quem é o pai?","vocês vão morar juntos?" ou "vocês pretendem se casar?". Até tem pessoas que perguntam isso na melhor da intenções, no sentido de "o que ele está fazendo para te ajudar a criar o seu filho?". Mas de forma bem geral (óbvio que existirão casos diferentes), parece que existe a cobrança por uma família tradicional ("Toda criança precisa de um pai!"). Se a mulher está solteira, existe um motivo, ou ela quer estar solteira e não cabe cobrar a presença do pai, ou ela não quer, mas foi abandonada, e nesse caso a pergunta se torna bem dolorosa. Ademais, duvido que exista a cobrança do outro lado, que exista sempre alguém buzinando no ouvido do pai da criança para ele assumir suas responsabilidades, ou olhando torto porque ele tem um filho e não é casado. Não parece haver simetria nessa relação, como normalmente não há quando o assunto é o que a nossa sociedade espera de um homem e o que espera de uma mulher.
Não pára por aí! Os ataques à mulher podem ser muito mais agressivos. Existem aquelas pessoas que suspeitam das intenções da mulher, chamando-a de interesseira ("só quer a pensão" e "golpe da barriga"), pessoas que tentam puní-la por engravidar ("Na hora de fazer foi bom, agora não reclama"), e ainda outras que a condenam por sua vida sexual pregressa, ou simplesmente por ter uma vida sexual ("dava para todo mundo" ou "De santinha só tinha a cara") e etc.
Entretanto, talvez a mais dura de todas as críticas venha da família: "Envergonhou a família". Ouvir esse tipo de agressão de quem mais se ama dói profundamente. Me emociona demais pensar nas muitas moças que são expulsas de casa por uma família que preza pela tradição. E são muitas mesmo. Eu me pergunto porque alguns pais jogam sobre a filha as suas frustrações de tal maneira, que se uma coisa sai diferente do que eles imaginaram para sua vida, ela não merece mais viver debaixo do mesmo teto que eles, tampouco ser chamada de filha. Não consigo chegar numa resposta. O que há de tão horrível em entender que aquela não é a vida deles? E nesse momento de rejeição o que já é suficientemente confuso e desconcertante até numa família que dá apoio, se torna um monstro engolindo os sonhos, as pessoas amadas, o futuro, tudo.
Uma gravidez não estraga uma vida, ela só a transforma, muda a sua direção. A vida me parece ser mais do que um ideal de felicidade que te entregaram pronto e embalado para consumo. As coisas seriam muito melhores para a mulher jovem, grávida e solteira se pudéssemos olhar para ela sem achar que por ser mulher, ela é frágil, que por ser jovem, ela é imatura ou incompetente, que por estar grávida, ela é burra ou piranha, e que por ser solteira, ela é infeliz. Talvez isso impedisse que tantas mulheres se sentissem diante de um abismo, do fim da sua vida, no momento em que recebem a notícia de uma gravidez inesperada. Antes de repetir esses julgamentos deveríamos pensar que tudo o que dizemos individualmente, ou coletivamente, e que à cada imagem fazendo troça da mulher que engravidou sem planejamento, geramos o sentimento de culpa, desespero, medo e aflição. Estamos constantemente abalando sua autoestima a cada vez que reforçamos esses estereótipos, a cada mulher para quem dizemos (ou mesmo pensamos): "Que pena, tão novinha..."
Eu é que não vou mentir, curto a novela Avenida Brasil. A Zona Sul do Rio de Janeiro tirou férias do horário nobre, a bola da vez é a Zona Norte. Lá fica o fictício bairro "Divino" que é muito mais interessante. Os personagens da novela refletem a ascensão das classes sociais no Brasil. De forma totalmente realista? Não. Quando eu digo que "reflete", quero dizer que o telespectador começa a querer se sentir representado. Quando o Manoel Carlos colocava uma Helena branca e rica na tela da TV, indiretamente o que se pode compreender é que apenas ricos escrevem a história, o dinheiro é o que torna possível ser agente do seu próprio destino, os pobres seguem conforme a maré, sendo, na maioria das vezes o núcleo engraçado da novela.
