sábado, 18 de maio de 2013

Tentativas de silenciamento: mulheres caladas agradam o patriarcado.


Quem milita pelo feminismo (ou outras causas) e é mulher já ouviu muitas vezes algumas frases que mesmo sendo completamente diferentes querem dizer "cala a boca". Tais frases são uma tentativa de desqualificar nosso discurso e nos calar.

A Lídia Freitas escreveu um texto sobre uma das formas de tentar nos silenciar que foi publicado como guestpost aqui, nele ela fala sobre feministas serem consideradas chatas e os lugares da fala. Mas as tentativas de silenciamento são várias e eu decidi que vale a pena destrinchá-las.

Chamar de histérica, irracional, agressiva, louca do útero, e perguntar se você está de TPM são desqualificações de discursos muito comuns se você é uma mulher cis e parte de uma ideia de que o organismo dito feminino é instável, beira a loucura e afins. Um discurso antigo, que sempre retorna com a finalidade de colocar as mulheres como inferiores. Aparentemente, quem usa qualquer uma dessas palavras numa discussão, desqualifica sua voz simplesmente por você ter o organismo dito feminino e acredita que tudo que você diz é fruto de "seus hormônios loucos".

Outra tentativa de silenciamento muito comum é quando começam a opinar sobre sua aparência física, inclusive às vezes acontece desse silenciamento ocorrer em forma de (um suposto) elogio. Exemplo: "Você é bonita para uma feminista". Mas o mais comum acontece com fins de ofender mesmo: avaliam seu corpo, seu rosto, seu peso, sua altura, seu cabelo, suas roupas, se você se depila ou não etc. Esse tipo de desqualificação é sintomática, mostra como mulheres tem uma função essencial na nossa sociedade: a de enfeitar e como os homens acreditam que suas opiniões sobre nossa aparência PRECISAM ser faladas.

Há formas não óbvias de deslegitimar o discurso proferido por uma mulher como o paternalismo. Nesses casos, o machista só quer seu bem, ele diz que sua militância é coisa de mulher chata, que vai afastar os homens (como se todas nós fôssemos hétero, né? E como se a gente PRECISASSE de homens para conseguir ter uma vida com sentido). O paternalismo muitas vezes se desdobra nos supostos elogios do tópico acima. E muitas vezes são puros exemplos de mainsplain/homexplicanismo.

Queria comentar também do famoso "você é muito racional para uma mulher" que surge em alguns debates. É um suposto elogio extremamente misógino que me lembra a infância. Sabe quando você, menina, ganhava em algum jogo de um menino e todo mundo zombava dele porque ele perdeu de uma menina? Então. Misoginia e machismo sendo ensinados desde cedo e que se desdobram nesses "para uma mulher, você até tem tal qualidade".

Há também o "você precisa de pica", "você precisa de um homem", que eu considero assustadores. Essa visão de que uma mulher que profere um discurso precisa de pênis tem muito a ver com a cultura do estupro. Afinal, o pênis seria uma forma de corrigir/punir/ a mulher que está fora de seu lugar e assim ensiná-la seu devido lugar. Acho assustador, além de heteronormativo e transfóbico. E também há o "mal amada" e o "mal comida", que mais uma vez nos resume a apenas complementos dos homens, como se todos nossos sentimentos, insatisfações, sonhos e medos se resumissem a isso.

E claro, tem a versão imatura dessas tentativas de silenciamento (não que as outras não sejam), como o "vai lavar louça/roupa". chamar de vadia e outros termos do tipo, que só demonstram como que a voz das mulheres não é desejada, esperada e bem vista. Mulher boa é a mulher calada. A mulher que não denuncia, não reclama e se fala, só concorda com o status quo.
Alguns tweets que são a base desse texto.

Na história, muitas palavras foram usadas para se referir às mulheres para desqualificá-las: quando queríamos votar e participar da política, isso nos era vedado com as mais diversas justificativas: as paternalistas como "vocês são puras demais para esse assunto" e "nós só queremos proteger vocês desse mundo", as misóginas e machistas que simplesmente diziam que não servíamos para isso, que isso nos distrairia das nossas "reais funções", como o cuidado da casa e dos filhos. E também havia quem colocava o útero, o ovário e afins como um impedimento para que mulheres fossem racionais. As tentativas de silenciamento não ficaram no passado, infelizmente ainda são atuais o suficiente pra gente sempre ter que se lembrar que não devemos nos calar.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Comer é necessário, Vogue.

"Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil". - Naomi Wolf


O Dia Internacional Sem Dieta acontece todo seis de maio e simboliza um pouco da luta das vítimas de transtornos alimentares para se curarem. Esse dia propõe celebrar a aceitação de todos os tipos de corpos e questionar o padrão de beleza e as discriminações decorrentes dele, como a gordofobia.

Enquanto a existência dessa data especial demonstra uma preocupação com os transtornos alimentares e suas vítimas, a sociedade continua a alimentar justamente o contrário que essa data prega: uma exaltação ao corpo magro, um incentivo às dietas e obsessões com o corpo inatingíveis. E é por isso que repudiamos a publicação da Revista Vogue intitulada "Comer pra quê? Fazer jejum está na moda. Saiba mais sobre a dieta da vez".

Irresponsável, prejudicial, lamentável é o mínimo que se pode dizer sobre essa reportagem que já no título tenta vender uma dieta que questiona a necessidade de comer. Dizer que ficar sem comer está na moda é glamourizar um sintoma frequente de anorexia e banalizar essa doença que atinge diversas pessoas, principalmente mulheres jovens. A nova tendência da moda é a de sempre: incentivar a busca por um ideal de corpo inalcançável, a qualquer custo. E a Vogue aprova e publica, mas sem esquecer de adicionar um "Só faça se tiver acompanhamento médico", como se adicionar essas palavras fizesse desaparecer a irresponsabilidade da publicação. Dizer que ficar sem comer dez dias do mês é válido é fazer uma campanha contra a saúde das mulheres.

O uso da palavra jejum para designar a dieta é fácil de relacionar com a ideia de penitência. A mulher é sempre condicionada a sofrer em nome de diversas coisas: por amor e pela beleza são as principais. Incentivar dietas altamente restritivas em nome de um ideal de beleza é colaborar com a ideia de que o sacrifício, por ambos, está ligado ao que é desejável para a mulher no patriarcado. A mulher que não se sacrifica é vista como desleixada e preguiçosa, coloca-se a dor e o sofrimento como uma motivação para a buscar ainda mais o ideal. E esse estigma não atinge só mulheres necessariamente, já que a sociedade vê todos que estão acima do peso como preguiçosos e trata de culpá-los e dizer que o sacrifício deles não é suficiente, alimentando ainda mais essa cultura de ódio a diversidade de corpos e sua consequência: oito milhões de estadunidenses (sete milhões mulheres) tem algum distúrbio alimentar. Um número incerto, visto que a maior parte das vítimas desses distúrbios não buscam tratamento e assim não fazem parte das estatísticas.

Garotas veem mais de 400 propagandas por dia
que dizem como elas devem aparentar.

O corpo designado feminino é alvo de muito ódio: ele é objetificado, só valorizado se considerado bonito, o cheiro que advem dele é considerado ruim e os pêlos que o cobrem vistos como anti higiênicos. A sociedade aponta defeitos em nossos corpos o tempo todo. E esse incentivo insano à dietas é mais uma face dessa misoginia.

E a Vogue, junto com outros veículos midiáticos, diz que é necessário ser magra a qualquer custo o tempo todo. Dizem isso através de fotos e matérias que dizem que só a magra pode vestir as roupas daqueles editoriais, que apenas a magra é bonita e feliz, reportagens que incentivam dietas, propagandas "vendendo" remédios de emagrecimento como se fossem inofensivos ou dizendo "comer pra quê?". Enquanto isso mais e mais mulheres aprendem e continuam a se odiar e a pensar que o "qualquer custo" é um preço justo a se pagar. 

E o Ativismo de Sofá repudia não só essa publicação, mas todas as que concordam com essa cultura de ódio.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O véu, o feminismo e a questão da escolha


Primeiro, falemos de islamofobia. Meu conhecimento é parco sobre o assunto e eu já adianto que ainda não consigo ver muito daquilo que nomeiam dentro de tal escopo como sendo islamofobia de fato. Mas, seria injusto negar que ela existe. Seria injusto, por exemplo, quando pensamos na cobertura absurda que a mídia faz a cada ataque que acontece no império (aka EUA). Pensemos em Boston. Para além do racismo evidente - CNN e zárias outras emissoras amplamente divulgando os suspeitos como sendo "de pele escura", para só depois descobrirmos que os suspeitos são (um era) quase duas brancas de neve - o que salta aos olhos no tratamento que se dá ao caso é uma crassa e latente islamofobia. 





