terça-feira, 29 de maio de 2012

O corpo é meu! O Facebook não é nosso!


A marcha das vadias lavou minha alma. Lavou a alma de muita gente. Eu não sei muito bem o quanto eu precisava daquele momento na minha vida, eu sei que ele foi muito importante para mim. Desde que eu conheci o feminismo e fui lentamente tomando consciência de todas as pequenas violências que sofria, que tolhiam a minha liberdade em muitos aspectos diferentes, muita coisa foi embora de mim. Mas principalmente muitas pessoas foram embora. Só que ao mesmo tempo, eu não me sentia só. E nesse sábado eu não estive só mesmo. Cerca de três mil pessoas em Brasília estiveram comigo, botando para fora em alto e bom som muito daquilo que dizemos todos os dias discretamente: queremos ser respeitadas e isso independe da forma como falamos, nos vestimos (ou não nos vestimos), nos relacionamos. Só que muita gente por aí nem sabe o que o verbo respeitar significa. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF
Aquela velha história de que mulher tem que se dar ao respeito carrega uma carga de machismo e moralismo tão grandes, que eu juro que não entendo como eu não consegui enxergar isso até alguns anos atrás. "Se dar ao respeito" não é respeitar suas escolhas, suas preferências, sua liberdade de ir e vir, de agir como quiser... Via de regra, "se dar ao respeito" é repetido por aí como sinônimo de privação de liberdade individual. Se você usa roupa curta, não se dá ao respeito. Se tem vida sexual ativa, goza e gosta muito, não se dá ao respeito. Se não tá afim de um relacionamento afetivo monogâmico, não se dá ao respeito. Se anda ficando com quem tá afim sem pensar em namoro, não se dá ao respeito. Respeito é uma palavra que precisa ser ressignificada. Respeito, como é repetido por aí, está diretamente ligado à invisibilidade da sexualidade feminina. Eu sou vadia e me dou ao respeito. 

Respeito não se pede, se conquista. Exigimos que nos tratem com respeito, e fazemos isso sem implorar de pernas e bocas fechadas, mas mostrando para a sociedade o quanto a sua noção de respeito é falha. Para isso é preciso união. É como nós gritamos na marcha: "Ah! que é isso! Elas estão organizadas!". E estamos mesmo, cada vez mais. E estamos conseguindo visibilidade também. Um movimento nacional que só em um final de semana reuniu cerca de 10 mil pessoas? Isso não passa despercebido. E com certeza aumentaremos em número e em consciência. Feminismo é um aprendizado constante. 

Foto da fan page da Marcha das Vadias DF 
Entretanto, a luta ainda é necessária. Prova disso é a forma reacionária e moralista como o facebook tem encarado as fotos das mulheres que estavam na marcha com os seios de fora. Que fique claro: não são fotos pornográficas. Seios não servem apenas para entreter os homens, mostrar os seios na marcha é uma atitude política, porque o nosso corpo não é apenas sexual, ele é político. Ele é tão político, que em alguns países as mulheres precisam escondê-lo inteiramente ou podem morrer caso não façam. O facebook parece ignorar essa característica e tem apagado sistematicamente as fotos das moças de topless. Infelizmente, a mesma rede social que apaga fotos não pornográficas de mulheres exigindo uma sociedade mais justa, não apaga imagens racistas, homofóbicas ou misóginas. Ultimamente nem tenho mais usado a opção "denunciar" do Facebook, tenho ido direto ao safernet e à PF denunciar esses conteúdos. Isso posto, é de se perguntar porque a nudez choca mais que a violência cotidiana. 

Foto da jornalista Luka Franca
censurada pelo Facebook
Não é a primeira vez que isso acontece no facebook, em outro momento fotos de mães amamentando foram retiradas arbitrariamente da rede social. MÃES. AMAMENTANDO. O corpo feminino é sempre sexualizado ainda que ele não seja usado para fins sexuais. Me diga, você se alimenta cobrindo o rosto? Porque um bebê precisa se cobrir para se alimentar? Foi necessário protestar com mamaços virtuais para o Facebook permitir fotos de mães amamentando seus filhos. Se você acha que o Brasil é um país libertário em que tudo pode, pense de novo. Não é bem assim, a onda conservadora que assola o país também esbarra nos nossos corpos. por isso é preciso gritar: "Meu corpo, minhas regras!" Fazer ouvir a voz de quem nem sempre, no dia-a-dia pode externar esse sentimento sem receber toda sorte de julgamentos morais. 

Ao contrário dos homens, que ao sentir calor não pensam duas vezes em tirar a camiseta, mulheres não tem esse privilégio. Guess what? Mulher também sente calor. Mas toda a nudez feminina será censurada. Toda nudez será objetificada, será rotulada, será retirada dos perfis do Facebook como se fosse ofensa. E ofende também o fato de que nem sempre os seios exibidos são durinhos, apontem para cima, caibam na mão. Com certeza o peitaço no fim da marcha das vadias de Brasília foi o final perfeito para a marcha de um movimento libertário como o feminista, porque contradiz essa idéia de que a mulher é um pedaço de carne. O nosso corpo não é inerte, não é produto, não é objeto, ele também fala por nós.  Lamentamos profundamente que a maior rede social do mundo tenha uma visão tão tacanha do corpo feminino.

