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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Esquerda, tem que ver esse machismo aí



A discussão acerca da seletividade do Direito Penal é urgente, mas não pode atropelar outra pauta tão essencial quanto essa, que é a do combate à violência contra a mulher. Infelizmente isso acontece. A esquerda questiona e problematiza várias coisas, mas o machismo continua sendo posto de lado.

Duas páginas, que antes desse episódio eu curtia, publicaram uma imagem que frequentemente é postada em páginas misóginas do facebook que simplesmente banaliza a violência doméstica. A imagem não foi postada sozinha, mas junto com uma matéria sobre uma fala da ativista Angela Davis em que ela disse que a criminalização da violência doméstica não basta para solucionar o problema e fez críticas ao sistema prisional/punitivo, mas ainda assim continua misógino. 

A imagem em questão é utilizada em várias páginas do facebook para desqualificar as denúncias de violência doméstica, colocando o dinheiro e aparência do agressor como um diferencial na hora de "gostar de apanhar" e na hora de denunciar. Uma das leituras possíveis da imagem é que a mulher é interesseira e não denunciaria caso o homem fosse rico.

Homens pobres e negros compõem majoritariamente a população carcerária brasileira e homens brancos e ricos raramente são condenados por seus crimes, mas essa imagem simplesmente culpabiliza a vítima. Coloca nos ombros dela a culpa disso tudo, ignorando que as mulheres também sofrem com essa dualidade do Direito Penal já que encontram desafios gigantescos para denunciar homens brancos e ricos quando eles as agridem e muitas vezes não o fazem por medo do poder do agressor. E também ignora a questão da dependência financeira que muitas vezes compõe o cenário da violência doméstica.


Comentário retirado da postagem de uma das páginas que
deixa claro o tipo de pensamento que a imagem reproduz.
A lei Maria da Penha foi sancionada em agosto de 2006, após a luta de entidades de direitos humanos que levaram o caso da Maria da Penha para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A mulher que dá nome à lei sofreu duas tentativas de homicídio por parte do marido e ficou paraplégica. Na justiça, ele foi condenado, mas passados 15 anos e ele continuava livre. Com a pressão exercida por uma organização internacional, 19 anos depois, o agressor foi preso.

A decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos levou em conta que o Brasil é signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e afirmou que o Brasil era negligente e omisso quanto a esse tipo violência e recomendou ao país uma série de medidas para combater tal negligência. 

Após a decisão da CIDH, em 2003, houve a publicação da lei que determina a notificação compulsória, no território nacional, de casos de violência contra a mulher que for atendida em serviços de saúde públicos ou privados e posteriormente, em 2006, a Lei Maria da Penha. 

É essencial destacar que a condenação do Brasil na Corte se deu porque ficou provado que o caso em questão não era isolado, pelo contrário, era sistêmico. Documentos estatísticos sobre o período apresentaram o dado que apenas 2% das denúncias apresentadas aos tribunais que caracterizavam violência doméstica resultavam em condenação.

Indispensável também é ter em mente que a partir da criminalização da violência doméstica iniciou-se um processo de diminuição da negligência social/estatal com a violência doméstica e reconhecimento do problema. A existência da lei é apenas um passo dado no combate do problema e a trajetória dela expõe o quanto todas as instituições e como nossa cultura naturalizam tais agressões como aceitáveis. 

A imagem publicada, mesmo num contexto de crítica à seletividade do direito penal, é apenas mais um exemplo de como a sociedade ainda banaliza um problema social que coloca o Brasil em 7º lugar no ranking de feminicídios. 



A violência doméstica durante muitos anos era vista como um problema familiar apenas, um assunto privado que se referia apenas ao casal ou à família. A frase "em briga de marido e mulher não se mete a colher" é infelizmente quase um ditado ainda hoje. Desprezar o contexto social e histórico da violência doméstica numa "piada" é contribuir para a negligência e para a continuidade da banalização da misoginia. Violência doméstica não serve para piada de entretenimento e nem pra piada crítica do Direito Penal. 

Instituir políticas sérias de combate ao machismo e modificar a cultura que naturaliza a violência nas relações entre homem e mulher são outros passos que precisam ser dados no combate a violência de gênero. Reproduzir a imagem criticada é desprezar a importância da mudança cultural na transformação da realidade social, tanto para diminuir as agressões contra as mulheres, quanto para modificar o sistema penal brasileiro.

Biblografia: A Lei Maria da Penha na perspectiva da responsabilidade internacional do Brasil - Flávia Piovesan e Sílvia Pimentel. 

Brasil só criou Lei Maria da Penha após constrangimento internacional 

Indicação: Violência Doméstica não é piada! 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Direitos das mulheres: entenda melhor quais direitos estão sendo ameaçados

Arte de Aline Valek.

No Brasil, o aborto é legalizado para os casos de gravidez decorrente de estupro, risco de vida da mãe e gravidez de feto anencéfalo. Apesar disso, mulheres encontram vários entraves na hora para realizar o procedimento mesmo nesses casos previstos no Direito brasileiro. A matéria "Dor em dobro" expõe a realidade das mulheres brasileiras que buscam o procedimento por terem engravidado de um estupro e mostra como o fundamentalismo religioso é um fator que dificulta o acesso dessas mulheres por seu direito ao aborto legal. A fim de mudar essa realidade, a portaria 415/2014 foi publicada, mas imediatamente revogada por pressão de fundamentalistas religiosos. A Lei 12.845/13, uma conquista recente, também veio para extinguir algumas dessas dificuldades relatadas e tem sofrido ataques no Câmara dos Deputados, através de um Projeto de lei que visa revogá-la. 

O que era a Portaria 415/2014? 

A Portaria 415 retirava um dos obstáculos ao acesso a esse direito, visto que garantia a gratuidade do procedimento, por prever a realização do abortamento legal pela rede pública de saúde. Era um complemento da lei 12.845/13. 

Além disso, a Portaria garantia para a gestante que buscava o procedimento, o direito ao acompanhante e permitia a identificação do procedimento como "Interrupção da gestação prevista em lei" e demais informações, que é um importante instrumento para monitorar políticas públicas de saúde reprodutiva. Saiba mais aqui.

Sem a Portaria 415, qual é a situação? 