Vilã e mocinha são
pessoas cheias de defeitos
Ainda que Avenida Brasil continue tendo protagonistas ricos, integram o grupo denominado "novo rico", que um dia foi pobre, e agora possui grana e disposição para gastar, mas sem o refinamento típico dos personagens do Manoel Carlos. Os personagens são moradores do Divino, jogadores de futebol, a mocinha é a (rica) empregada doméstica. E num arroubo dramático, a mãe adotiva da personagem principal mora no lixão. E ninguém é perfeito, todos tem pequenos deslizes morais em sua história, incluindo a mocinha sofredora e vingativa. Dentro desse contexto, cada personagem dá um texto, quiçá uma tese. Hoje, entretanto, vou focar em dois personagens que conquistaram o carinho do público. A piriguete Suellen e o gay Roni.
Vejamos o que diz o site da novela sobre Suelen:
"Musa mau-caráter do Divino. Trabalha na loja de Diógenes, mas vive faltando ao serviço para ficar assediando os jogadores de futebol. Maria-chuteira clássica, sua meta é se casar com um craque e se mudar para o exterior. Esconde um passado misterioso."
Se quem deu esse resumo ao site foi o autor, nem ele deve compreender o monstro que criou. Quando digo monstro, não falo de forma pejorativa, me refiro ao tamanho e densidade que a personagem hoje possui. Suelen é demais. Os mais apressados dirão que Suelen é uma mulher sem caráter, que não se dá ao respeito. Pois bem, se você pensa dessa forma, amigo, volte para os anos 50. "Se dê ao respeito" é uma das coisas mais machistas constantemente repetidas nos ouvidos das mulheres, pois significa "comporte-se". Pedir que uma mulher se dê ao respeito é o mesmo que dizer que ela abra mão da sua liberdade sexual, pela qual tantas mulheres lutaram. E Suelen é a liberdade sexual personificada, por isso incomoda. Ela deu pra todo mundo porque, quando e como quis. E também deixou de dar quando não quis.
Outros ainda chamarão Suellen de interesseira, de mulher que não sabe amar (como a própria atriz Isis Valverde falou para o Faustão no programa do dia 08/07). Mas a Suellen é mais, muito mais do que isso. O "passado misterioso" a que se refere a descrição de Suelen é que ela já foi garota de programa e o seu ex-cafetão é obviamente um explorador, que já chegou a ameaçá-la e a bater nela em alguns episódios. Suelen é interesseira? Sim. Mas o que dizer dos homens que desejam dela apenas o corpo, um momento de diversão, que a objetificam, a usaram, humilharam e até bateram nela? Ninguém está por aí falando mal dos caras com quem ela fez sexo na novela. À piriguete couberam todos os julgamentos morais, por ser mulher, por ser ex-prostituta, por gostar de sexo, por não se envolver e por gostar mais de dinheiro que de homem (e olha que ela gosta muito de homem!). Entre uma cena e outra, ela diz "Já passei por muita coisa dura nessa vida. Mas nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal a ninguém. Só a mim mesma".A conduta sexual da Suelen não é atestado de seu caráter. Suelen é interesseira, mas no quesito dinheiro é sincera. Fala claramente para quem quiser ouvir que está interessada principalmente (e não apenas) no dinheiro. Acho que a cena que melhor mostra as diversas facetas de Suelen e como ela possui valores morais é uma em que ela repreende Lúcio pela forma como trata a mãe. Você pode ver aqui.
Se Suelen é a mulher julgada por todos pela sua conduta sexual, Roni é julgado pela sua orientação sexual. Duas faces do machismo, duas vítimas do mesmo ódio. Roniquito é o filho querido de um pai machão e de uma mãe evangélica. Jogador de futebol, mesmo que esse não seja o grande sonho de sua vida (e sim de seu pai), Roni é craque. E não consegue fechar com um grande time por causa da homofobia. Nossa sociedade machista e homofóbica botou o futebol como o esporte que reflete a virilidade e todo um ideal de masculinidade. Tanto é que ainda tem muita gente por aí que repete igual vitrola quebrada que "mulher não entende de futebol" e nunca ouviu falar de Marta ou de Formiga.
