terça-feira, 30 de outubro de 2012

O eterno mito das mulheres incompletas

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta.

A mídia e toda a sociedade trata as mulheres como se fôssemos completamente dependentes da opinião masculina e do desejo masculino. O pensamento vigente é que uma mulher só pode ser genuinamente feliz se acompanhada de um homem que a deseja.

As expressões "mal amada" e "mal comida" são bons exemplos de como a sociedade insiste em colocar como o desejo principal da mulher o relacionamento com um homem. Mulheres que desafiam a norma e fazem parte de movimentos sociais, como o feminismo, são constantemente atacadas por essas ofensas. Ofender uma mulher com essas expressões é afirmar que toda reclamação, revolta, luta dela só existe porque ela não tá ocupada sendo feliz com um homem bom, sabe? Como se qualquer revolta feminina fosse fruto da falta de despertar desejos masculinos, na falta de amor e não no fato de que nosso gênero é constantemente diminuído, oprimido, desrespeitado e violentado.

E ainda tem o fator de que condicionar a felicidade feminina aos homens dessa forma, colocar essa preocupação de atrair o desejo masculino, de buscar a qualquer custo um namorado, como algo feminino é mais uma vez reafirmar a suposta inferioridade feminina. Afinal, numa sociedade que separa as pessoas entre racionais e emocionais, como se apenas as racionais tivessem o seu valor, dizer que mulheres precisam de homens para serem felizes é dizer que mulheres são fúteis, são irracionais e etc. Tanto a Paula, quanto a Gizelli, já trataram sobre o assunto.

Se você é mulher e está fora dos padrões de beleza (ou seja, praticamente todo mundo), você já deve ter ouvido algum "elogio" como: "Ah, tem homens que gostam de *insira aqui a característica sua que difere do padrão de beleza*", como se noticiar que você pode ser atraente para um homem fosse fazer sua autoestima se reerguer das cinzas. Como se a remota esperança de que algum dia você pode despertar o desejo masculino fosse uma dádiva. Como se somente a possibilidade de atrair os olhares masculinos fosse capaz de fazer uma mulher se sentir bem. E ainda tem o fator de que toda decisão feminina, seja mudar de emprego, seja cortar o cabelo ou vestir uma roupa diferente, conforme a sociedade, é condicionada ao que o homem vai acha daquilo, como se mulheres não fossem donas de seus corpos e de suas vidas e precisassem sempre de alguém pra guiá-las ou mesmo como se a gente precisasse sempre pensar em agradar o parceiro acima de agradar a si.

Não posso ser a mulher da sua vida
porque sou a mulher da minha.
A cultura de que somente acompanhada de um homem uma mulher pode ser feliz e tem valor fomenta uma série de coisas: A mulher é considerada a responsável por fazer o relacionamento dar certo, porque para o status quo é ela que precisa de manter aquela relação e isso enseja dependências emocionais, uma certa obrigação de se submeter ao que o parceiro deseja e etc.
A sociedade trata a mulher como a maior interessada, às vezes até mesmo como a única interessada em manter um relacionamento, afinal, o modelo tradicional de relacionamento coloca o homem  como provedor (atualmente, o principal provedor, né?) e a mulher como a pessoa que depende do outro, a pessoa que consome e quer sempre consumir. Além disso, há também o fato de que os homens são positivamente vistos se tem várias mulheres, se fazem muito sexo, e as mulheres se fazem muito sexo, são consideradas vadias, que é um termo ofensivo se não ressignificado. O homem continuar solteiro é algo positivo, até porque se ele adiar o casamento, mesmo ao envelhecer será visto como mais sábio e charmoso, enquanto a mulher solteira é vista como mal amada, "ninguém aguentou" e que só tem valor se é jovem e dentro dos padrões estéticos. Todos esses pontos relacionados ocasionam naquela camisa famosa e muito vendida onde o casamento para o cara é o game over e para a mulher é sinônimo de felicidade e naquela famosa piadinha que diz que o cara casa de terno preto porque tá de luto pela vida de solteiro, pelas mulheres que não são mais "dele" e etc.

Outra coisa é que tratam tudo que uma mulher faz como se fosse algo para chamar atenção dos homens: a roupa que ela usa, o corte de cabelo, se usa salto ou não. Tratar nossa vida como se o objetivo dela fosse despertar o desejo masculino faz com que cantadas de rua sejam consideradas algo "simpático, um elogio", sendo que elas são invasivas e não desejadas; Gizelli aprofundou muito nesse ponto aqui. O vínculo desse comportamento de assédio nas ruas é fácil de se perceber quando a gente pega nossas experiências e vê que se a gente tá acompanhada de um homem, as "cantadas" acontecem com menos frequência; o que mostra que  se a gente tá acompanhada de um homem, a gente tem "dono", nosso corpo não está mais disponível.

Sou alérgica ao patriarcado
E por fim, destaco o quão heteronormativo é fazer essa vinculação. Tratar as mulheres dessa forma é ignorar que lésbicas existem e que lésbicas são mulheres. É compactuar para a invisibilidade lésbica e para que as mulheres que se relacionam com mulheres sejam tratadas como fetiches masculinos e não como donas de sua sexualidade.

E ainda vejo uma possibilidade de questionamento, para o meio feminista, sobre o assunto: Aquela famosa frase "homem feminista é sexy" talvez carregue um pouco desse mito e seus desdobramentos. Eu já usei essa frase, muita gente que eu admiro já usou a frase, mas nem por isso a gente não deva questioná-la, né? Afinal, o uso dessa frase coloca o homem feminista como um cara que merece mais atenção que os outros, ser considerado sexy, atraente seria um prêmio para a pessoa, sabe o confete que alguns caras acham que merecem por serem legais com mulher? Então, o homem feminista ser visto como sexy é uma forma de jogar confete, sendo que respeitar mulheres como pessoas é uma obrigação. 

