segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não salva fetos. Mata mulheres.


Ontem, 28 de setembro, foi o Dia Latino Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto. Em várias cidades do país, mulheres foram às ruas para reivindicar o controle sobre seus direitos reprodutivos. Em São Paulo, cerca de 200 feministas ocuparam a Avenida Paulista para lembrar que o assunto é da esfera da saúde pública e que o Estado Laico, ao descurar desse direito, assume a morte de mulheres sujeitas ao aborto clandestino.

Com esse enfoque, o "Cortejo da Mulher Morta em Aborto Clandestino - Pela Legalização do Aborto" fez coro em lembrar que é a mulher pobre, sem acesso aos procedimentos seguros que fica mais vulnerável pela proibição.

Um caixão, carregado por ativistas clandestinas, tratava do assunto em primeira pessoa, como deve ser. É preciso humanizar a mulher que opta pelo aborto. O pensamento moralista de que a gravidez, e consequentemente um bebê, é punição para a mulher que faz sexo desconsidera a participação de um homem na concepção. 

A realidade é que a proibição legal, retrógrada e incoerente, não inibe que as mulheres abortem. Você conhece alguma mulher que abortou? Provavelmente você não sabe, mas sim, você conhece. Mais de 800 mil mulheres se submeteram ao procedimento no Brasil. Dessas, há estimativas de que a cada 2 dias, uma morre. Muitas outras recorrem aos hospitais pelas complicações ocorridas no procedimento.

Elizangela tinha três filhos e não queria o quarto. Jandira tinha dois e não queria o terceiro. E em nome da legislação que protege um feto, mais duas mulheres perderam a vida. E, vamos calcular, cinco crianças ficaram órfãs. 

Nota como a proibição não salva fetos? Mata mulheres! E, repise-se, mata uma a cada dois dias.

A desonestidade com que se defende a proibição é vergonhosa. Uso de imagens de crianças já nascidas. Uso de imagem de fetos já formados, com muito mais semanas de vida do que se defende como seguro. Tratamento da mulher como mero receptáculo salvador. Uso de dados falsos, vídeos falsos e nenhum aprofundamento nos argumentos, trazendo rasos argumentos baseados no moralismo fundamentalista e no senso comum. 

Métodos contraceptivos falham. Fetos sofrem anencefalia. Mulheres são submetidas à estupro. Gravidezes provocam riscos de vida. Mulheres não podem, ou não querem, ter filhos. Não importa qual motivo, a escolha não cabe ao pensamento moralista e individual. A escolha é de cada um.

Essa, que é a pauta mais polêmica do feminismo na atualidade, é a nossa luta. Pelo direito ao aborto seguro, legal e gratuito. 

Instruções de uso:
1. Pegue uma pedra
2. Julgue
3. Atire
"Eu abortei"

Numa tarde, caminhando de luto sob o Sol, rememorei vários sentimentos. Naquele caixão, logo ali na abertura do ato, eu poderia ter sido enterrada. Quem estaria no meu cortejo? Quantas pessoas me julgariam por ter feito sexo. Diriam que eu procurei isso, que não me protegi. Poderiam até afirmar que eu mereci, que fui suicida. Que paguei com minha vida por ter esquecido da proteção. Não acredito que alguém perguntaria qual o segundo sujeito da gravidez que para mim era indesejada. "Cadê o homem que engravidou? Por que o crime é da mulher que abortou?"

Poderia ser eu, naquela vez que aliviada comemorei a vinda da menstruação. Poderia ser eu se não tivesse recurso de ter tomado, uma vez na vida, a pílula do dia seguinte. Poderia ser eu, caso a camisinha furasse. Poderia ser eu, caso a pílula anticoncepcional falhasse. Poderia ser eu, mulher adulta que trepo. Que ando pelas ruas insegura. Eu, que vivo num país em que o aborto é proibido e criminalizado. Penso que poderia ser eu quando leio notícias sobre a prisão de mulheres. Penso que poderia ser eu e sinto pela morte de Jandiras e Elizangelas. Eu só tive um pouco mais de acesso à informação e aos contraceptivos. Eu só tive um pouco mais de sorte de que eles não falhassem.  

*Aborto legal, seguro e gratuito não é apenas direito das mulheres, homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar. A reivindicação é para todas essas pessoas. E nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero.

6 comentários:

  1. Nós podemos mudar!

    Proposta para debater a legalização do aborto feita no Portal e-Cidadania, caso atinga mais de 20 mil assinaturas é obrigatório que algum senador pegue o projeto para discussão. O Projeto entra na Comissão de Direitos Humanos e Cidadania, comissão ideal para iniciar este debate.

    https://www12.senado.gov.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=29984

    Para apoiar este projeto é fácil, acesse o link, preencha as informações solicitadas clique em "Eu Apoio". Será enviado um e-mail de confirmação, entre no e-mail e confirme seu apoio.