A busca pelo procedimento continuará sendo árdua e com a dificuldade de não ter a gratuidade garantida. Além disso, os números referentes ao aborto legal continuarão subnotificados e a humanização do procedimento, através do direito ao acompanhante, dependerá da boa vontade de cada hospital. 

E a lei 12.845/13? Do que se trata?

Essa lei dá a garantia de atendimento obrigatório, integral, multidisciplinar e emergencial às vítimas de violência sexual. Ela prevê uma série de procedimentos que tem como objetivo tratar, tanto fisicamente, quanto psicologicamente, a vítima. Entre eles, a profilaxia da gravidez, que na maioria das vezes é a disponibilização da pílula do dia seguinte, mas se ela não for mais efetiva, é a disponibilização do aborto legal, e também a realização de exames para detectar doenças sexualmente transmissíveis e a disponibilização de medicamentos que visam evitar o desenvolvimento delas. 

A pílula do dia seguinte sequer pode ser considerada abortiva, porque o máximo que ela evita é que ocorra a nidação, que é impedir a fixação do ovócito no endométrio. Um dos objetivos da disponibilização dela no atendimento à vítima de violência sexual é justamente evitar que ela, no futuro, se descubra grávida em decorrência da violência que sofreu. 

Qual é o ataque que a lei 12.845/13 sofreu? 

Ela não foi revogada, mas há um Projeto de Lei tramitando na Câmara Federal que quer revogá-la. O número dele é 6033/2013.

Por que é tão importante impedir essa revogação?

Antes da lei 12.845/13, as mulheres que buscavam atendimento após serem vítimas de violência sexual dependiam de como cada médico interpretava a lei penal sobre abortamento em caso de estupro, deixando a vítima à mercê da subjetividade de cada médico, porque não havia nenhuma padronização obrigatória dos procedimentos a serem feitos nesses casos, apenas diretrizes feitas pelo Ministério de Saúde que não tinham efeito legal. Logo, estados e municípios muitas vezes não implantavam os procedimentos defendidos nas normas técnicas de caráter não obrigatório. Deixando as vítimas de violência sexual a mercê.

Com a lei, a vítima de violência sexual tem a garantia de receber um tratamento que visa a impedir que ela engravide da violência que sofreu, nisso, garante-se também, que ela saiba que tem direito ao abortamento legal, caso mesmo assim venha a engravidar dessa violência. Informação que na maioria das vezes não era dada antes da lei e que agora deve ser dada, para proteger a saúde psicológica da vítima da agressão. Afinal, pode ser um alívio saber que caso você engravide daquele evento traumático, você não é obrigada por lei a seguir com a gestação.

Além disso, a padronização do procedimento de assistência às vítimas de violência sexual acaba por inibir, ao menos um pouco, as culpabilizações que as vítimas muitas vezes ouviam ao buscar atendimento médico, visto que hoje há toda uma série de procedimentos definidos em lei e que devem ser respeitados independente da subjetividade do atendente. 

O que são direitos reprodutivos e direitos sexuais?

São direitos humanos que visam garantir o acesso aos contraceptivos, à privacidade, intimidade, autonomia individual, liberdade sexual, entre outros direitos que se relacionam a isso. Reconhecer tais direitos é dizer que o Estado deve garantir, através de políticas públicas e normas jurídicas, o direito à saúde, incluindo sexual e reprodutiva. A Portaria 415 e a lei 12.845/13 são essenciais, visto que permitem a autonomia individual e protegem a saúde psicológica da pessoa humana. 

Os ataques aos direitos reprodutivos e sexuais não se restringem à revogação das normas protetoras citadas, mas ocorrem também quando o uso de métodos contraceptivos são condenados pela Igreja e quando a educação sexual e o acesso aos contraceptivos encontram óbices fomentados por dogmas. 

"o efetivo exercício dos direitos reprodutivos demanda políticas públicas, que assegurem a saúde sexual e reprodutiva. Nesta ótica, fundamental é o direito ao acesso a informações, meios e recursos seguros, disponíveis e acessíveis. Fundamental também é o direito ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva e sexual, tendo em vista a saúde não como mera ausência de enfermidades e doenças, mas como a capacidade de desfrutar de uma vida sexual segura e satisfatória e reproduzir-se com a liberdade de fazê-lo ou não, quando e com que frequência. Inclui-se ainda o direito ao acesso ao progresso científico  e o direito de receber educação sexual. Portanto, aqui é essencial a interferência do Estado, no sentido de que implemente políticas públicas garantidoras do direito à saúde sexual e reprodutiva" - Flávia Piovesan - Direitos reprodutivos como direitos humanos.
Por que é tão importante lutar contra esses retrocessos? 

Lutar para que mulheres tenham acesso aos seus direitos garantidos e que eles não sejam restringidos por violações ao Estado Laico é simplesmente respeitar mulheres como pessoas. Afinal, os direitos humanos também são endereçados às mulheres, porém na prática, a gente percebe que se somos mulheres, nossos direitos serão violados com maior frequência e serão tratados como moeda de troca. 

Os direitos reprodutivos e sexuais são uma extensão do direito à saúde. Lutar contra retrocessos nessa área é lutar pelo direito à saúde das mulheres. Os pequenos avanços na legislação da área são raras vitórias e é inaceitável perder o pouco que foi conquistado. 

No dia 07/06, às 14 hs, na praça da Sé, em São Paulo - SP haverá ato contra a revogação da #Portaria415 e contra a possível revogação da lei 12845/13.

No dia 06/06, a partir das 16 horas, haverá tuitaço para conscientizar a galera sobre o tema e divulgar o ato em São Paulo. A hashtag será #AbortoLegal, mas outras hashtags como #Portaria415 e #Lei12845 também são bem-vindas. 

Saiba mais no tumblr #AbortoLegal. E mande sua foto para nós, ativismodesofa@gmail.com ou para o tumblr "Para não morrer".

*Aborto legal, seguro e gratuito não é apenas direito das mulheres, homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar.  A reivindicação é para todas essas pessoas. E nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero. 

Vídeo: #Aborto Legal: conheça seus direitos! 

Revogação da Portaria 415: e o aborto permitido por lei, não será seguro e gratuito? 

Nossos direitos reprodutivos, eterna moeda de troca. 