Sei que essa frase também é uma forma de combater pensamentos como que o homem deve ser rude, grosso e sistemático, que tem que "mandar na mulher" e todos os desdobramentos desse pensamento, mas acho que vale a pena a gente refletir.

Por que atrair atenção dos homens para o feminismo falando de sensualidade e não em direitos de fato, sabe? Por que valorizar tanto o apoio dos homens ao movimento? Será que usar essa frase não fortifica o mito de que homens estão sempre interessados em sexo e mulheres em outras coisas, como se o sexo para as mulheres dependesse sempre de outros fatores mais "teóricos"? Será que essa frase não reafirma a dependência feminina? Será que essa frase não supervaloriza a participação masculina num movimento que deveria se focar principalmente nas mulheres?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E o genocídio dos povos indígenas continua



Ontem, Eliane Brum escreveu um texto intitulado "Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui" que comenta a situação absurda em que os indígenas da etnia Guarani-Kaiowá se encontram. A carta completa pode ser lida aqui.

O extermínio dos povos e culturas indígenas no Brasil não é algo do passado, ainda hoje acontece e encontra aval do Estado, conforme a exposição de Eliane deixa claro. É lamentável como esse processo de extermínio continua e como os grupos indígenas não têm poder de voz. 

O interesse dos latifundiários ainda é considerado algo acima do interesse, cultura e vida dos indígenas. O suicídio, o estupro e assassinato dos indígenas é um problema atual que é invisibilizado pela idéia de que a cultura das tribos é inferior, menos desenvolvida ou qualquer ideia racista como essas.



Os direitos dos indígenas são negligenciados pelo Estado brasileiro. Há previsão constitucional de que o Estado reconhece a cultura, os direitos e as terras deles, mas cadê as ações efetivas que tentem garantir o respeito ao art. 231 da Constituição da República? Nem mesmo a Justiça Federal, parte do poder judiciário do Estado, faz sua parte, pelo contrário, alimenta ainda mais a situação de injustiça. Poucos direitos foram conquistados após a promulgação da Constituição, alguns povos foram reconhecidos, algumas terras foram demarcadas, mas há diversas ações tramitando na justiça contra essas demarcações. 

Há ainda uma Proposta de Emenda à Constituição que tem apoio da bancada ruralista e evangélica do Congresso que se sancionada prejudicará não só as terras indígenas, mas também a dos quilombolas, o próprio meio ambiente e o que ela propõe também é um atentado a separação de poderes, componente do próprio Estado Democrático de Direito. A PEC 215 foi considerada inconstitucional pela associação dos juízes pela Democracia. 


Vídeo vinculado também nessa matéria.

Vídeo vinculado também aqui.

Assinem a petição a favor dos direitos da etnia Guarani-Kaiowá, aqui
Texto "Batalha das ideias: Ser índio em tempos de mercadoria", aqui
Índia Guarani-Kaiowá é estuprada por oito homens, notícia aqui
E assinem essa aqui também, que é contra a PEC 215 citada no corpo do texto. 
Atos em São Paulo em apoio aos indígenas da etnia Guarani-Kaiowá, aqui, aqui e aqui. (Não sei se eles vão se unir ou não, só procurei os links pra divulgar).
Ato em Belo Horizonte, aqui. Ato em BH, aqui
Ato carioca, aqui
Marcha em Brasília, aqui

Cultura do estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado.


"Las leyes son como las mujeres, están para violarlas".
 As leis são comos as mulheres, existem para serem violadas.

A frase, incrivelmente misógina, foi cometida há algumas semanas atrás pelo então presidente do Conselho Geral da Cidadania Espanhola no Exterior, o senhor José Manuel Castelao Bragaño. Felizmente, a repercussão negativa fez com que ele renunciasse ao cargo poucas horas após ter verbalizado tamanha imbecilidade (cargos de poder nas mãos de machistas é uma coisa que tira a tranquilidade do meu sono). Então, se ele foi afastado, qual o problema? O problema, queridxs, é que embora a sociedade rejeite de pronto uma frase que explicita o estupro, não rejeita uma série de outras frases e atitudes que acabam por tornar banal para o cidadão comum aquilo parece chocante quando colocado com tanta clareza.

Há uma relação óbvia entre a frase e a cultura do estupro. Já tocamos no assunto algumas vezes, mas não custa relembrar: quando usamos a expressão "cultura do estupro", nos referimos a como a sociedade coloca as mulheres em posição objetificante e vulnerável, através de pequenas violências e de um discurso agressor (porém velado) que acabam por fomentar o estupro. Aqui no blog falamos do assunto na época dos protestos contra a Nova Schin e contra a Prudence.

Imagem da Página Transexualismo
da Depressão, no Facebook
Dessa vez, entretanto, quero focar no espaço público, que é palco constante dessas demonstrações de desrespeito com as mulheres. Por vezes ressaltando aquilo que temos em comum (ou seja meramente por sermos mulheres), e outras vezes desrespeitando aspectos singulares de cada mulher. Por exemplo: mulheres trans são consideradas aberrações, transformam sua identidade num mero fetiche; mulheres negras são hipersexualizadas, uma lembrança do nosso passado escravagista; Funkeiras são as novas Genis; Gordas são humilhadas por estarem fora do padrão estético eurocêntrico e racista vigente (Alô, Marisa!); mulheres que se prostituem são desvinculadas de sua humanidade, tornando-se mero objeto, de forma que estão à disposição de qualquer abuso, num grau de vulnerabilidade muito grande e assim por diante. E é claro, tudo isso pode vir a desencadear um quadro de violência física também. No fim, em maior ou menor escala, o espaço público é hostil com as mulheres.

