sexta-feira, 27 de abril de 2012

Guestpost: Minha cor não é insulto, seu racismo sim


Diante da decisão favorável de ontem do STF sobre a constitucionalidade das cotas para negros  que julgou improcedente a ação movida pelo DEM e da proximidade do mês de maio,  em que a abolição da escravatura vergonhosamente completa apenas 124 anos, o Ativismo de Sofá inicia uma série de textos sobre a questão racial. O primeiro post, não poderia deixar de ser um guestpost de uma leitora muito querida, a Laís.

Minha cor não é insulto, seu racismo sim

Durante a minha adolescência, em uma discussão com alguém que eu detestei durante meses à época, vomitei furiosamente todos os motivos que me levavam a não suportar a sua presença na minha vida:

“Você sempre mentiu, foi arrogante e nunca teve escrúpulos e nem o mínimo de competência pra pelo menos passar despercebida quando fazia intriga. Até porque o que te sobra em inveja, falta em cérebro, né?” – concluí, abusando de todos os clichês que fazem uma adolescente desprezar alguém.

Ela corou de raiva. A respiração ficou mais intensa e eu já estava ansiosa para saber quais eram os meus defeitos mortais aos seus olhos. Afinal, meus amigos sempre me mostravam minhas qualidades, mas ninguém melhor que um inimigo pra apontar meus defeitos. A princípio ela gaguejou, ameaçou três ou quatro vezes dizer algo e parou. Até que berrou de vez:

“Sua preta! Você pode falar o que quiser de mim, mas eu sou branca, tenho cabelo liso e não fico com a perna russa quando sento no chão. Nem tenho suvaco preto.”

Eu parei um instante. Era isso mesmo? Ela estava realmente achando que dizer que eu sou negra ia me ofender? Era essa a brilhante resposta e o maior dos meus defeitos? Pois é, era. Obviamente depois de ouvir aquilo eu dei uma das gargalhadas mais gostosas da minha vida. E parei de detestá-la, porque a única coisa que ela merecia era pena, e orientação, é claro.

 Nesse estranho mundo hipócrita em que vivemos, há a certeza de que chamar alguém de preto, crioulo, neguinho, é a maior das ofensas, desqualifica o caráter, reduz o interlocutor à sua posição de “direito”, porque ele DEVE lamentar todos os dias ter nascido negro.

Imagem da exposição "Olhares cruzados"
Bem, deixe-me então esclarecer uma coisa: isso não é ofensa. Sou negra, preta, neguinha, e não tenho o menor problema com isso. Apontar o dedo e informar que essa é a minha cor ofende tanto quanto dizer que eu tenho um nariz, por exemplo. Não há xingamento, não é humilhação. O que incomoda é o racismo, é saber a carga de ódio infundado que há por trás de quem profere essas palavras em tom de insulto. O que ofende é a ignorância de quem sustenta o dedo que aponta.

Mas quem dera que apenas os meus inimigos chegassem à conclusão de que dizer que alguém é negro é ofensivo. Quem dera que esse conceito fosse apenas dos ignorantes e dos assumidamente racistas. Infelizmente, meus amigos mais íntimos e até a minha família – que tem a mesma cor de pele que eu – demonstram constantemente o outro lado da moeda desse tipo de preconceito.

“Ah, mas você não é negra, você é moreninha” – essa é clássica, as pessoas realmente acreditam que negro é uma palavra forte, de carga negativa, e usam esses eufemismos para parecer mais carinhoso com uma pessoa querida. Então... não é.

“Seu cabelo é bom, não é cabelo de preto” – eu sei que meu cabelo é bom, ele nunca maltratou ninguém. Mas por favor, né? Já deu desse papo de chamar cabelo crespo de cabelo ruim. E também de achar que esse tipo de fios não nasce na cabeça gente branca, e que fios menos encaracolados não nascem em gente negra.

“Mas seu bisavô era branco, então você não é negra, é mestiça” – teoricamente quase todos somos mestiços, pelo menos no Brasil. Mas ter um parente distante de outra etnia não muda a forma como eu sou, como a sociedade me vê e, principalmente, como EU me identifico. Minhas vivências e a minha aparência física são de uma mulher negra, então é isso que eu sou.

“Mas a sua gengiva é rosinha, quem é negro tem a gengiva mais puxada pro roxo e pro marrom” – Ok, acho que essa eu nem preciso justificar, né? Mas é só pra compartilhar com vocês o tipo de coisas que somos obrigados a ouvir, e as risadas que algumas delas causam também, é claro. Ah! Essa pérola foi dita em sala de aula por uma professora... negra. De gengiva rosinha também.

Bom, piadas à parte, o assunto é sério. O racismo é rodeado de facetas, de mitos esdrúxulos e de boas intenções. Seja no dedo em riste de quem vocifera “crioulo!” ou no sorriso meigo de quem chama uma negra de “moreninha linda”, ele se manifesta e se propaga no nosso cotidiano, nos nossos adjetivos, no nosso caráter. Negro não é xingamento, negro não é elogio também. É apenas uma característica, e a carga que se dá a ela vem do racismo nosso de cada dia, esse sim deve ser jogado fora JÁ, independentemente da forma como ele se mostra em cada um.

*Sou Laís Rangel, mulher, negra, 22 anos, estudante e estagiária de jornalismo e fã nº 1 do Ativismo de Sofá, é claro.

2 comentários:

  1. texto forte! gostei muito! parabéns para a autora!

    Mari

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  2. Qee..Lindoo esse textoo

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