Entendidos os personagens, vamos aos fatos que inspiraram esse texto: Suelen foi presa e seria deportada para a Bolívia, seu país de origem. E Roni quer muito entrar para um grande time de futebol. A mãe, evangélica, convence o filho a pedir Suelen em casamento com a desculpa de que um casamento de fachada irá dissipar os rumores sobre a sua orientação sexual, mas na verdade o que ela realmente quer é "curar" o filho da doença que ela pensa existir. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
No princípio, eu comemorei o casamento de fachada de Suelen e Roni. Pois achei que essa era a forma dos dois de lutar contra a opressão que os acometia. Ele deixou claro que o casamento evitaria a deportação e que seria um relacionamento aberto e portanto ela poderia manter a sua liberdade sexual e ele poderia finalmente ser um jogador de um grande time. Eu imaginava que esse casamento não duraria muito porque é novela e todos os segredos são revelados no final e o segredo dos dois é grande demais para permanecer nas sombras. Um casamento de fachada vai contra o final feliz que normalmente é adotado pela globo, que quase sempre reafirma que a felicidade só pode vir da família tradicional, do casamento, dos filhos e da monogamia.
Porém, o meu maior temor é outro. A união da piriguete e do gay não é novidade numa novela do João Emanuel Carneiro. Em "a Favorita", Orlandinho casou-se com Maria do Céu. O resultado no passado foi uma ex-piriguete e um ex-gay. O tratamento dispensado aos gays e às piriguetes não é a liberdade de ser, de existir, de agir, de amar quem quiser. Em vez de admirar a beleza do ponto fora da curva, a tendência é a de voltar todo mundo para o seu lugar heteronormativo, machista e castrador.
Quem dera esses fossem os únicos exemplos de ex-gays em uma novela ou série da Globo. Recentemente também tivemos uma série toda em volta dessa temática: "Macho-man", onde o personagem principal sofre um pequeno acidente e SE TORNA heterossexual (Socorro, gente, não dou conta dessa série...).
Na novela Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco, teve o casal queridíssimo do público Cássio e Léa. Um gay jovem e uma mulher mais velha e heterossexual.
Beijo gay que é bom, cadê? LGBTs* não se relacionam seriamente com ninguém nas tramas da globo. Até existiram alguns exemplos, mas nunca vimos um só beijo. No máximo troca de olhares, insinuações. Ou mesmo amor sem carícias. Tudo fica implícito. Não são a piriguete e o gay que não sabem amar, é a Globo que não sabe diversificar. Mulheres piriguetes em geral acabam por se apaixonar por um homem para se redimir da sua conduta sexual pregressa. E gays em novela são em sua maioria tipos engraçados, pois só assim o homossexual é aceito, fazendo um papel risível, gerando situações cômicas. O drama de ser homossexual é invisibilizado (não vou nem falar de trans e lésbicas, que o buraco é muito mais embaixo e dá todo um outro texto). A Globo, como maior produtora de novelas da TV aberta, não pensa fora da caixa: até bota os holofotes sobre o personagem polêmico, mas tem feito aquilo que toda a bancada evangélica tenta fazer a tanto tempo: calar mulheres, exterminar/curar homossexuais.
A heteronormatividade da Globo me leva a crer que o futuro de Roni e Suelen está traçado, que haverá um casamento mais padrão do que eles esperam. Só me resta torcer para que minhas suspeitas sejam infundadas, que João Emanuel Carneiro continue demonstrando a sensibilidade com que tratou os dois personagens até aqui, sem fazer de Roni uma piada e nem de Suelen um estereótipo. Esperamos que o autor não faça de "Roni e Suelen" outro "Orlandinho e Maria do Céu" e eles possam ser simplesmente livres. Um gay e uma piriguete até o último episódio dessa novela, que até aqui tem sido tão boa.