Essa hostilidade não encontra respaldo em lei escrita, pois as calçadas de toda e qualquer cidade não vêm marcadas para um gênero específico, tampouco o transporte público. A rua não tem dono, de forma que todxs possuem o direito de ir e vir. Contudo, para as mulheres esse direito está sempre ameaçado. 

Mulheres no mundo todo sofrem com o
assédio, independente da roupa que usam.
Não faltam exemplos: Há poucos dias, fiquei sabendo de um fórum dentro do Imgur em que um professor postava fotos que tirava de suas alunas menores de idade (sem a sua permissão, claro). Ele simplesmente as fotografava em espaços públicos e colocava a foto no fórum. Seguindo o tenebroso exemplo, criaram uma página no facebook em que postavam fotos de mulheres no metrô de São Paulo. ~~Daora a vida, néaum?~~ E sabe o que é pior? alguns dirão que elas já tinham se exposto no espaço público ao sair de casa vestindo roupa justa, colada, curta ou o que for. Mas elas nunca autorizaram ninguém a fotografá-las e usar sua imagem para fins punhetísticos. Simples assim, o corpo de uma pessoa é uma exclusividade dela, a roupa que ela usa não diminui esse direito. Aliás, roupa não previne o estupro em lugar nenhum do mundo. A forma como fala, anda ou se comporta, nada disso é determinante.

Imagem de documentário de
Sofia Peeters sobre o assédio nas ruas européias
São muitas as pequenas manifestações abusivas no tocante ao corpo da mulher. Outro dia, uma amiga relatou que estava dentro do táxi, no semáforo, quando um motociclista parou ao lado do veículo e ficou olhando as pernas dela. Ela fechou o vidro, indicando que estava incomodada e o sujeito continuou a observá-la. Outro exemplo é um depoimento que recebemos nos primórdios desse blog de alguém que sofreu abuso num espaço público. E o que as pessoas que estavam perto fizeram? Riram dela. 

Quadro BIZARRO do  Programa Zorra Total
Está tudo muito errado quando a maior emissora de TV aberta do Brasil coloca um quadro humorístico em que mulheres são bolinadas no metrô e se sentem agradecidas por isso. Sabe aquela piadinha super ~~politicamente incorreta~~ que afirma que mulher feia tem que agradecer se for estuprada? Pois é, continua fazendo muita gente rir, mas faz com que algumas pessoas lamentem também. É claro que nas cabeças conservadoras o lamento de alguns é menos importante que a diversão de outros. Só que o problema é tão sério que em muitos metrôs do mundo existem vagões exclusivamente femininos. A incorreção da piada não evoca nada de novo, de transgressor, apenas legitima o estupro, que é prática opressiva mais velha que o mundo. 

Giovana contando sobre
o assédio que sofreu
Mesmo com todos esses argumentos, os defensores do assédio de rua alegam que se estivessem em situação oposta, se em vez de assediar, fossem assediados, eles gostariam muito. E é aí que entra o privilégio: Mulheres são assediadas nas ruas desde muito jovens. Ao entrar na adolescência se torna comum ouvir todo tipo de cantadas. Acredite ou não, isso nos causa medo. Desde cedo passamos a temer pela nossa integridade física, pelo nosso corpo. Não precisa sequer adentrar qualquer tipo de padrão de beleza para isso, mulheres que não se enquadram nas características racistas e gordofóbicas do padrão eurocêntrico de beleza que rege a sociedade ocidental também são vítimas de assédio e de estupro. Assediar alguém na rua não é uma forma de abordar, de conhecer, é meramente uma forma de intimidar e mostrar poder. Quando reclamamos do desrespeito, entra em ação a eterna galerinha do "deixa disso" que acredita que a paz só reina no não enfrentamento, que é a forma como toda mulher deveria agir: de forma passiva. Afinal cantada de rua não é assédio, é elogio, eles dizem. Quando fugimos à passividade de considerar que assédio é um afago no ego, nos dizem para andar em outras calçadas.

Marcha em BH
Além dos espaços de transição, dos meios de transporte, há espaços que são considerados determinantes para definir o caráter de uma mulher, acredite você ou não, o ano é 2012, mas ainda tem gente achando que mulher que frequenta baile funk não se dá ao valor ou que bar que tem sinuca não é lugar de mulher. Enfim, aquela velha história de tentar determinar o que é "lugar de mulher". Terrível, mas esse pensamento ainda existe e se propaga na medida em que o direito de ir e vir de uma mulher é cerceado pelo assédio, pelas ofensas ou pelo medo. 

E assim seguimos, alimentando uma cultura que acredita que é normal um cara passar a mão na bunda de alguém na balada, puxar o cabelo da garota, tomar vantagem da bebedeira para conseguir ficar com ela, que é banal ser encoxada num ônibus ou num vagão de metrô. E nada disso é diferente de dizer que mulheres existem para serem violadas.

Se você acha que a culpa de ser assediada, ou desrespeitada de inúmeras maneiras é da mulher, saiba: Culpar mulheres pela violência sofrida é sempre a primeira defesa de quem é mantenedor da cultura do estupro. Então, se nos dizem que a culpa é nossa, que roupa devemos vestir? Que peso devemos ter? em que táxi devemos andar? Em qual estação de metrô? Em qual vagão? Em qual cidade? Qual calçada? A que horas? A verdade é que não há roupa ou comportamento que nos liberte dessa opressão sobre o nosso direito de ir e vir. Outras calçadas, no fim, não nos protegem quando o verdadeiro problema é todo um modo de viver, toda uma compreensão distorcida de nossa identidade e de nossa humanidade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De mulher para mulher, Machista


Essa semana mais uma propaganda da Marisa foi veiculada e pela terceira vez seguida, estamos diante de uma bela demonstração de preconceito. Só para variar, afinal isso quase nem acontece na publicidade, não é? O que realmente causa algum espanto é que uma empresa cujo slogan é "de mulher para mulher" seja machista. Aliás, já li algumas pessoas na rede satirizarem o slogan da Marisa: "De mulher para mulher, Machista". De fato, eu não poderia concordar mais. Vamos relembrar as campanhas que nos fizeram repudiar a marca, mas antes do almoço que é para não acabar botando tudo para fora, beleza?