Direitos das mulheres sob ameaça


domingo, 10 de novembro de 2013

A pessoa errada, no lugar errado?

Inicio o texto de hoje narrando um caso que aconteceu comigo, quando eu morava nos EUA. Ainda hoje, confesso, eu me lembro do medo que senti, e isso me causa um mal-estar danado, principalmente porque eu sempre tentava me convencer de que eu estava exagerando. 


Pois bem. Eu fui fazer compras em um hipermercado, não muito distante da minha casa. Usei o GPS para chegar ao local. Acabei demorando, entretida que estava com tantos ítens de decoração lindíssimos que vi por lá. Depois de um tempo, volto ao meu carro, e tenho a brilhante idéia de não usar o GPS, pois pra mim, o caminho estava fresco na memória. 




Acontece que eu me perdi. Escureceu mais rápido do que eu imaginava e, de repente, as ruas eram todas iguais. Eu estava perdida em uma área residencial próxima ao supermercado, e não conseguia: a. retornar à loja, b. encontrar o caminho de casa. Fui ficando aflita, e ao perceber que estava girando em círculos, eu parei o carro. Enquanto eu abria o porta-luvas para pegar meu gps e ligá-lo, as luzes das casas começaram a acender. Eu estava parada em frente a uma casa, e enquanto digitava meu endereço no gps, eu percebi uma cabecinha me espiando pela cortina. Era uma mulher branca. 


A sensação de medo é indescritível até hoje, quase dois anos depois do ocorrido. O gps demorou uns trinta segundos para reaver o mapa, e eu confesso que foram trinta segundos bem demorados. Eu tremia, meu coração parecia que ia sair pela boca, e tudo que eu conseguia pensar era: vou levar um tiro. Na cabeça. 


Até hoje eu não sei explicar direito de onde me veio esse pensamento. Talvez de tanto escutar a velha frase "a pessoa errada, na hora errada, no lugar errado", eu fiquei com aquela sensação de que tava tudo errado naquele momento que eu estava vivendo. Cheguei em casa ainda trêmula, contei o ocorrido ao meu marido, que ficou bem preocupado. Depois de conversarmos sobre o assunto e eu prometer que nunca mais deixaria de ligar o gps, mesmo que eu tivesse certeza do caminho, eu meio que o convenci, e convenci a mim mesma, que eu estava sendo exagerada. Afinal de contas, eu fiquei ali parada por menos de um minuto. 


Mas, a pulga nunca saiu detrás da minha orelha. Eu sabia que o meu maior desconforto se dava ao fato de que (me disseram) o Texas tem mais armas do que gente e que a lei do 'stand your ground' (algo como 'defenda seu território') é uma realidade por lá. Mas, eu estava parada na rua, não havia motivo para me preocupar. Pelo menos é o que eu repetia pra mim mesma sempre que a história martelava na minha cabeça. Lembro ainda que no outro dia eu contei o caso pra minha professora de inglês, que me pediu, com voz de assombro: "nunca mais faça isso, eu sei que você realmente pensou que sabia o caminho, mas nunca mais faça isso, por favor". 




Essa semana, eu me deparei com o seguinte título de uma notícia (em inglês): "Mulher negra é morta por pedir ajuda em uma vizinhança branca". Renisha McBride bateu o carro em uma região habitada majoritariamente por brancos, em Detroit. A bateria de seu celular tinha acabado, e ela resolveu então pedir ajuda em uma casa próxima. Acabou sendo morta. É a tal lei do 'stand your ground' em ação. Renisha morreu por ser negra. Porque pessoas negras são sempre suspeitas. Porque a Renisha, assim como eu, provavelmente cresceu ouvindo a história da "pessoa errada no lugar errado". É um eufemismo que nós ouvimos, ao invés de "pessoa negra em vizinhança branca" ou, ainda "mulher no espaço público". Ouvimos esse tipo de coisa porque é mais fácil culpabilizar a vítima. Aposto que se algo tivesse acontecido comigo, teriam jogado toda a culpa no fato de eu não ter usado o gps aquela noite. Assim como certamente devem estar especulando que a Renisha, na verdade, errou em tocar a campainha de uma casa desconhecida. Mesmo que ela não tivesse outra escolha. 


O dia da Consciência Negra (20 de Novembro) está se aproximando. Uma data para lembrar toda a trajetória de sofrimento e exploração sofrida por escravas e escravos no Brasil. Mas não só isso. Pra mim, trata-se de um momento para reflexão, introspecção, ação. Em um mundo globalizado, os problemas também encontram-se interconectados. E eles são muitos, e bem complexos. O medo que eu senti nos EUA é o medo que praticamente todas as pessoas negras sentem no Brasil. Em um mundo realmente justo, a negritude não é confundida com criminalidade. Em um mundo realmente justo, pessoas negras, mulheres e demais minorias não são "pessoas erradas" porque esse conceito, simplesmente, não faz sentido.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Bancada fundamentalista planeja um Brasil teocrático

"Indiretas Feministas"

Já faz um tempo que a bancada fundamentalista, suas ações e investidas políticas para aumentar seu número me preocupa. Minha preocupação intensificou quando o Pastor Marco Feliciano assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Afinal, a comissão que deveria garantir os direitos de grupos vulneráveis como homossexuais e pessoas transexuais passou a ser liderada por uma figura que luta contra os direitos humanos dessas pessoas e fiquei ainda mais tensa quando houve uns boatos de que ele pretendia se candidatar à presidência. Mas nesse momento, o medo das eleições de 2014 acabou de atingir níveis alarmantes: Uma propaganda do PSC, de quase dez minutos, acabou de passar num dos horários mais assistidos na emissora Globo. Em toda a propaganda se vê aquele papinho de valorização da família, aquele papo que dá pra ver claramente que fazem uso dos ideais de uma certa religião para basear toda a ideologia do partido e que isso serve de desculpa para atentar contra os direitos humanos.

Indiretas Feministas
Dá para perceber claramente que a intenção do partido é aumentar seu número na Câmara Federal, nas assembleias estaduais e no poder executivo. E a gente sabe muito bem que a motivação para que esse número aumente é porque com mais gente há mais chance de barrar qualquer projeto de lei, política pública ou qualquer coisa do tipo que vise a garantia de direitos para grupos vulneráveis. A propaganda do partido ser tão longa, tão bem produzida e o fato de que já começou a ser divulgada como quem não quer nada deixa claro que o poder/dinheiro que eles tem disponíveis é enorme e eles usarão todos os recursos possíveis.