    "São muitos os motivos pelos quais brasileiras interrompem uma gravidez. Os mais comuns são para adiar a gravidez para um momento mais adequado ou para concentrar energias e recursos em crianças já existentes. Algumas mulheres, no entanto, são incapazes de cuidar de um filho, quer em razão dos custos diretos, ou devido à ausência ou falta de apoio de um pai. Outras desejam planejar para proporcionar uma melhor educação para seus filhos no futuro. As gestantes também podem possuir graves problemas de relacionamento familiar, ou se considerar jovens demais para se tornarem mães. Não raramente, abortos também são resultado de pressões sociais: para uma mulher, pode ser insuportável o estigma de ser mãe solteira ou mãe precoce. A insuficiência dos programas de apoio financeiro para as famílias, a falta de acesso ou a rejeição a métodos contraceptivos, e a estigmatização de pessoas com deficiência também são fatores que podem resultar em aborto obrigatório ou seletivo. A atual legislação vitimiza a mulher, tornando-a refém de clínicas de aborto clandestinas. Não obstante, estimativas do Ministério da Saúde apontam a ocorrência de 1,25 milhão de abortos ilegais, ao ano, no Brasil."

    Divulgue esta ideia, 20 mil assinaturas e veremos este debate acontecer!

    https://www12.senado.gov.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=29984

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  2. Depois da pilula do dia seguinte todo esse alvoroço perdeu o sentido!

    Fica parecendo que voces querem simplesmente transar adoidado e matar a vontade.
    Isso não parece sensato e só faz atiçar os radicalismos!

    Eu por exemplo cheguei a conclusão que aborto só até a quarta semana, apartir dai o
    coraçãozinho já começa a se formar. Coração é um signo universal muito forte!

    Portanto não sejam criaturas sem coração!

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    1. TODOS OS MÉTODOS CONTRACEPTIVOS FALHAM, até mesmo a pílula do dia seguinte! Se informe, cara!

      A maioria das mulheres que abortam no Brasil já são casadas, tem outros filhos, então para de blablabla de julgar o comportamento sexual das mulheres, porque isso não faz sentido, já que olha só esses números aqui ó: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3404

      Por que sua conclusão tem que estar acima das dos médicos que colocam até 12 semanas por causa da formação do sistema nervoso central?

      Sabe o coração? Então, quando uma pessoa tem morte cerebral (SNC não funciona mais), mesmo se o coração tiver batendo, a pessoa é declarada morta. E morreu mesmo. Então não fala bobagem, cara.

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    2. Eu sei que voce gostaria muito de impor seu ponto de vista mas encare a realidade não vivemos de forma radical nem de forma perfeita. Por isso eu digo, de todas as mortes de mulheres e fetos vamos salvar logo as que podemos. Minha fala principal é: os radicalismos nos deixam num impace eterno. É quase como se gostase-mos de ver vidas se perderem inutilmente enquanto ficamos de blablabla!.

      Sem radicalismos, 4 SEMANAS, sem coração, sem sangue, sem covardia! Depois disso é cria! Vamos lutar por isso e salvar as vidas que podem ser salvas hoje!

      Ainda na linha do sem radicalismo e sem confusão, anencefalia e anomalias é outra discussão. Creio que o foco do debate é a agravides puramente insesejavel, inconveniente, inesperada.

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    3. Gabriel, não sei como te falar isso, mas se você é contra a legalização do aborto, você é que a pessoa que gosta de ficar de blablabla, enquanto mulheres morrem vítimas de abortos clandestinos. (E quando uma mulher morre no aborto clandestino, o embrião/feto não tem como se desenvolver, né? E perde a viabilidade de nascer).

      Enquanto você discute com o anônimo quando começa a vida, a vida de pessoas se perde por causa da legislação restritiva que mata.

      No mais, até quatro semanas, muitas grávidas sequer sabem da sua gravidez, porque o ciclo menstrual ás vezes tem suas variações. Por exemplo, no primeiro mês de gravidez, em alguns casos tem até um pouco de menstruação, sabia? Chega atrasada, bem pouquinha, mas vem e muita mulher acha que não está grávida por isso e demora mais um tempo para descobrir. Só que você, como homem cis, sem útero, não sabe disso, né?

      No mais, a maioria das legislações que legalizaram o aborto no mundo para os casos que simplesmente a gravidez é indesejada colocaram como limite 10 ou 12 semanas, justamente por causa da formação do sistema nervoso central. De certa forma, apesar das polêmicas presentes no assunto, existe sim um posicionamento majoritário, que é esse que o anônimo trouxe.

      Assista esse hangout que fala sobre legalização do aborto e o direito de decidir na perspectiva de especialista em Bioética e Saúde Coletiva https://www.youtube.com/watch?v=aXLwnCGXUDA&feature=youtu.be

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    4. "Não sejam criaturas sem coração" falou o homem que nunca vai poder engravidar e que ainda quer cagar regra no corpo feminino alheio.

      Parabéns, filhote.

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