Primeiro rolou aquela propaganda de lingerie super bacana (só que jamais), mostrando "estatísticas" sobre como está difícil conseguir homem na praça. 





A premissa é: Mulheres (hetero, claro, porque para a Marisa, lésbicas não existem) passem a competir entre si por um belíssimo exemplar de macho viril. Para a Marisa, homem só vale à pena se seguir à risca aqueles velhos estereótipos de gênero. Homem não pode gostar de bichinhos, morar com os pais, ter medo de barata... enfim. O horror, o horror. Vê se pode, homem que é homem não faz esse tipo de coisa, não é? Ai, Marisa... Que belo desserviço você faz à todas as mulheres e aos homens sugerindo esses padrões de comportamento, que só oprimem à todxs. Aqui podemos ver uma ótima palestra de Tony Porter sobre como a sociedade cria os meninos para odiar mulheres e sobre como colocamos em todos, inclusive nos homens, as algemas do patriarcado.

Antes fosse só isso... mas não foi! Começaram as críticas a essa propaganda nas redes e a agência que cometeu essa atrocidade resolveu ATACAR as consumidoras. Sim, queridos. Veja o print com seus próprios olhinhos nesse post. A rede Marisa, em sua página no Facebook, dizia ouvir as reclamações e agradecia as críticas, mas nada foi feito, a propaganda continuou sendo exibida e a agência seguiu cometendo erros inacreditáveis nas campanhas da Marisa. Porém, não vou crucificar a agência, uma vez que é o cliente que tem a palavra final. 

Pouco tempo depois, tivemos outra ótima surpresa. A Marisa achou que seria uma excelente idéia inverter os papéis de gênero, botando mulheres para assediar homens. OPA, assediar, não! Elogiar! 





Para a Marisa, assédio de rua é elogio. Veja, sabe quando um homem desconhecido aborda você na rua te chamando de gostosa, dizendo o que faria com você na cama, objetificando, desrespeitando? Pois bem, isso tudo é um grande elogio, aparentemente deveríamos ser submissas e agradecer. Mano, que ano é hoje? Marisa, acho que está faltando uma informação: os anos 50 já se foram há uns 60 anos! 

Agora, na campanha mais recente, que tal uma boa dose de gordofobia? Propaganda meramente machista é coisa do passado, a onda agora é estimular um transtorno alimentar. Sim, porque no verão só as magras são felizes. Não venham usar o argumento "saúde" por favor, porque NADA nesse comercial indica que o motivo da dieta da moça seja esse. Especialmente pelo final da propaganda quando a macharada toda olha para a mulher como se ela fosse um pedaço de carne. 



Me desculpe se não elogio a grande criatividade dessa propaganda, mas é que o R7 já fez coisa bem similar há pouquíssimo tempo, com a manchete "elas não estão preparadas para o verão". Essa idéia não é exatamente original, entende? Todo mundo já se cansou de ouvir essa babaquice. Inclusive recomendo fortemente a página de humor do Facebook que satiriza essa notícia, a "Projeto Verão 2013"

Imagem da página "Projeto Verão" no Facebook

São tantos os problemas dessa propaganda que fica difícil começar a listar. Primeiro, a perpetuação de um padrão de beleza gordofóbico. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como obesidade não é sinônimo de doença. Algumas pesquisas bem recentes apontam que o obeso ativo é uma pessoa saudável. Pior ainda, atrelar a felicidade à manutenção da magreza. GENTE.

Depois, a própria idéia de que comer alimentos saudáveis é um sacrifício é contraproducente no sentido de garantir qualidade de alimentação, pois somos sempre estimulados a comer fora de hora, alimentos industrializados, altamente calóricos, fast food e etc.

E por fim, aquilo que me parece ser o mais grave de tudo: Retirar de nós o direito de ir e vir livremente. Como se o fato de não estar perfeitamente dentro de um padrão de beleza racista e gordofóbico fosse determinante para que não exista o direito de utilizar o espaço público. E sabe porque isso é tão ruim? Porque tem muita gente por aí que realmente pensa assim, a Carol Marques pontuou muito bem:



Lugar onde eram preparadas as
refeições para funcionários de oficina
de confecção da Marisa
Já comprei roupas na Marisa e acho que a qualidade é bem abaixo da média. Além disso, não sei se todos estão a par, mas a empresa já foi denunciada por ligação com o trabalho análogo ao trabalho escravo (com indícios de tráfico de pessoas) em algumas de suas oficinas de produção. Ao menos é o que informa essa notícia aqui. Foi realizado um acordo em 2007, chamado TAC, Termo de Ajustamento de Conduta. Contudo, recentemente, doída pelo dano que fez à própria imagem, a Marisa recebeu uma punição pela contestação que fez sobre a legalidade da Lista suja do Ministério do Trabalho . Falando muito claramente: A "lista suja" só prejudica o empregador. E é claro que no caso da Marisa, o empregador é uma grande rede de confecção. É quase uma carteirada, sabe? "Quem é o Ministério do Trabalho para decidir proceder de forma a prejudicar grandes empresas em prol de condições de trabalho justas para os funcionários?". Eu é que nunca mais vou de Marisa. Não quero nem de graça.