Só o fato de existir um partido que afirma que seus ideias se sustentam nos dogmas de uma religião num Estado Democrático de Direito e ele ter tanto poder/dinheiro para conseguir quase 10 minutos de propaganda política antes do Jornal Nacional já dá para a gente questionar bastante questões como a laicidade do Estado e a própria democracia. Principalmente quando esse partido luta justamente contra qualquer mudança que inclua garantir direitos e proteção de discriminações à comunidade lgbt*, luta contra os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres cis e demais pessoas que tem útero e que faz uso de um discurso religioso para ganhar poder e justificar discriminações.

Indiretas Feministas
 O discurso do Feliciano não é único. Ele está no PSC, está em outros políticos, está na sociedade num todo. E a gente tem que combatê-lo, porque eu realmente não quero viver num país que é completamente dominado por pessoas machistas, misóginas, racistas, que discriminam quem tem a orientação sexual diferente da hétero, que discrimina e impede que pessoas trans tenham o mínimo de dignidade e há muita gente usando muitos recursos financeiros e de poder para garantir que o fundamentalismo seja uma voz quase única em todas as esferas de poder. Eu não quero viver numa teocracia.

Esse status foi postado originalmente no meu perfil do facebook, mas como houve pedidos para que o texto fosse postado aqui também, postei.

"Afinal, quem o Marco Feliciano representa?" - texto do Ativismo de Sofá

terça-feira, 2 de julho de 2013

Aborto: Por que tanto silêncio?

"Eu aborto, tu abortas, todas em silêncio"

Aborto é um assunto assustadoramente tabu. É bem comum que pessoas que são a favor da descriminalização, muitas vezes não falem sobre seu posicionamento em público, por causa das caras feias, dos xingamentos, do receio de que as suas opiniões as prejudiquem. 

O assunto muitas vezes é evitado mesmo dentro do meio feminista e frases como "eu jamais faria um aborto, mas sou a favor da descriminalização" muitas vezes norteiam várias das discussões a respeito, de forma que as pessoas continuam achando que quem aborta é a outra, que está longe de nós, sendo que não é bem assim.  A frase em si não é problemática, pelo contrário, demonstra muita empatia e respeito pela decisão da outra, mas o que é preocupante é que ela se tornou quase um discurso único o que contribui para que, muitas vezes, mesmo dentro de ambientes pró legalização, se você falar "eu não sei se eu faria, acho que se eu me descobrisse grávida hoje, eu faria sim", você ser vista como insana.

Falar sobre aborto como se nós jamais pudéssemos acabar optando por isso, desumaniza quem fala que faria um aborto e quem já passou por essa experiência. O discurso do "quem aborta é a outra" contribui para a invisibilidade do tema, restringe a voz das mulheres que abortaram e assim impede que as pessoas que nunca passaram por isso saibam que não há uma reação única a gravidez indesejada e as condições precárias em que são feitos muitos abortos. 

Quebrar o silêncio que ronda o assunto é necessário para que o nosso ativismo surta efeitos, para que aumente seu poder de alcance e para mostrar para quem não quer ver que métodos contraceptivos falham, que a lei que criminaliza o aborto não impede que eles aconteçam, mas colabora para as mortes maternas decorrentes da clandestinidade. 

O blog "Somos todas clandestinas" é composto por relatos de mulheres muito diferentes entre si que optaram por abortar e pelos relatos percebemos que vivemos em uma sociedade que acha que uma mulher que aborta merece morrer e que médicos fazendo discursos pró vida de feto não é algo reservado apenas a ficção.

O Estatuto do Nascituro continua em trâmite e nós precisamos deixar claro para o Estado, para a Igreja e para a sociedade que somos donas dos nossos corpos, que colocar um estuprador como pai numa certidão de nascimento é violar a dignidade da mulher e dizermos basta para as diversas mortes decorrentes desse Estado negligente com a saúde e direitos reprodutivos das mulheres. Precisamos falar, gritar, balançar nossa bandeira pela vida das mulheres antes que mais uma lei que nos coloca ainda mais longe do direito ao nosso corpo e a dignidade seja aprovada.

Obs: Não só mulheres podem engravidar, homens trans e pessoas não binárias que tem útero também podem. Logo, todos os direitos defendidos pelo texto, como o aborto seguro e educação sexual, se estendem a essas pessoas. 

Obs: A criminalização é um fator essencial para que o tabu continue existindo, visto que várias mulheres sentem medo de expor suas opiniões e experiências a respeito e acabar sendo indiciadas.

Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista. 

Porque filmei meu aborto

domingo, 2 de junho de 2013

O que está acontecendo em Istambul

O texto a seguir é uma tradução de "What is happening in Istanbul", publicado pela escritora Defne Suman em seu blog. O texto é um relato dos conflitos em Istanbul, de como eles começaram e do que os "motivou". Como diz a própria autora, a internet é basicamente o único meio que restou para se disseminar informação, pois a mídia do país vem ignorando os acontecimentos. A tradução também pode ser encontrada aqui.



O que está acontecendo em Istambul

Para meus amigos que moram fora da Turquia: Estou escrevendo para que vocês saibam o que tem acontecido em Istambul nos últimos cinco dias. Eu preciso escrever porque a maioria das fontes de mídia foram desligadas pelo governo e o boca a boca e a internet são as únicas formas que restaram para nos explicarmos e pedirmos ajuda e apoio.

Há quatro dias um grupo de pessoas que não pertencem a nenhuma organização ou ideologia específica se reuniram em Gezi Park, em Istambul. Entre eles, muitos dos meus amigos e alunos. A razão era simples: para evitar e protestar contra a iminente demolição do parque para a construção de mais um shopping no centro da cidade. Existem inúmeros shoppings centers em Istambul, pelo menos um em cada bairro! 