Depois das
revelações da muito conhecida Xuxa, sobre ter sido abusada até os 13 anos de
idade, muita polêmica surgiu. A clássica culpabilização da vítima foi, claro,
um dos grandes focos. Mas houve também outros argumentos mais “alternativos”,
como o de que ela teria sido pedófila também, por conta do filme que fez com um
menino de 13 anos (sendo que na época ela tinha 16), ou aparecendo com roupas
curtas nos programas infantis (ah, essas vadias que ficam por aí exibindo seus
corpos). Mas principalmente houve quem questionasse a legitimidade do discurso
dela, afinal, foi um sensacionalismo tremendo e ela podia estar querendo ibope
(porque mulher sempre quer fama, né? Já repararam como ninguém fala que um
homem dando uma “declaração x” é por ibope?) e se foi falar, por que só agora?
Por que tantos anos depois? Ah, nesse mato tem cachorro!
Diante das
milhares de discussões das quais participamos nos últimos dias, ficou clara a
existência de um “manual do abusado” cujas regras todo mundo determina e as
utiliza como forma de julgar quem se declara vítima de uma determinada situação.
São basicamente normas que você, amiga que já teve seu corpo violado, precisa
saber e agir de acordo, caso o contrário o abuso que você sofreu não tem valor,
nem importância alguma, ok? Se você não seguir ao pé da letra, imediatamente
você deixa de ser vítima e passa a ser a culpada da história – afinal, você
está infringindo as leis do Manual do Abusado – portanto, não venha
choramingar.
Como
percebemos que ainda não há uma versão escrita desse manual, resolvemos
publicá-lo aqui para vocês, dessa forma tudo fica bem explicadinho e você não
corre o risco de sair cometendo gafe por aí, né? Aqui vai então o Manual da
Abusada, contendo as principais regras expostas pelos nossos queridos
questionadores da legitimidade do discurso de uma mulher estuprada:
Se você foi abusada, é proibido seguir a sua vida e ser feliz em qualquer instância.
É proibido também ser bem sucedida, especialmente de uma forma que te traga visibilidade midiática.
É estritamente proibido utilizar shorts e saias acima do joelho, blusas decotadas, justas, ou qualquer coisa que possa incitar tesão em um homem.
É proibido apresentar-se nua.
É absolutamente proibido usar essa nudez de forma lucrativa, tal como posar para uma revista masculina.
No mesmo tópico das duas últimas regras, é proibido gravar filmes com cenas de nudez.
Confira na distribuidora do Manual do Abuso mais próxima a você qual o prazo de validade para a sua denúncia, caso o contrário ele pode expirar e você acabar falando sobre o assunto muito tempo depois do que as outras pessoas acham apropriado.
Ao tocar no tema, lembre-se de estar em um ambiente privado e com a atenção do mínimo de pessoas possível.
Nunca, jamais, sob hipótese alguma faça sua denúncia em um meio de comunicação midiático, muito menos em horário nobre.
Ao falar sobre o abuso, é proibido chorar.
E, por fim, é proibido ser envolvida em outros contextos de abuso ao longo da sua vida.
Fique atenta ao Manual da Abusada, cara amiga que teve seu direito a decidir sobre próprio corpo brutalmente desrespeitado. O não cumprimento de suas regras leva a gravíssimas demonstrações de intolerância dos preconceituosos de plantão.
Ps. Para os que não conseguiram interpretar ou não estão familiarizados com a linha ideológica do blog, deixamos claro que o texto é inteiramente irônico. Toda o nosso apoio e solidariedade à Xuxa e às milhares de anônimas abusadas, silenciadas diariamente pelo grito do desmerecimento alheio.
Elizabeth Eckford, primeira negra a ter autorização de entrar numa universidade americana. (1957). Ela teve que ser protegida por uma escolta militar tamanha a revolta dos demais estudantes.
Quando eu estava no ensino médio, minha sala do terceirão era composta por aproximadamente 300 alunos (pois é!). Um dia, um professor de sociologia que eu admirava muito entrou na sala e perguntou “Quem aqui é a favor de cotas raciais?” ninguém ergueu a mão. Absolutamente ninguém.