Então, recapitulando, machista, heteronormativa, gordofóbica e exploradora. O que mais está faltando, Marisa?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Guestpost: O Tatu Bola e o espaço público em Porto Alegre

Augusto Salla é publicitário, tem um blog e tem ataques histéricos no Twitter.
Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Nesta altura do campeonato, já deve ter ficado claro que o grande legado da Copa do Mundo de 2014 (e das Olimpíadas de 2016) estará dentro do bolso de grandes empreiteiras. Da promessa de uma nova infra-estrutura para toda a população, a única coisa que vemos são estádios financiados pelo dinheiro público e violência contra a população mais carente.

Assim como ocorreu no Pan em 2007, na Cidade do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária entra forte para lucrar o máximo possível independentemente dos custos sociais, enquanto o Estado usa de todo o seu aparato para “maquiar” a cidade. Isso é de praxe em grandes eventos esportivos no Terceiro Mundo: na África do Sul, o Estado também removeu a população carente dos centros das cidades para que os turistas não os encontrassem:




Na Vila Chocolatão, no Pinheirinho, no Vidigal ou em tantos outros lugares Brasil afora, é certo que há muita precariedade, falta de saneamento básico e por vezes, a ausência completa do Estado que deixa de cumprir obrigações básicas para com o povo. Assim, o que o Estado faz é usar as suas próprias falhas como justificativa para arrancar as pessoas das suas casas quando está apenas atendendo a interesses privados.

O que vemos é que as pessoas são jogadas para cada vez mais longe da cidade perdendo não apenas as suas casas, mas também (e especialmente) as suas comunidades. E o pior é que muitas famílias só possuem promessas do Poder Público de novas moradias: as pessoas estão sendo expulsas das suas casas sem o Governo garantir um teto - por vezes, se obrigam a receber um auxílio-aluguel que dificilmente cobre as despesas de uma moradia digna e acessível.

Neste jogo, quem apanha é o pobre e quem faz o papel de agente do especulador é a polícia. É ela que reprime manifestações, que agride e que obriga as pessoas a saírem das suas casas.

O que vem acontecendo em Porto Alegre

A especulação imobiliária está firme e forte em Porto Alegre assim como a higienização da Cidade Baixa, bairro bohêmio da cidade. Ainda no primeiro semestre, a Prefeitura fechou o cerco aos bares com a justificativa de que a maioria não era regulada e que incentivavam a baderna durante a madrugada.

Esse cercamento ao bairro acabou por afetar não apenas quem curtia a vida noturna, mas diversos profissionais que faziam a sua vida ali resultando em desemprego para garçons, cozinheiros e músicos, conforme lembrou na época o advogado Marcelo Almeida. Inclusive, os músicos da cidade realizaram uma manifestação de protesto.

É importante salientar que a questão gira em torno da falta de alvarás dos bares, mas que as secretarias da Prefeitura têm dificultado há anos a entrega de alvarás aos empresários.

Pois bem, por mais que possamos encontrar razões (justas!) para uma maior fiscalização nos bares da região, a verdade é que o objetivo é higienização, é tirar o povo da rua, transformar o bairro para que a especulação imobiliária faça o que gosta de fazer: inflacionar valores e lucrar.

Aliás, mesmo aqui, numa fiscalização a estabelecimentos privados, a Brigada Militar se comportou de forma agressiva buscando intimidar os presentes nos bares ao entrar com armas em punho quando acompanhavam os fiscais. E aí pergunto, pra quê?

O Araújo Viana

O Auditório Araújo Viana era patrimônio público e se localiza em um dos maiores parques de Porto Alegre, tendo sido palco de atrações para o povo há muito tempo. Infelizmente, ele se encontrava em péssimas condições por descaso do Poder Público.

A solução: privatizar! Parceria do poder público com o setor privado para reformar (e lucrar muito). Não importa que agora é caro, do ingresso à latinha de refrigerante, o local está ótimo, então a classe média está muito feliz.

O Largo Glênio Peres

No Centro de Porto Alegre, ao lado do Mercado Público, existe o chamado Largo Glênio Peres. Este local sempre foi reservado para pedestres, manifestações e feiras, inclusive, uma Feira de Economia Solidária que ocorria periodicamente no local.

Com o absurdo do trânsito de Porto Alegre, a Prefeitura notou que havia um espaço no Centro que AINDA não havia sido colonizado por carros: o Largo Glênio Peres. Tchau feiras, tchau manifestações culturais, tchau espaço público para o cidadão, agora, durante todo o final de semana, o espaço é estacionamento.

Não contente com isso, a Prefeitura deixou a Coca-Cola “adotar” o Largo. Adotar, claro, é eufemismo para transformá-lo em espaço privado de publicidade para a marca.


O povo então foi se manifestar numa Defesa Pública da Alegria: parem com as privatizações do espaço público e devolvam a alegria e a democracia que tornou Porto Alegre referência em políticas republicanas para o resto do país (não é mais, mas já foi).

Dançamos, cantamos, beijamos, nos abraçamos, sorrimos e nos divertimos pra caramba. Sem violência, sem baderna, apenas alegria.

Entretanto, lá estavam cerca de 20 policiais da Brigada Militar guardando um BONECO INFLÁVEL, propaganda de uma empresa privada em um espaço PÚBLICO. Está certo, o policiamento em Porto Alegre está perfeito que pode deixar 20 brigadianos guardando um boneco inflável.