A demolição das árvores deveria começar no início da manhã de quinta-feira. As pessoas foram para o parque com seus cobertores, livros e crianças. Elas montaram suas tendas e passaram a noite sob as árvores. No início da manhã, quando os tratores começaram a puxar as árvores de cem anos de idade, os manifestantes se levantaram contra eles para interromper a operação.Eles não fizeram nada além de se colocar diante das máquinas. Nenhum jornal, nenhum canal de televisão estava lá para cobrir o protesto. Foi um blackout total da mídia.
Foto da página Occupy Gezi no Facebook

Mas a polícia chegou com os veículos com canhões de água e spray de pimenta. Eles expulsaram as multidões para fora do parque.À noite, o número de manifestantes se multiplicou, assim como o número de forças policiais ao redor do parque. Enquanto isso, o governo local de Istambul fechou todos os caminhos que levam à Praça Taksim, onde o Gezi Park está localizado. O metrô foi fechado, as balsas foram canceladas, estradas foram bloqueadas.

No entanto, mais e mais pessoas fizeram o caminho até o centro da cidade a pé. Elas vieram de toda Istambul. São pessoas de todas as origens, diferentes ideologias, diferentes religiões. Todas elas se reuniram para impedir a demolição de algo maior do que o parque: O direito de viver como cidadãos honrados neste país.

Elas se reuniram e marcharam. A polícia perseguiu-as com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e jogou seus tanques sobre as pessoas, que devolviam o ataque com porções de comida. Dois jovens foram atropelados pelos tanques e foram mortos. Outra jovem, uma amiga minha, foi atingida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogêneo. A polícia estava atirando diretamente contra a multidão. Após uma operação de três horas ela ainda está na UTI em estado muito crítico. Enquanto escrevo isto, não sabemos se ela vai ficar bem. Este blog é dedicado a ela.
Essas pessoas são meus amigos. São meus alunos, meus parentes. Elas não têm nenhuma “agenda escondida” como o Estado gosta de dizer. Sua agenda está lá fora. É muito claro. O país inteiro está sendo vendido para as empresas pelo governo para a construção de shoppings, condomínios de luxo, estradas, barragens e usinas nucleares. O governo está procurando (e criando, quando necessário) qualquer desculpa para atacar a Síria contra a vontade de seu povo.

Acima de tudo, o controle governamental sobre a vida pessoal de seu povo tornou-se insuportável nos últimos tempos. O Estado, sob sua agenda conservadora, passou muitas leis relativas ao aborto, à cesariana, à venda e uso de álcool e até mesmo em relação à cor do batom usado pelas aeromoças.

As pessoas que estão marchando para o centro de Istambul estão exigindo seu direito de viver livremente e ter justiça, proteção e respeito do Estado. Elas exigem participar dos processos de tomada de decisão em relação à cidade em que vivem.

O que elas receberam, pelo contrário, é força excessiva e enormes quantidades de gás lacrimogêneo disparado diretamente em seus rostos. Três pessoas perderam a visão.No entanto, elas ainda marcham. Centenas de milhares se juntam a elas. Milhares atravessaram a Ponte Bósforo a pé para apoiar as pessoas em Taksim.

Nenhum jornal ou canal de TV estava lá para relatar os acontecimentos. Eles estavam ocupados com a transmissão de notícias sobre Miss Turquia e "o gato mais estranho do mundo".A polícia continuou perseguindo as pessoas e pulverizando spray de pimenta a ponto de cães e gatos de rua morrerem envenenados. 

Escolas, hospitais e até hotéis cinco estrelas em toda a Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a pulverizar pessoas inocentes com gás lacrimogêneo e abandonaram seus postos. Ao redor da praça foram instalados aparelhos para evitar o acesso à internet e as redes 3G foram bloqueadas, então moradores e empresas da região cederam suas redes wi-fi para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.

Pessoas em Ankara e Izmir foram para as ruas para apoiar a resistência em Istambul.A grande mídia continuou mostrando a Miss Turquia e "o gato mais estranho do mundo".
***
Estou escrevendo esta carta para que vocês saibam o que está acontecendo em Istambul. Meios de comunicação não lhe dirão nada sobre isso. Não no meu país, pelo menos. Por favor, postem tantos artigos quanto puderem, espalhem as notícias.
Eu estava postando artigos que explicam o que está acontecendo no Facebook na noite passada e alguém me perguntou o seguinte:
“O que você espera conseguir reclamando do nosso país para estrangeiros?”
Este blog é a minha resposta a essa pessoa.Pelo chamado “reclamar” sobre o meu país, espero ganhar:
Liberdade de expressão e discurso,
Respeito dos direitos humanos,
Controle sobre as decisões que tomo em relação ao meu próprio corpo,
O direito de me reunir legalmente em qualquer parte da cidade sem ser considerada uma terrorista.
Mas, acima de tudo, por espalhar os acontecimentos aos meus amigos que vivem em outras partes do mundo, eu espero obter o seu conhecimento, apoio e ajuda!
Por favor, espalhem as notícias e compartilhem este blog.
Obrigada!

Defne Suman."

quarta-feira, 27 de março de 2013

Afinal, quem o Marco Feliciano representa?

Foto do Fora do Eixo no ato do oito de março de Belo Horizonte. 
Marco Feliciano: deputado federal, atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Sua presença e presidência tem sido contestada por diversos movimentos sociais e pessoas comprometidas com os Direitos Humanos mesmo antes da sua eleição. 

Marco Feliciano é indesejado na CDHM por causa de suas diversas declarações preconceituosas contra negros, mulheres e homossexuais. Seus projetos de leis envolvem interromper a aplicação das decisões do STF que tratam de permitir a união estável entre pessoas do mesmo sexo e considerar essa união uma entidade familiar e a permissão de antecipação terapêutica do parto nos casos de feto anencéfalo. E ainda, instituir o programa "Papai do céu na escola" e estabelecer que as cédulas do real devem continuar a ter a inscrição "Deus seja louvado", entre outros.

Há alguns memes e tirinhas espalhados na internet que colocam o pensamento do Feliciano como algo primitivo. Mas infelizmente, tal pensamento é atual. Basta observar o poder da bancada evangélica no Congresso Nacional. Basta ver como Jean Willys, deputado gay que se posiciona contra Feliciano e cia, está sendo caluniado.