Eu fui uma das pessoas que não ergueu a mão. Na hora da pergunta fiquei super em dúvida. Eu lembro de ter virado para meu colega e dito “não tenho uma opinião formada”. E não tinha mesmo, não tinha porque era totalmente ignorante no assunto. Tudo o que eu sabia é que era algo que contemplava o próprio racismo, que atestava a incompetência e que dividia a sociedade. Isso era absolutamente tudo o que eu havia ouvido até então sobre as cotas raciais.
Eu lembro que a gente enviava perguntinhas por bilhetes para os professores e vez ou outra eu perguntava sobre as cotas raciais. Afinal, o governo não ia colocar algo ali simplesmente para dizer que uma pessoa negra não tem capacidade de passar no vestibular, né? Devia ter um argumento, devia ter um outro lado. Mas ninguém me falava. Nenhum professor respondeu nada além disso para as minhas perguntas. Nem para mim. Nem para nenhuma das outras quase trezentas pessoas daquela sala. Todas brancas.
Ao ver a resposta da sala esse meu professor disse “vou refazer a pergunta, porque uma pessoa esqueceu de levantar a mão.” Ele refez a pergunta e levantou a própria mão.
Esse professor foi a primeira pessoa que começou a elucidar para mim a questão das cotas. Ele falou rapidamente, pouca coisa, mas lembro que se posicionou no sentido de compreender que aquilo era “uma tentativa”, em suas palavras. A partir daí é que eu comecei a sair da nebulosidade que ronda a questão das cotas e começar a compreende-las.
Mas foi muito tempo depois que a questão começou a ser esclarecida para mim. Com exceção desse professor, no meu colégio classe média ninguém me falou. Ninguém me explicou que as cotas geram diversidade étnica nos mais diversos setores, ninguém me disse que o objetivo das cotas é providenciar um futuro no qual não seja tão raro ver um negro professor e uma advogada de cabelo Black Power. Ninguém me possibilitou questionar por qual motivo durante a minha vida toda em escola particular eu nunca estive na mesma sala de aula que uma pessoa negra.
O argumento elitista branco que sempre me foi passado foi esse simplismo raso de “racismo às avessas”, que se nega a buscar a raiz, o cerne da questão. O branco não fala sobre as cotas, porque é mais fácil opinar dessa maneira superficial a buscar explicar verdadeiramente o sentido delas e seus objetivos. Simplesmente porque isso seria admitir que vivemos em um país racista e que, provavelmente, você é uma dessas pessoas. Na superficialidade é fácil declarar-se contrário e, óbvio, doutrinar em causa própria, sem ter que encarar a profundidade do preconceito.
É muito difícil explicar as cotas, porque isso significaria admiti-las e compreende-las. Onde ficaria então o nosso privilégio?
"Então mama, pega no meu grelo e mama Me chama de piranha na cama Minha xota quer gozar, quero dar, quero te dar"
Aviso
axs navegantes: este é um post pró-Valesca Popozuda. Se você é do tipo
que não suporta a moça porque _______ (insira aqui algum juízo de
valor), eu desaconselho fortemente a leitura deste texto. Ou não, já que
o debate saudável é sempre bem-vindo :-)
Já perdi a conta das vezes que li e ouvi coisas do tipo: “as mulheres lutaram tanto pela liberdade e agora vem um lixo humano desses e faz uma COISA assim” (tudo sic, com grifos apavorados meus). E a polêmica da vez ficou por conta do novo hit da Valesca, Mama,
que conta com mais de 1 milhão de visualizações no iutúbi (trata-se de
um pagode “proibidão” feito em parceria com Mr. Catra).