Danillo Ferreira, Tenente da Polícia Militar da Bahia, foi muito lúcido ao escrever que

Dentre todos os elementos que podem ser discutidos em momentos assim, o que agora nos chama a atenção é a natureza dos bens jurídicos que são postos como centrais nos esforços e dedicações das polícias. Como instituições com justificativa existencial pública, não é demais indagar sobre como se deve interpretar a designação de tal aparato policial para a defesa de um boneco de plástico. Mais: expor policiais ao confronto com manifestantes, e expor manifestantes ao confronto com policiais, em um jogo de interesses que não haveria de ter outro resultado.

Um dos manifestantes entrou no cercado ao redor do boneco e ficou por lá. Tocou pandeiro, fumou um cigarro. Mais nada, sem tentar furar o boneco, sem tentar derrubá-lo. Apenas ocupou um espaço PÚBLICO.

Então a Brigada Militar agiu como sempre age ao encontrar manifestações populares: partiu para a violência contando com o reforço de mais QUARENTA policiais, totalizando 60 brigadianos para defender um boneco inflável. Com truculência, foram para cima do manifestante e foi aí que o Largo Glênio Peres e arredores se tornaram um campo de batalha, pois os manifestantes reagiram - alguns atacando a Brigada, outros se defendendo, derrubando as grades do tatu e outros ainda defendendo pessoas que estavam sendo agredidas de forma bárbara pela polícia.

Pois, ora, não é barbárie agredir uma pessoa já jogada no chão e dominada? Não é barbárie correr atrás de manifestantes por mais de 100m com a única intenção de agredir? Não é barbárie bater na cabeça, quebrar braços, dar tiros de borracha à queima-roupa em pessoas desarmadas? Não é barbárie arrancar o celular de uma pessoa que não estava atacando a polícia e ainda agredi-la? Não é barbárie espancar pessoas que nem na manifestação estavam, mas tiveram o azar de estarem nos arredores naquele momento?

A justificativa da Brigada Militar era de que os manifestantes haviam danificado o boneco. MENTIRA! Conforme Hilton Muller, delegado da Polícia Civil, o boneco NÃO FOI danificado.

O boneco teve o seu aparelho de ventilação desligado após a Brigada Militar e a Guarda Municipal começarem as agressões. Quem foi? Tanto faz!

Mesmo que o boneco houvesse sido danificado por algum manifestante, isso não justificaria a truculência e violência desmedidas da Brigada Militar. Ora, o que vale mais, a vida e integridade física do ser humano ou a porcaria dum boneco inflável? Pra lembrar: bonecos infláveis não sangram.

Marcelli Cipriani relata que

Câmeras fotográficas e celulares dos que tentavam registrar as cenas mais violentas foram arrancadas e quebradas. Nenhuma policial possuía identificação na farda, e todos negavam-se peremptoriamente em conceder seu nome. Perguntou mais de uma vez? Vai apanhar também.

Amigas minhas, favoráveis e contrárias à derrubada do boneco, mas que não se encontravam nem ao menos perto dele, tiveram cortes na cabeça e o braço luxado. Uma, porque foi juntar os pertences de um menino que apanhava. Outra, porque – longe do tumulto – pediu, ingenuamente, para conversar. Ambas, já no chão, continuaram sendo brutalmente agredidas, física e verbalmente, sendo chamadas de vagabundas, putas, vadias, e todo o arsenal de armas verbais que jamais serão capazes de vencer uma luta.

Mas você pode achar que não foi nada demais. Buenas, olha aqui:



Esta violência da Brigada Militar NÃO É ISOLADA. É institucional! Não é por acaso que o Impedimento mandou uma carta aberta ao Governador do Estado do Rio Grande Sul pedindo o fim da presença da BM nos estádios.

O modus operandi das polícias ao encontrar manifestações populares é sempre o mesmo: repressão através da violência para defender os interesses de grandes empresas. Confira o documentário "Domínio Público". 

Assim, a discussão não deve se limitar a se os manifestantes destruíram um boneco inflável (e não o fizeram), mas 1) por que os espaços públicos das cidades estão sendo privatizados? 2) até quando a polícia irá agir de forma ignorante, bárbara, violenta e truculenta quando encontra manifestações públicas? 3) até quando teremos essa anomalia inconstitucional que são as polícias militares?  


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O patriarcado e a manutenção da cultura do ódio

Hoje eu quero falar de dois acontecimentos dessa última semana que me deixaram bem entristecida. Em ambos os episódios, eu senti o amargo sabor da constatação: a misoginia encontra-se tão profundamente arraigada em nossa sociedade que eu sinto, infelizmente, que o nosso ativismo está longe, bem longe de acabar.

O fato é que eu lembrei de um texto que li outro dia, que você pode encontrar aqui (em inglês), cujo título é “5 razões pelas quais a humanidade deseja desesperadamente que monstros existam”. Eu confesso que comecei a ler o texto e achei-o bem bobinho. Não sou muito afeita a fatalismos biológicos e o artigo se baseia neles para dizer que os seres humanos precisam criar monstros para fazer valer a sua própria existência. Em outras palavras, para que você se sinta melhor com as decisões altruístas que fez em sua vida, é preciso opô-las a decisões moralmente condenáveis tomadas por outras pessoas. E é preciso, também, odiar profundamente essas pessoas.

O autor segue adiante dizendo que seres humanos sentem a necessidade de acreditar que as pessoas são deliberadamente más. Que qualquer ação que o senso comum considere ruim é feita com uma risada maligna nos lábios, como quem diz “hoje, por pura maldade, eu vou fazer algo que todos reprovam”. Afinal de contas, se acreditarmos que o outro pode estar agindo de forma “errada” sem saber, estamos abrindo o precedente para o fato de que nós, também, erramos inconscientemente. Precisamos acreditar, por exemplo, que somos exímios cidadãos e cidadãs incorruptíveis, ainda que furemos fila, xinguemos muito no trânsito e bem... tem os produtos oriundos de trabalho escravo que consumimos, né?