O pastor é deputado pelo Partido Social Cristão (PSC) e ambos dizem pautar nos ideais do Cristianismo para governar. E ontem o PSC optou por não indicar outro nome no lugar do Pastor para assumir a presidência da CDHM, ignorando completamente as diversas manifestações que houve por várias cidades do Brasil, a petição online que detém mais de 500 mil assinaturas e também o conteúdo das declarações do deputado. E nesse momento, trago uma reflexão, essa negligência que tratam as declarações homofóbicas, racistas e machistas feitas pelo Feliciano são sintomáticas de como o Estado não se importa em deter tais discriminações, mesmo com diversas previsões constitucionais e legais que as vedam. 

Feliciano representa quem usa a religião como desculpa para proferir discursos de ódio de impedir que outras pessoas tenham os mesmos direitos e respeitos que outras. Representa, também, o PSC e toda a bancada evangélica que acham que a presidência dele na CDHM é estratégica para não deixar direitos LGBT e direitos das mulheres passarem. Representa quem usa os Direitos Humanos das minorias como moeda de troca. Ele representa também quem diz que homossexuais querem privilégios, quem fala em ditadura gayzista e quem ao ver mulheres trabalhando, optando por serem mães quando quiserem e se quiserem e vivendo sua sexualidade as vêem como vilãs e vadias. E representa também quem defende liberdade religiosa só para quem é de sua religião.

Sinto muito dizer isso, mas Feliciano não é alguém que veio da Idade Média cheio de pensamentos conservadores. Ele e sua corja são atuais. E a nossa luta não deve se pautar apenas em retirá-lo da CDHM, até porque outra pessoa do PSC irá assumir o cargo. 

A nossa luta deve ser pelo Estado laico e por isso ir contra o uso de fundamentação religiosa na hora de fundar partidos e governar. E lutar por isso não é violar o princípio da liberdade religiosa, é simplesmente utilizá-lo dentro dos ditames da laicidade. A luta deve ser também contra esse ideal de família tradicional que tanto exclui e marginaliza. 
Acervo pessoal - foto tirada no ato do oito de março de 2013 em BH. 


Se eles se uniram para restringir os direitos que adquirimos e impedir que tenhamos os direitos que queremos, nós nos unimos contra eles. Eles não passarão. Mesmo que tenham um nome diferente de Feliciano. Nós somos contra tudo que eles representam: o preconceito, a negligência, o conservadorismo e o desrespeito aos cidadãos.

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quinta-feira, 21 de março de 2013

Brasil: uma democracia racial?



O mito da democracia racial afirma que não há racismo no Brasil e que o que é chamado de racismo hoje é apenas um problema oriundo da situação financeira da maioria dos negrxs. O mito sustenta a ideia absurda de que as políticas afirmativas em prol dos negrxs, como as cotas universitárias raciais, é inconstitucional por ferir o princípio da isonomia.

O trote racista e sexista que ocorreu na faculdade de Direito da UFMG foi assunto de destaque nessa semana e no meio de vários argumentos dos defensores de que tudo não passou de uma piada, várias pessoas diziam que não concordavam com o teor racista do trote, porém achavam que o fato do assunto ter tomado conta da internet era apenas um exagero. O argumento da piada é facilmente destrinchado pelo vídeo "O riso dos outros" e pelo texto da Paula Mariá "É só uma piada". Mas e esse suposto exagero? Por que sempre quando se fala em racismo, as pessoas evocam lutas que eles consideram mais urgentes e que nada tem a ver com o racismo?

O racismo é visto como um exagero e às vezes até como um devaneio. O defensores da ridícula idéia de que vivemos numa democracia racial afirmam que não há racismo nem no caso do trote da UFMG, nem nas ridículas declarações do atual, e indesejado pelos movimentos sociais, presidente da Comissão de Direitos Humanos e minorias da Câmara Federal, Marco Feliciano. Afirmar que não existe racismo é uma das formas mais eficazes de manter negrxs numa situação de marginalização.

Ignorar as especifidades de grupos vulneráveis na formulação de leis e políticas públicas é ignorar que o racismo, no caso, é um discurso de reprodução de poder, uma forma de tentar justificar e dar continuidade a dominação de um grupo sobre o outro. E que essa relação de poder tem origem na história e na cultura e não desaparece se forem negligenciadas. Afinal, dizer "todos somos iguais" não impediu que os preconceitos e a marginalização dos grupos historicamente oprimidos continuem existindo.

Quem evoca o princípio da isonomia para criticar qualquer política pública contra negrxs comete um erro terrível. Isto é ignorar que a igualdade não se resume ao "todos somos iguais", afinal, em casos onde um grupo social detém vantagens sobre outro grupo, a igualdade se aplica de acordo com a máxima "desigualar os desiguais para que enfim se atinja a igualdade de fato".


Um dos argumentos utilizados para dizer que racismo não existe e deslegitimar qualquer política pública a favor dos negrxs é que a ciência provou que não existe raça. Mas a questão não é essa, a origem do racismo é sociológica e cultural. Não dá pra dizer que não existe racismo porque não existe raça, sendo que quando nos pautamos em critérios políticos e sociais é insustentável ignorar que negrxs ganham menos que brancos fazendo a mesma função, que existe uma divisão negro-branco no trabalho e etc.

"Ah, mas o Brasil é um país miscigenado, não tem isso de racismo não, todo mundo tem sangue de negro, índio e branco no corpo" também não é argumento para negar a existência de racismo, porque quem é visto como negro sofre discriminação. E nesses casos, sempre é válido citar a famosa frase: "Não dá pra saber quem é negro e quem é branco, mas o segurança continue sabendo quem barrar e a polícia continua sabendo em quem bater".

O suposto exagero que algumas pessoas dizem que há nos apontamentos do que é racismo e nas reações ao que é visto como racista está naquela ideia de que racismo é só quando uma pessoa é assassinada por ser negra, quando um cartaz de oferta de emprego diz que querem pessoas brancas para aquela vaga e etc. O racismo no discurso é ignorado, apesar de ser potencialmente letal. Não vêem que piadinhas que chamam quem é negro de macaco são mais uma forma de desumanizar os negrxs. E que a desumanização dos negrxs é uma constante necessária para a manutenção do racismo, que acaba por naturalizar uma série de violências, como o genocídio da juventude negra.

E por fim, não esqueça de ler a Nota de repúdio ao trote racista e sexista da faculdade de Direito da UFMG que foi assinada por diversos coletivos, blogs e pessoas, incluindo o Ativismo de Sofá e que foi reproduzida aqui no blog.