No dia seguinte ao ataque, uma mulher muçulmana foi socada na rua, aqui nos EUA. Simplesmente por ser muçulmana. O soco partiu de um homem que gritou "F**am-se, muçulmanos! Vocês estão envolvidos nas explosões de Boston!". Há ainda que se salientar o fato de que, para a mídia, "terrorismo"é só aquilo que parte de muçulmanos. Esse esforço em rotular todo crime cometido em nome da religião de Maomé como "terrorismo", ao passo que se rotula crimes cometidos por fundamentalistas cristãos como "doença mental", é sintomático de como a islamofobia vem agindo no imaginário ocidental. Já ouvi inclusive a frase "nem todo muçulmano é terrorista, mas todo terrorista é muçulmano" e demorei um tanto a perceber quão grosseiramente ela enseja um juízo de valor tendencioso: a religião muçulmana traria em si o gérmen da violência. Como se todas as outras religiões que existem no mundo estivessem a tocar harpa, bebendo vinho e sorrindo, dançando abraçadinhas, em plena comunhão. 

"Então agora podemos esperar uma busca massiva pelos reguladores, gerentes e CEOs responsáveis  pela (ainda maior) matança no Texas? "Oh, isso não é terrorismo, é só capitalismo"

Segundo, falemos brevemente do Femen. É a primeira vez que me manifesto abertamente acerca do assunto, e não tenho muito a dizer. Antes de mais nada, quero deixar claro que acho lamentável o slutshaming que tem sido direcionado à Sara Winter há tempos. É péssimo abrir páginas de discussão e ver as pessoas esculhambando a Sara unicamente por sua atitude de mostrar os seios. É insuportável ver o falso moralismo que permeia tais comentários. Entretanto, eu não posso me esquivar de reconhecer que o Femen vai totalmente de encontro a tudo aquilo que creio justo e genuinamente feminista. Esse "neo-feminismo", essa mcdonaldização de uma luta social que se transforma em mero produto que tem a mídia como aliada, pra mim não faz sentido. Trata-se de uma instituição que flerta aberta e diretamente com uma direita ultra-reacionária. As evidências são muitas e não há mais como negar que o Femen se pauta por uma agenda fundamentalista. E eu, que já sou bem avessa a instituições, não poderia deixar de fazer coro com todas aquelas que dizem em alto e bom tom: o Femen não me representa!  



Tratarei agora de um terceiro ponto, que é o que me motiva a mal traçar essas linhas: feminismo e islamofobia. Na verdade eu não vou me ater muito ao Femen, mas achei válido mencioná-lo, pois foi o que motivou toda uma discussão que vem acontecendo em torno do tema, ultimamente (ou nem tão ultimamente assim, mas timing nunca foi o meu forte). Foi grande a mobilização em torno do muslimah pride e eu achei muito bonito ver mulheres muçulmanas impondo sua voz ao mundo, rejeitando o rótulo de eternas vítimas que está incutido no discurso feminista ocidental. Sabemos que o feminismo é um movimento plural, que atende um extenso número de demandas. Entretanto, é notável que, mesmo dentro do feminismo, algumas causas ficam mais visíveis que as outras. Eu acho péssimo que a idéia de um feminismo pequeno-burguês, que trata exclusivamente de interesses de mulheres brancas e de classes privilegiadas, tenha tanto destaque. Enquanto as causas de mulheres negras, mulheres trans e não-ocidentais em geral são relegadas a um plano inferior. Tudo isso denuncia o quanto o feminismo, enquanto movimento, ainda carece de análises que englobem a diversidade de vozes e interesses. A intersecionalidade (ver além da mulher branca de classe média) precisa se firmar no cenário geral do feminismo, e o caso das muçulmanas veio como um lembrete dessa urgência. 