E por quê exatamente eu estou falando desse artigo aqui? Ora, para argumentar que, embora eu não acredite que estejamos biologicamente preparados para agir pelo ódio, eu creio sim que a humanidade realmente se deixa levar pelo ódio. E vejo o patriarcado como a grande origem disso.  Afinal de contas, é a cultura patriarcal que ensina, repete e reafirma à exaustão que qualquer desvio de uma suposta conduta moralmente aceitável deve ser achincalhado, apedrejado, tratado como uma abominação e queimado em praça pública. É aí que vemos pessoas “de bem” recorrendo à barbárie total para defender o seu código de honra. É o ódio sendo pago com ódio em um ciclo que acaba por desumanizar não apenas quem agiu “errado”, mas também quem defende, a unhas e dentes, aquilo que é “certo”. A Paula já falou disso aqui .

E sim, um dos episódios é a surra que a Carminha levou do Tufão, na novela da Globo. O fato é que a Carminha é uma vilã. Seguindo a lógica exposta acima, a sociedade simplesmente vibrou com a surra que ela levou do marido. O que me deixa com a pulga atrás da orelha, afinal, o episódio em questão revela o quanto a nossa sociedade valoriza o ódio. E comportamentos de vingança. E ver a violência tomando lugar como um ato de justiça. O Tufão teria sido justo. Milhares e milhares de brasileiros fazem essa mesma “justiça”, esbofeteando esposas, surrando namoradas que traíram, ou fizeram algum “mal”. Os índices estão aí. Indianas são mortas aos montes por conta de uma única palavrinha: honra. É preciso dizer ou vocês já sacaram que a dinâmica do ódio é muito mais cruel para com as mulheres, dado o caráter misógino com que se apresenta? E que as novelas, enquanto moldura e representação da cultura brasileira, acabam por perpetuar essa dinâmica de crueldade?

Mas peraí, Flávia, você está dizendo que a Carminha, tendo enganado meio mundo e traído seu marido, estava certa? Não. O que eu estou dizendo, ou pelo menos tentando dizer, é que a sociedade acha certo o linchamento público de mulheres. A sociedade, por considerar algum comportamento errado, reage com total barbárie, dando espaço a seus instintos mais violentos, no sentido de fazer valer o seu código de honra. É disso que estou falando. É dessa naturalização da violência com altos requintes de misoginia. Afinal, as pessoas não se juntam para linchar moralmente um cara que trai a esposa. Trata-se de dois pesos e duas medidas. E nem adianta argumentar que não é assim, a traição vinda de ambos os lados é ruim e errada. Porque essa é uma visão minoritária. E não são as minorias que aumentam os índices de violência doméstica contra a mulher. Porém, as minorias podem levantar a voz, e tentar mudar um cenário que está muito, muito errado.

O outro exemplo que eu quero apresentar a vocês também me embrulha o estômago. Tava lá eu no facebook quando me deparo com uma página comemorando a atitude da Skol em retirar o patrocínio do festival em que o New Hit participaria. Como eu achei o post engajado, fui lá e curti a página. Minutos depois, para o meu horror, a página posta um slut-shaming aberto e declarado contra a mulher Pêra, que você pode conferir aqui.  A página em questão possui 314 mil seguidores. Trata-se, claramente, de um meio formador de opiniões. Eu fico apreensiva com essa onda de backlash e barbárie que recai sobre as mulheres. Sim, as mulheres-frutas, as piriguetes, as prostitutas, as trans e todas as outras mulheres que habitam esse mundo e que ousam agir diferente daquilo que se considera “correto”, não são uma categoria à parte. São mulheres. Porém, a sociedade insiste em alçá-las à categoria de monstros, abominações. Só para resguardar seu direito de apedrejar quem pensa e age diferente.

Em uma sociedade que divide as mulheres em boas x ruins, unicamente de acordo com aquilo que elas fazem com o próprio corpo, não é de se assustar que comentários como os que vos apresento abaixo tenham surgido, em consequência do simples fato de que ela se atreveu a se candidatar a alguma coisa. Como que uma vadia dessas ousa adentrar o imaculado cenário político brasileiro? Eu dividi os comentários em 3 categorias:

1. Slut-shaming:

“É só mais uma cadela querendo se eleger, mas enfim pra combinar com ladrões em brasilia agora teremos uma vadia.”

“Nossa! depois dessa eu abandonaria a política, mulherzinhas iguais a esta aí só servem pra ficar num puteiro servindo os porcos...que nojo!”

“"VOTEM NAS PUTAS , POIS VOTAR NOS FILHOS DELAS NÃO DEU CERTO...." Parece que ela levou essa frase bem a sério”

“mesmo se ela me desse o rabbo dia 6 no dia 7 eu nao votava nela kkk”

“VIROU É PUTARIA ISSO SIM. CÂMARA DE VEREADORES NÃO TEM ND A VER COM CAMERA DE TV OU D FILME PORNÔ OU DA PLAYBOY. SUA IMBECIL. VÁ VESTIR UMA ROUPA E PROCURAR UM JEITO DE ESTUDAR PRA SER ÚTIL À SOCIEDADE.”

2. Recalque misógino:

“Por favor nao votem no partido que aceitou esse tipo de pessoa. Imagina o nível dessa gente que aceita - servem pra representar quem?”

“Mulheres q não se valorizam e só lhes resta apelar para serxo a fim de conseguir algo na vida. Totalmente sem conteudo de trabalho e de v ida.”