ESSE POST FAZ PARTE DA BLOGAGEM COLETIVA PELO DIA INTERNACIONAL PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL, UMA INICIATIVA BLOGUEIRAS NEGRAS.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

E a igualdade?


Quando se fala da Lei Maria da Penha, das cotas para negros na universidade pública e na diferença do tempo de contribuição para aposentadoria entre homens e mulheres, há um argumento discordante universal que é invocar o princípio da isonomia para criticar tais normas, sendo que a base dessas normas é justamente o princípio invocado. Esclarecer esse princípio é algo urgente para facilitar o entendimento das pessoas a respeito dessas normas.

Imagem retirada daqui.
O princípio da igualdade funciona de duas formas: para determinadas coisas, como o princípio do contraditório, ampla defesa, legalidade e diversos outros, todos são iguais. Mas a igualdade material e substancial vai além, ela busca trazer uma igualdade de oportunidades, então o que acontece é que grupos que são vulneráveis por causa da cultura vigente e influência da história recebem leis próprias para tentar igualar essas oportunidades, tentar igualar a situação das pessoas na ordem fática.

"O princípio da isonomia não trata de uma igualdade formal, uma vez que igualar os desiguais dessa forma, é ignorar as pluralidades sociais que compõem um Estado Democrático de Direito e impedir a participação plena de todos os cidadãos. A igualação de grupos sociais diferentes só faz com que as diferenças fiquem mais claras e se fortaleçam."
Por que não usar apenas a interpretação da igualdade formal? Essa em que todos são iguais e pronto, acabou? Bom, por mais que ela pareça a ideal, nem sempre ela é mais efetiva e aplicável, afinal, se o objetivo desse princípio é tentar proporcionar uma igualdade entre as pessoas, se essa interpretação formal muitas vezes até fortalece ainda mais as desigualdades já existentes, a gente tem que ver isso daí, não? Pense em impostos. O tão famoso imposto de renda tem como base a capacidade contributiva de cada um. Em resumo, quem tem uma capacidade contributiva alta, tem a alíquota de 27,5% calculada em cima de sua renda, enquanto quem não tem capacidade contributiva é isento. E ainda há as variações da capacidade contributiva entre a isenção e os 27,5%. Além do mais, há outros itens que esse imposto leva em conta, como a quantidade de dependentes e afins, tudo pra tentar garantir que os desiguais sejam tratados de formas desiguais no quesito das suas desigualdades. Justo, não? Uma pessoa que recebe um salário mínimo não deve pagar o mesmo que o Eike Batista paga.

I need feminism 
Outro exemplo de igualdade material, mas fora do sistema tributário, são as leis específicas para crianças e adolescentes e também para idosos, afinal, o legislador percebeu que esses dois grupos de pessoas tem certas especifidades e vulnerabilidades, sendo assim, leis específicas tratam o caso deles melhor do que uma lei geral que ignora suas especifidades. A mesma lógica se aplica nos casos das mulheres e dos negros. É fato que uma cultura que afirma que mulheres e negros são inferiores prejudica a participação e a oferta de oportunidades iguais para essas pessoas. As leis específicas visam a efetivação de uma maior participação social dessas pessoas, uma proteção contra discriminações que prejudicam a oferta de oportunidades e a dignidade humana.

A diferença entre o tempo de contribuição para aposentadoria de homens e mulheres é muito usada como crítica ao feminismo e é um bom exemplo para mostrar que a igualdade não é sempre a igualdade formal que sempre é invocada. Os papéis de gênero definidos culturalmente colocam as mulheres numa situação onde elas trabalham fora, como toda a população, e também dentro de casa. O que caracteriza uma dupla ou até tripla jornada, porque o trabalho de casa se estende ao cuidado dos filhos. Enfim, a diferença do tempo de contribuição se baseia no fato de que ainda persiste essa divisão de tarefas que prejudica as mulheres e é uma tentativa de ser justo, afinal, pesquisas indicam que a jornada semanal da mulher costuma ser cinco horas a mais do que dos homens.
Não aguento quando

Há imensos desafios na luta pela igualdade, até hoje a igualação dos salários entre homens e mulheres ainda não ocorreu de fato, homossexuais e trans* não tem seus direitos civis garantidos e por mais que hoje as mulheres tenham o direito de voto e de ser votada no Brasil, o número de mulheres nos representando na política tradicional é muito inferior ao dos homens, o que demonstra que nem sempre só a igualação de direitos do modo "formal" é efetiva. Afinal, a cultura exclui a mulher do espaço público, logo da vida política. Para aumentar o número de mulheres políticas, houve a criação da cota de candidatura de mulheres de 30% para cada partido, o que funcionou parcialmente. Mas mesmo com a existência das cotas, há partidos que tentam burlar o que foi definido, adicionam nomes femininos apenas pra preencher o número de cotas e afins.
Muitas vezes a dificuldade de reconhecer o uso do princípio da isonomia dessa forma substancial está nos nossos próprios preconceitos que se baseiam na mesma cultura que discrimina os grupos que precisam dessa interpretação da igualdade. E muitos dos desafios na aplicação do princípio de forma efetiva está na nossa própria cultura excludente.

Leia também: "Desenhando: Mulheres e crianças primeiro e outros privilégios."

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nota de repúdio à decisão judicial de negar o aborto à mulher com gravidez de risco


Aí você acorda como todos os dias, acessa a internet no seu computador e se depara com uma notícia que atenta contra os direitos reprodutivos da mulher. Acho que isso está virando rotina, sabe? Quando se trata de aborto, o punitivismo é centralizado na mulher. A mulher, essa irresponsável que não se preveniu, que sabia dos riscos, é ela afinal, que deve ser punida. Se preciso for, e muitas vezes é, será punida com a morte. E talvez até com o aval da justiça.