Porém, eu tenho algumas ponderações a fazer acerca da islamofobia presente no feminismo. Acredito que qualquer manifestação minha que se dedique exclusivamente a exaltar a atitude dessas mulheres que vieram a público declarar seu orgulho em usar o véu - e apresentar o uso do mesmo como uma questão puramente de escolha - seria um ato de oblíqua diplomacia, e eu prefiro deixar a rasgação de seda de lado. Porque é justamente essa questão da "escolha"que me deixa em estado de alarme - não apenas com relação ao uso do véu, mas a toda e qualquer construção de gênero, advenha ela de "instrução divina" ou não. 


Uma coisa que eu sempre faço questão de enfatizar em discussões online é: concordo que não devemos olhar para as muçulmanas como umas coitadas que merecem ser "libertas" por nós. Acho que respeitar a próxima envolve reconhecer nela a nossa própria humanidade, e isso requer, além de humildade, entender que a pessoa não é alguém que precisa ser "consertada". O sistema está quebrado, não as pessoas. Entender e respeitar é fundamental. 


Entretanto, eu não consigo ver o "feminismo de escolha" como a grande solução para todos os entraves da humanidade. Uma passada por diversos fóruns online me dá a medida do que vem acontecendo hoje em dia: tudo, absolutamente tudo está sendo aceito e justificado pelo viés da escolha. Outro dia eu questionei a "escolha” em um fórum feminista de língua inglesa e isso foi suficiente para que eu fosse hostilizada. Ao questionar a sagrada escolha, eu estaria sendo tão opressora quanto o patriarcado, disseram. Isso muito me entristece. Questionar a questão da escolha enquanto instrumento do patriarcado deixa muita gente na defensiva, e eu acho que é justamente o que vem acontecendo nesse caso em específico. 



Uma busca no google mostra mulheres muçulmanas protestando junto ao Femen. A Amina é muçulmana. Entretanto, a impressão que fica é que apenas as ucranianas loiras estão protestando contra o islamismo, e isso não é necessariamente verdade. Eu já falei que não sou representada, e acrescento que acho bizarro o fato de que elas elenquem apenas mulheres magras e dentro dos padrões de beleza para seus protestos. Mas, eu não posso deixar de achar estranho o fato de que uma grande mobilização tem sido erguida para protestar contra as "feministas etnocêntricas", à revelia do fato de que há sim muçulmanas protestando contra os dogmas islâmicos. Amina, Dana Bakdounis, Ayaan Hirsi, Mona Eltahawy são alguns nomes que eu consigo me lembrar agora, de mulheres muçulmanas que se opõem aos símbolos da religião. 




Desde que passei a me considerar feminista, eu tenho manifestado interesse em entender os símbolos que o patriarcado utiliza para se perpetuar. Sendo assim, eu entendo a indústria da beleza como um símbolo. Esse enfoque obsessivo na aparência das mulheres é um poderoso mecanismo de controle, como bem atesta Naomi Wolf. Também não consigo ver algumas tradições, como a adoção do nome do marido, por exemplo, como algo neutro e inofensivo, como um não-símbolo do patriarcado. Não importa o malabarismo intelectual que possamos fazer para tentar justificar nossas escolhas mainstream - nome do marido, maquiagem diária, depilação por "higiene", roupas austeras ou biquíni - a partir do momento em que nos adequamos a certos moldes, estamos dizendo sim ao patriarcado. E não, eu não estou isenta disso. Saber-se oprimida não implica em transcendência automática de tal condição. 


Entretanto, o questionar é fundamental para toda e qualquer mudança. É bem verdade que nada ocorre do dia para a noite. Porém, essa lógica de que é tudo "escolha"e não compensa esquentar a cabeça com algo que repousa exclusivamente no âmbito das decisões individuais é, pra dizer o mínimo, perversa. Enquanto não entendermos de uma vez por todas que nossas escolhas são permeadas por toda uma questão de aceitação social, sendo que algumas escolhas são deliberadamente mais celebradas que outras, nada muda. E ficaremos dando murro em ponta de faca, insistindo em isentar as escolhas de seu caráter excludente e, por que não, opressor.




Dessa forma, eu acredito que é sim imperativo que o feminismo pare de olhar para o próprio umbigo e dê voz a todas as mulheres. Eu acho ótimo que as muçulmanas tenham se erguido para falar por si próprias. Acho ótimo quando qualquer mulher fale por si própria, por mais que eu discorde daquilo que esteja sendo dito. E é basicamente este o caso aqui: discordo dessa celebração quase cega da escolha. Em se tratando de patriarcado, nós precisamos sim discutir a burca. Assim como precisamos discutir símbolos cristãos, hindus e de toda e qualquer religião que tacitamente dirigem o nosso viver. Que instituição nenhuma se sobreponha à autonomia de uma mulher: eis a minha bandeira. Nunca questionarei a fé de ninguém. Mas os dogmas, esses precisam discutidos. 