Foto por Leiliane Rebouças

15 comentários:

  1. Ótimo texto, Gizelli.
    O feminismo liberta as mulheres, e também liberta os homens. Sou de Campinas, e em setembro de 2011 acompanhei a organização e a marcha em si, como um observador e fotógrafo, já que o movimento é construído por mulheres. Ouso dizer que mudou mesmo a minha vida, ver tantas mulheres pararem o centro da cidade e tomares as rédeas de seu próprio corpo (que é um direito tão, mas tão básico!).

    Enfim, o facebook nos proporciona ótimos canais de contato, mas infelizmente o conservadorismo é uma onda que só vem crescendo. Mas acho que devemos nos apoiar em blogs e outras plataformas pra fortalecer o movimento e discutir idéias.

    Enfim, fico felicíssimo em saber que a Marcha foi um sucesso. Acho que, mais que chamar a atenção do público em geral, ela serve pra despertar a consciência política e libertária em cada mulher, reascendendo assim a chama feminista.

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    1. Aliás,
      taqui outro texto bacana sobre o mesmo tema: http://jezebel.uol.com.br/postar-foto-com-os-peitos-de-fora-e-ativismo-para-ela-mas-para-o-facebook-e-pecado-capital/

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    2. Eu li esse texto quase na mesma hora que você postou ele aqui! Muito bom mesmo.

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  2. Só existe facebook no mundo?

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    1. Claro que não! Ninguém disse isso ;)

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  3. Nada no corpo de ninguém deverá servir de entretenimento para ninguém, mas não podemos ser hipócritas ao não considerar o interesse sexual manifestado pelo sentido da visão. Mas afinal? Estão querendo negar o que a natureza criou?

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    1. Manifestado pelo sentido da visão? Tem certeza? Tem certeza que é a sua visão que sexualiza determinadas partes do corpo e outras não? Tem certeza que não é a cultura que dita quais partes do corpo podem ser mostradas e quais não?

      De maneira nenhuma estamos negando o que a natureza criou, pelo contrário, nós estamos expondo o que a natureza criou. Peitos. Assim, simplesmente. Os outros é que estão querendo que a gente esconda o que a natureza criou por causa do que o homem (e a igreja) criaram: A vergonha.

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  4. Li um comentario num outro blog sobre est mesmo tema, e o cara alegava q vcs deveriam pensar antes d tirarem a roupa, pq existem estupradores e homens c problemas psicologico, etc. Não consegui comentar la,mas se existem estes doentes eles é q devem ser tratados e não as mulheres se adequarem a doença deles. No caso de estupradores devem ser punidos tbem.

    Outra alegação era q se vcs mostram os seios eles podem mostrar o pênis.Mas protestando contra o q? Eu me pergunto.

    Parabéns a todas q participam desta marcha. Dia 1 junho estará aqui em Aracaju.

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    1. bom, tem 2 pontos aí: pênis não é o equivalente de seios. não vi nenhuma manifestante com a vulva de fora. segundo ponto: mesmo que tivessem manifestante com a genitália aparecendo (particularmente eu acho válido, homens e mulheres nus não me ferem e é uma forma de transgredir, acabar com tabus, vergonhas... praia de nudismo rlz) não é a mesma coisa mostrar para contrariar a marcha. aquele babaca que foi preso em brasília e quase apanhou da mulherada, por ex, estava numa atitude de afronta ao movimento, querendo reforçar o status quo.

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  5. Não sei porque divulgar as fotos da marcha no Facebook.

    O que a rede social do Grande Irmão, quer dizer, de Mark Zuckerberg ajudou na marcha? NADA!

    E olha só como o Face está tratando vocês. Eu levaria isso em conta da próxima vez.

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    1. po, as marchas foram organizadas e divulgadas por lá

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  6. a marcha das vadias me deu forças pra lutar pelos meus direitos, por mais que o facebook diga que peitos de fora são imorais, eu vejo como libertadores.

    Mari

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  7. Nossa, que absurdo essa notícia.

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  8. Eu tenho direito de ser feminista e não mostrar meus seios por achar uma particularidade minha e não gostaria por nenhum motivos mostra-lós a ninguém. Nos temos seios os homens tem peitoral e é diferente e tem estudo psicológicos porque homens heteros e mulheres lesbicas tem atração por seios. Apoio a liberdade da gente poder vestir o que quiser, como mostra as primeiras fotos e tbm a liberdade de amamentar os filhos sem nenhum idiota incomodando, mas mostrar meu peito não me empodera de jeito nenhum, muito pelo contrario

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    1. Eu sou feminista e nunca mostrei os seios num espaço público, porque isso não é empoderador PARA MIM, Anônima. Mas eu sei que para algumas mulheres é. E eu que não vou julgá-las por isso. E o texto não diz que mostrar os seios é empoderador para todas, diz que é para alguns e que isso tem um significado dentro de um espaço político.

      No mais, estar sem blusa e sem sutiã numa Marcha das Vadias é uma performance. Esse ato diz que nenhuma mulher merece sofrer uma violência, ou provocou a violência que sofreu. Nem mesmo peitos nus justificam um estupro, sabe?

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