Pois
bem. Não demorou muito e vimos o fatídico comentário circulando nas
redes sociais, todo envergonhadinho da “liberdade” concedida às
mulheres. E sinceramente? Esse comentário e suas variantes só evidenciam
o quanto a luta ainda é necessária. Dá muita preguiça de explicar, mas
não tem outro jeito: em uma sociedade patriarcal como a nossa, a noção
de moralidade também se dá em termos de opressão. E não é preciso uma
bola de cristal para adivinhar que, ainda que a sociedade esteja em
pleno avanço e as mulheres tenham conquistado um espaço público cada vez
maior, ainda falta muito para que a sexualidade feminina não assuste.
Pensemos
um pouco na sexualidade humana como socialmente construída. Por muito
tempo, o silêncio a respeito era a palavra de ordem. Foi assim até que
um dia os cientistas, do alto de seus aventais, resolveram dar caráter
acadêmico a tudo o que uma outra galera, a de batinas, dizia que era
“normal”. Estava posta a Scientia Sexualis que,
segundo Foucault, foi a maneira ocidental de discursivizar (e por que
não controlar?) o sexo. Falar de sexo passou a ser necessário e até
desejável. Porém, a sexualidade feminina continuou a ser paulatinamente
ignorada, tratada sempre como mera coadjuvante no processo de dar prazer
ao homem.
E
por que eu tô fazendo toda essa digressão? Pra explicar que não, você
não é obrigadx a gostar da Valesca. Você não precisa adicionar o funk à
sua playlist. Mas não custa parar para refletir que, para além da
dicotomia liberdade x libertinagem, é preciso pensar nos processos de
poder que normatizam a gente, inclusive sexualmente. E isso inclui uma
séria análise de quais discursos estamos defendendo. Porque, a partir do
momento em que a nós, meros mortais, foi dado o direito de colocar o
sexo em palavras, algum poder nos foi sim conferido. E uma Valesca
falando abertamente de sexo, de forma crua e não-floreada, está se
utilizando desse poder e mostrando à sociedade que uma mulher também
pode sentir prazer.
Com
tudo isso, chegamos noutro ponto que precisa ser discutido aqui: a
questão social que envolve as músicas da Valesca, incluindo a música
Mama. Há um incômodo com o fato de a Valesca se colocar como uma mulher
que tem vida sexual ativa e diz isso abertamente? Sim. Porém, a bronca
toda não se restringe a isso. O que incomodou e ultrajou até a galere de
bom nível intelectual foi mesmo a linguagem utilizada. Porque a
linguagem é popular. E a elite tem pavor de tudo que considera “vulgar”,
especialmente em se tratando de sexo.
Dessa
forma, se considerarmos todo o processo que levou o ocidentinho a
transitar de uma situação de total proibição de verbalizar o sexo, para a
total transformação deste em discurso - primeiramente através das
confissões dadas aos padres e mais adiante em forma de “receitas” dadas
por especialistas para “melhorar” e, porque não, regular o ato sexual -
veremos que ainda estamos muito presos e guess what? A prisão se dá,
essencialmente, pela linguagem. Em outras palavras, o que ficou muito
evidente nessa discussão toda é que a elite ainda sente a necessidade de
sutileza, de trejeitos para falar de sexo, se negando a aceitar que tem
cu, buceta e pau tanto quanto a classe popular. O sexo explícito dessa
forma dá a impressão de algo sujo, bem distante da realidade de uma
elite que quer fazer sexo com álcool gel.
Portanto, Valesca e suas variantes são
uma afronta à lógica vigente, que determina o que tem ou não valor
artístico, segundo sua própria visão do que seria adequado a cada
gênero. Lembremos que os Mamonas Assassinas falaram coisas como “sabão
crucru, não deixa os cabelos do saco enrolar com o do cu” e não foram
julgados. A Valesca fala da própria sexualidade utilizando palavras
similares e é julgada. Assim como uma Rihanna que toca a própria vagina
em seus clipes e, ao contrário do que ocorria com um Michael Jackson ou
Axl Rose, é execrada pelos moralistas de plantão. A própria Letícia (cem homens) tem um exército de trolls prontos a odiá-la pelo simples fato
de ter o controle da própria sexualidade e verbalizar isso.