"Obrigado por citar o seu exemplo pessoal para enfatizar que você usa o hijab por escolha própria, ignorando o fato de que a esmagadora maioria das mulheres muçulmanas são coagidas a fazê-lo" - Kunwar Khuldune Shahid

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Convivendo com intolerantes.





Acredito que uma pergunta que sempre surge em nós quando começamos a militar em prol de direitos iguais é: como conviver com pessoas intolerantes? 

Eu sei que é bem cansativo discutir com reaças e mascus que não conhecemos, online ou mesmo em salas de aula. Porém, a coisa muda quando se trata de pessoas próximas a nós, seja da família, ou mesmo amizades antigas. Não é raro ver esse tipo de discussão em grupos online, que acabam servindo de momentos de auto-ajuda, mas... a pergunta fica. 


Como lidar? Eu confesso que o meu caso é um pouco mais confortável nesse sentido que o de muita gente. Porque meu contato com muitas pessoas que conheço há tempos se restringe à internet. Morar fora do país tem inúmeras desvantagens mas, em se tratando de evitar atritos diários, eu diria que é uma bênção. 


Porém, mesmo comigo já aconteceu de bloquear/ser bloqueada. Tratavam-se de pessoas queridas. Pessoas que eu queria ter perto de mim, ainda que "perto" significasse apenas curtir status no facebook. Em todos os episódios, ficou a amarga constatação: as diferenças ideológicas entre eu e essas pessoas eram tão imensas, que já não dava mais para tê-las em estima. E assim elas se foram. E eu sofri. E por um bom tempo, eu me perguntei se fazia algum sentido sofrer por alguém que publica comentários odiosos no facebook como se estivesse fazendo um grande favor à toda humanidade. 


Hoje eu vejo que fazia, e faz, muito sentido. Isso de sofrer a perda. Faz sentido porque houve um momento, lá no passado, em que essas pessoas me demonstraram humanidade. Essas pessoas foram legais comigo. Elas me ouviram em algum ponto em que precisei ser ouvida. E eu também as ouvi. Houve troca. Houve sentimentos. 


Porém, nem tudo na vida segue de acordo com aquilo que almejamos. Eu queria dizer "nada" ao invés de "nem tudo", mas prometi a mim mesma que serei mais otimista. Então, chega um momento em que precisamos, de verdade, fazer escolhas. E não digo "escolhas" no sentido pieguinha do termo ("você é o que escolhe ser"), mas... escolha. Um momento em que você opta por não se desgastar. Porque, convenhamos, a vida já é difícil demais pra ficar em atrito o tempo todo com alguém que veementemente discorda de nós. 


Eu acho chato, muito chato, que o feminismo e os direitos humanos sejam vistos, por muitxs, como mera questão de opinião. Eu sonho verdadeiramente com o dia em que será ponto pacífico que mulheres e minorias merecem ser tratadxs com dignidade, em igualdade de direitos. Que o respeito é para todxs, independentemente de gênero, raça, crença, orientação sexual, status social. Entretanto, eu tenho consciência que esse dia ainda está bem longe. O andar da carruagem da política do nosso país, e do mundo, é prova disso. 


Como os tempos são difíceis para os sonhadores, como bem disse a nossa querida Amélie Poulain, a prática do nosso ativismo muitas vezes se torna angustiante, insuportável. Não é rara a sensação de perda de tempo, a frustração em ver que não estão lhe ouvindo, ou ainda, que lhe taxam de rebelde sem causa, que isso é "fase", ou então, que você enlouqueceu de vez. Em maior ou menor grau, eu já ouvi tudo isso. 