Imagem da página "Nós denunciamos"
O caso mais recente aconteceu em Belo Horizonte. Você pode ler nesse link. Resumindo a situação: Uma mulher portadora de doença cardíaca entrou na justiça para obter o direito ao segundo aborto, devido à gravidez de alto risco. O juiz, alegando ser esse um direito já auferido pela requerente em outra ocasião, passou por cima da determinação legal de que o aborto no país é permitido em caso de risco para a saúde da gestante. Tomou como partido suas próprias convicções. Acusou-a de não se prevenir, acusou-a de ser negligente. E assim, sei lá com que propósito que não seja punir a mulher e torná-la um daqueles exemplos tenebrosos em que a justiça foi algoz de um inocente, um juiz sentenciou uma mulher à morte. Ou melhor, ele aumentou severamente a possibilidade dessa mulher perder a vida, seja por levar até o fim uma gravidez de risco, seja por tentar um aborto ilegal.

Ainda que ela realmente não tenha usado algum método contraceptivo (o que parece ser apenas uma suposição), é preciso notar como é recorrente nesses casos em que se alega "negligência" da mulher (nunca do homem, a contracepção é sempre responsabilidade dela) que ninguém tente entender os processos que levam uma mulher a não se proteger. Não analisam a vergonha que é, por exemplo, para uma mulher comprar camisinha em uma farmácia. É um constrangimento causado pelo julgamento da sociedade e dela mesma sobre si. Sabe por quê? Usar um método contraceptivo, exceto nos casos em que é receitado por médicos por questões de saúde, significa que a mulher faz sexo. E ter uma sexualidade livre, desprendida, bem resolvida, é algo que nossa sociedade reprime fortemente nas mulheres. 

Imagina só que ainda temos o costume medieval de chamar de "puta", a mulher que usa roupa curta, que vai curtir a noite, que é baladeira e principalmente a mulher que gosta de sexo. Ainda chamam de "rodada" aquela mulher que escolheu ter vários parceiros. As escolhas pessoais de uma mulher sobre o assunto "sexo" são cercadas de julgamentos. Se existe a tal negligência com a contracepção ela decorre de um processo de opressão em que mulheres internalizam esses julgamentos e aplicam sobre si mesmas. 2013 bate na porta, mas o Medievo não quer sair, sabe? Tenho ouvido um tanto de gente dizer que "tem mulher que não se dá ao respeito", um pessoal separando mulheres em "para pegar" e para "casar", uma galera falando em "mulher de verdade" (Sério, gente, chega de chorar de saudade da Amélia) e até mesmo em "mulher virtuosa" e tudo isso baseando-se nas condutas sexuais das mulheres. Condutas que dizem respeito apenas a elas. 

Por outro lado, homens não se sentem na obrigação da contracepção. E por favor, entendam que falo do panorama geral e sei que existem exceções. Sabe aquela expressão "golpe da barriga"? Ela é expressamente dirigida às mulheres, porque é DELAS, não deles a função de se proteger da gravidez. Assim, começamos a punir as mulheres antes mesmo da gravidez, apenas por ela ser capaz de engravidar. E é claro, existe também o fato que as mulheres são comumente invisibilizadas em relacionamentos onde há desigualdade de poder e consequentemente, de voz, de ação.

A moça de Belo Horizonte cometeu três crimes terríveis: Engravidou, abortou (legalmente) devido ao alto risco da gravidez, engravidou de novo. Ah não, espera, nada disso é crime! Porém, mesmo não sendo uma criminosa, ela foi condenada por um juiz, mas também por toda uma sociedade que retira das mulheres o poder de manifestar opinião e tomar decisões a respeito de seus próprios corpos. Ao pedir o segundo aborto, ela não está "banalizando" o aborto, ninguém fica feliz de passar por uma experiência traumatizante dessas, ela está apenas requisitando o direito legítimo de continuar vivendo.  Enquanto a sexualidade da mulher for passível desse tipo de comentário, enquanto juízes poderosos acreditarem que mulheres devem sofrer por engravidar, enquanto todo mundo fizer apontamentos sem analisar a opressão que recai sobre as mulheres, casos como o dessa moça serão normais.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E o genocídio dos povos indígenas continua



Ontem, Eliane Brum escreveu um texto intitulado "Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui" que comenta a situação absurda em que os indígenas da etnia Guarani-Kaiowá se encontram. A carta completa pode ser lida aqui.

O extermínio dos povos e culturas indígenas no Brasil não é algo do passado, ainda hoje acontece e encontra aval do Estado, conforme a exposição de Eliane deixa claro. É lamentável como esse processo de extermínio continua e como os grupos indígenas não têm poder de voz. 

O interesse dos latifundiários ainda é considerado algo acima do interesse, cultura e vida dos indígenas. O suicídio, o estupro e assassinato dos indígenas é um problema atual que é invisibilizado pela idéia de que a cultura das tribos é inferior, menos desenvolvida ou qualquer ideia racista como essas.



Os direitos dos indígenas são negligenciados pelo Estado brasileiro. Há previsão constitucional de que o Estado reconhece a cultura, os direitos e as terras deles, mas cadê as ações efetivas que tentem garantir o respeito ao art. 231 da Constituição da República? Nem mesmo a Justiça Federal, parte do poder judiciário do Estado, faz sua parte, pelo contrário, alimenta ainda mais a situação de injustiça. Poucos direitos foram conquistados após a promulgação da Constituição, alguns povos foram reconhecidos, algumas terras foram demarcadas, mas há diversas ações tramitando na justiça contra essas demarcações. 

Há ainda uma Proposta de Emenda à Constituição que tem apoio da bancada ruralista e evangélica do Congresso que se sancionada prejudicará não só as terras indígenas, mas também a dos quilombolas, o próprio meio ambiente e o que ela propõe também é um atentado a separação de poderes, componente do próprio Estado Democrático de Direito. A PEC 215 foi considerada inconstitucional pela associação dos juízes pela Democracia. 


Vídeo vinculado também nessa matéria.

Vídeo vinculado também aqui.

Assinem a petição a favor dos direitos da etnia Guarani-Kaiowá, aqui
Texto "Batalha das ideias: Ser índio em tempos de mercadoria", aqui
Índia Guarani-Kaiowá é estuprada por oito homens, notícia aqui
E assinem essa aqui também, que é contra a PEC 215 citada no corpo do texto. 
Atos em São Paulo em apoio aos indígenas da etnia Guarani-Kaiowá, aqui, aqui e aqui. (Não sei se eles vão se unir ou não, só procurei os links pra divulgar).
Ato em Belo Horizonte, aqui. Ato em BH, aqui
Ato carioca, aqui
Marcha em Brasília, aqui