E
o debate não se esgota aqui. Ainda há muito o que ser falado. Há,
inclusive, que se pensar no fato de a Valesca ser ou não feminista (já
adiantamos que sim, ela é feminista, e isso independe dela se
auto-intitular, ter consciência ou não disso). Porém, como o post está
assaz extenso, deixemos o debate feminista para outra feita. Beijos
Valescanos!
* Post escrito por Flávia Simas com colaboração de Paula Mariá, Gizelli, Elisa e Thaís Campolina.
No dia 05 de maio de 2011, pouco mais de um ano atrás, o STF reconheceu a União Homoafetiva. Me recordo perfeitamente (até porque não me deixam esquecer), dos argumentos contra a aprovação da ADI 4277 e ADPF 132, que versavam sobre os direitos dos homossexuais em ter reconhecida a união homoafetiva. Depois de um ano decorrido da decisão que elevou os homossexuais da categoria de cidadãos de segunda categoria à um patamar mais próximo ao de um cidadão comum, vamos relembrar as verdades absolutas ditas pelos setores mais reacionários e preconceituosos da nossa sociedade?
"A união homoafetiva vai acabar com a família tradicional"
Realmente, um ano depois tudo o que eu vejo é união homoafetiva. As outras famílias foram dizimadas, queimadas vivas, evaporaram, enviadas para marte com bilhete apenas de ida. Só que não. Aliás, queria saber se as pessoas que pensavam assim se "tornaram" homossexuais e não pretendem mais formar uma família tradicional. Sim, porque do modo como falavam parecia que o simples reconhecimento da união homoafetiva faria com que todas as pessoas heterossexuais mudassem de orientação sexual, né? E aí, você que tanto repetiu esse argumento... agora é homossexual? Não? Não me diga. Pois é. Se você é contra a união homoafetiva, não tenha uma, mas não cerceie a liberdade e a felicidade das outras pessoas.
"Querem implantar a ditadura gayzista"
É sério gente, não riam (mentira, podem rir!)! As pessoas realmente acharam que conceder um direito fundamental à um grupo marginalizado o tornaria poderoso o suficiente para "implantar a ditadura gayzista". Estou esperando até agora para me afiliar no partido gay. 'Cordei, cadê PG (Partido Gayzista)?
"Não é natural, um casal do mesmo sexo não pode gerar filhos, vai acabar com a sociedade"
Eu sou heterossexual e não tenho a intenção de gerar filhos, beijos! E também tem muita criança por aí abandonada pelos casais heterossexuais que poderiam ganhar um lar homoafetivo amoroso.
"Crianças educadas por casais homoafetivos teriam grande inclinação a 'se tornarem' (sic) homossexuais"
Espera aí, então, segundo essa lógica, casais heterossexuais não geram ou educam filhos homossexuais? Os gays nascem de chocadeira? Ah, vá...
"A adoção de crianças por casais homoafetivos priva as crianças do amor de uma mãe"
A adoção de crianças por casais homoafetivos dá à criança o amor que foi negado de alguma forma (voluntária ou involuntariamente). A criança que é adotada receberá o amor que não recebeu antes. Se existisse uma lógica para o amor dispensado, não haveriam ótimos pais solteiros, por exemplo. Sem contar que na eventualidade da união entre duas lésbicas, a criança ganha não uma, mas duas mães!
E, é claro, o argumento final: "Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e os destinou a ser uma só carne, o matrimônio NATURAL é entre homem e mulher"
Todo mundo tem direito a ser religioso, se assim preferir. Porém, seu deus não governa o meu Estado, QUE É LAICO. Lide com isso. Acredite no que quiser e me deixe curtir a minha vida em paz, cada um no seu quadrado, beleza?
Isso tudo posto, agora é o momento de voltar os olhos e a atenção para os próximos movimentos em busca da igualdade de direitos dos homossexuais. O deputado Jean Wyllys apresentou ao congresso uma PEC, proposta de emenda constitucional, para garantir o direito ao casamento civil a todas as pessoas, não importando a orientação sexual. Participe do abaixo assinado pelo casamento igualitário.