Mas então... o que me faz caminhar, o que me motiva a continuar, mesmo entre trancos e barrancos, com longos períodos de silêncio e muitas oportunidades em que eu simplesmente não encontro forças para falar? Eu acredito que a resposta está na sororidade. Está em encontrar espaços, no meu caso online, em que eu posso discutir idéias, estar com pessoas que acreditam no mesmo que eu. Está em ver minhas amigas indo para marchas diversas e vibrar com isso. Está em saber que alguma amiga que você jamais imaginava que concordaria contigo foi lá e curtiu seu status. Está em perceber que há meninas que enfrentam um verdadeiro calvário em suas famílias porque resolveram ser elas mesmas, ou seja: seres humanas dotadas de inteligência, personalidade própria, sexualidade, sonhos que ultrapassam tradições. 


Imagem retirada do blog Cabeça Tédio


Eu sei que o texto já está demasiadamente longo, mas queria deixar uma história que ouvi esses dias, em um curso que estou tentando fazer fazendo online: é sabido que o racismo impera nos Estados Unidos. Houve um tempo, porém, em que ser negrx era muito mais insuportável do que hoje em dia. Nesse tempo, que no caso do curso se trata do final do século XIX e início do XX, as pessoas negras viviam amedrontadas, pois havia uma alta probabilidade de serem linchadas em público, especialmente no sul do país. 


Imperava, então, a noção de que as raças deveriam permanecer separadas, mas sem diferenças no tratamento dado a todxs. Dessa forma, um bonde dedicado a brancxs deveria ter o mesmo conforto que um bonde dedicado a negrxs e todxs viveriam felizes para sempre, fechadxs em suas bolhas. 


Acontece que na vida real as coisas não eram tão simples. Não era raro que algum branco entrasse em lotações destinadas a negrxs, e os motoristas simplesmente pediam que algum negro cedesse o lugar ao branco. Também era bem difícil para os negrxs, que precisavam do transporte coletivo bem mais que as pessoas brancas, que dispunham muitas vezes de condução própria para se locomoverem pela cidade. E bem. O "conforto igual" só existia mesmo no papel. 


Então. Várixs negrxs resolveram burlar a lei, entrando nas lotações que não lhes eram alocadas. E houve brigas. E tumultos. E linchamentos. E protestos. E processos. Contudo, xs negrxs, que foram se organizando cada vez mais, perceberam que talvez fosse mais fácil - e eficaz - boicotar o transporte público. Daí que elxs resolveram andar. 


Campanhas e mais campanhas foram feitas para angariar pessoas ao boicote. E dentre as inúmeras histórias que a professora contou, uma ficou na minha mente: a de uma empregada doméstica cujo patrão, branco, não aceitava que ela andasse. Ela teria que levar o almoço para o patrão todos os dias, e voltar para a casa dele e preparar o seu jantar. Se ela caminhasse, o almoço chegava frio. 


Essa empregada discutia diariamente com o seu patrão. Pelos registros, percebe-se que ela realmente colocava a sua voz sempre que necessário. Parece que ficou acordado que ela pegaria a condução para levar o almoço a ele, mas voltaria a pé para casa. Mas, todos os dias eles discutiam a respeito. E ela, vendo que não poderia contrariar o patrão totalmente, encontrou a mencionada saída. 


Pode ser que o patrão realmente amasse a sua comida. Pode ser que seu dote culinário sobrepujava-se ao inconveniente de discutir com ela. Porém, uma análise mais atenta a tudo o que acontecia na época nos dá a dica: ele certamente não procurava uma outra empregada porque sabia que seria a mesma coisa. Porque todas aderiram ao boicote.


Aquela empregada fazia o que estava a seu alcance fazer. Mesmo tendo que pegar o tal do ônibus uma vez ao dia, ela fez o que podia fazer. Dentro das suas possibilidades. Porque ela sabia que aquilo era maior que ela. Que ela pertencia a algo grande. 





E é assim que eu me vejo. É nesse tipo de história que eu encontro forças para continuar a fazer o que eu posso, ou seja, escrever de vez em quando, em prol de uma causa que eu sei que é muito, muito maior que eu. 

Chegou um momento em minha vida em que percebi que o sofrimento é inevitável. Ficar em silêncio, entretanto, é opcional. É por isso que tenho tentado, cada vez mais, seguir adiante com a minha militância. Com o foco naquilo que realmente importa. Portanto, quando a convivência é compulsória, é preciso tentar encontrar uma forma de militar sem que a relação se deteriore tanto. E pra quando não houver necessariamente a obrigação de conviver:

"Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar" - Geraldo Vandré.