"Uma vergonha ver que minhas avos lutaram pelo voto da mulher, e meus pais pela democracia para uma politica mais justa, e pensar que existem pessoas que sao capazes de jogar essa historia e seu voto em uma bunda! tem que ser um bando de bundao mesmo, pírcing intimo chove no brasil soque quando vierem reclamar que nada muda, que precisam de hospitais, creches, etc... diremos temos vaginas com pírcing!"

3. Manutenção da cultura do estupro:

“Ela sabe bem o que é democracia, ali naquela rabeta todo mundo tem direito de botar, ops, votar kkkkkkkkkk”

“VOU DEPOSITAR UM VOTO DE 25CM NA BUNDA DELA!!!”

Por fim, eu deixo aqui as perguntas: por que a sociedade insiste em agir assim? Por que as pessoas lançam mão de uma selvageria maior que os alvos de suas críticas, só para fazer valer a manutenção de seus valores? Por que uma mulher que resolve exercer a sua sexualidade abertamente tem que ter a sua humanidade extirpada por pessoas que se acham acima do bem e do mal? Por que as pessoas insistem em não entender que porrada não resolve nada, apenas colabora para a manutenção de um estado bruto de incivilidade? Até quando teremos que viver nessa cultura do ódio, que encontra todo apoio e respaldo no patriarcado?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Guestpost: Feministas chatas e lugares de fala

Chato: adj. Liso, plano; sem relevo/ Fig. Gír. Importuno, maçante, aborrecido; monótono.” (Dicionário online de português).  Mulheres que vem a público demandar direitos ou tentar se inserir em práticas intelectuais e artísticas desde sempre existiram. Formavam uma tímida minoria, mas estavam lá.  Elas foram chamadas de “imorais”, “perigosas”, “diabólicas”, “bruxas”, e recentemente ganharam o título de “feministas chatas”.  Como nossa sociedade constrói significados engessados em oposições binárias e pouco subjetivas, a “feminista chata” só poderia existir em oposição a uma suposta mulher não-chata, ou mulher agradável.  Essa mulher agradável seria aquela que atende a todos os desejos do marido/namorado, é delicada e feminina, não questiona os padrões estabelecidos e aceita com candura a “natural” superioridade masculina.  Do outro lado da história está a “feminista chata”,  uma criatura incômoda que repudia sua própria natureza (feminina) e aterroriza mesas de bar com “teorias conspiratórias” de que está sendo vilipendiada pelo sistema. Ela é vista como uma figura ranzinza com mania de perseguição.  Se nos permitirmos a reflexão por alguns minutos, chegaremos a duas conclusões essenciais:

 1- Estamos realmente sendo vilipendiadas pelo sistema patriarcal e isso deixa muitas de nós irritadas e reclamonas sim;
2- Não é necessariamente o conteúdo da fala das feministas que é chato e chateia os homens.  O que os perturba é algo muito mais profundo e naturalizado nas sociedades: o lugar de fala. Quem pode falar? De que lugar se pode falar? Sobre o que certas pessoas podem falar e outras não podem? O que realmente incomoda os homens é o fato de uma mulher tomar o lugar público da fala e falar sobre coisas relevantes, sobre temas da esfera pública.

O espaço feminino e o espaço masculino são divididos entre o par privado x público.  Há inúmeros exemplos da aplicação dessa oposição em nossas vidas práticas e ela vai desde nossos corpos até nossa educação social.  Nós mulheres temos corpos e lugares de fala privados, já os homens têm corpos e lugares de fala públicos. Enquanto meninas devem manter as pernas fechadas e nunca brincar com os órgãos sexuais, meninos têm os pênis elogiados e tratados como personagens à parte.  Enquanto o homem vai ao trabalho, aos bares e às praças, a mulher é ensinada a se manter no espaço doméstico.  Seu corpo é propriedade e a propriedade deve ser guardada em local seguro: a casa. Quando uma mulher é estuprada, as primeiras perguntas que as pessoas fazem são: “Onde ela estava? Que hora aconteceu o fato? O que ela estava vestindo?”  Especula-se se essa mulher não causou o estupro fazendo o que não deveria, ou seja, saindo de casa a noite expondo publicamente partes do seu corpo. A mulher que se mantém no espaço privado estaria teoricamente isenta do natural e incontrolável impulso sexual masculino. Essa, infelizmente, é a lógica comum em casos de estupro. Lógica bastante incoerente se considerarmos o que realmente nos dizem os dados. A maioria dos casos de violência contra a mulher tem origem dentro de casa e o sujeito é o próprio companheiro.

A história, a política e as artes foram sempre espaços negados à mulher. Educadas para a passividade e excluídas da fala pública, não é surpresa constatar que mesmo em 2012 ainda não há muitas mulheres intelectuais, cientistas, comentaristas políticas ou deputadas. Não há muitas mulheres no hall dos “formadores de opinião”, pois a elas não foi permitido ter uma opinião. A mulher que tem opinião própria e não tem vergonha de expô-la em público será eventualmente chamada de “chata”, e se ela defender os direitos de outras mulheres de também expressarem suas opiniões, então ela será coroada  “feminista chata”.
Mulheres não falam demais como esbraveja o senso comum. Elas falam de menos.  Basta observar uma sala de aula ou uma mesa de jantar com pessoas de ambos os sexos e notar a desigualdade de iniciativa de fala e turnos de fala entre homens e mulheres.  As mulheres falam pouco, e quando falam seu argumento não é levado a sério ou é infantilizado.  É preciso falar e falar em público. Só dando voz às mulheres poderemos empoderá-las. Por tudo isso, digo com orgulho que sou uma feminista chata e falastrona.


Lídia Freitas é formada em Letras e atualmente é servidora pública. Seus textos podem ser encontrados no blog abajur literário. Contato: lidiaspes@gmail.com